Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Vagão de fumantes do trem. Eu e Paulo SantAna

Após realizar a cobertura da Copa das Confederações de 2005
na Alemanha, quando a seleção brasileira conquistou o título atropelando a
Argentina na final, também consegui credenciamento para a Copa do Mundo de 2006. As duas
coberturas foram para a Revista Expansão – sendo que no Mundial também
publiquei uma coluna no Jornal de Gramado.

Foram 30 dias de Copa, com muitos deslocamentos. Acompanhei
a abertura do Mundial em Munique, e assisti à final em Berlim ao lado de Tostão
– vitória da Itália sobre a França. Com a credencial de jornalista, estava
autorizado a viajar de trem para qualquer destino da Alemanha sem pagar
qualquer euro. Bastava a credencial. E foi numa dessas movimentações que
embarquei num trem com a equipe da RBS.

Como o trem estava lotado, acabei ficando no vagão de fumantes
– quase vazio. Lá pelas tantas, surge aquela figura mítica – ainda mais para um
jovem jornalista gaúcho. Ele parou diante da porta de vidro, que abriu com um
sensor. Estava com uma carteira de cigarros na mão. Ele entrou no vagão e veio
em minha direção. Paulo SantAna estava necessitando fumar. Ele precisava
fumar.

Ele veio em minha direção e não tinha percebido que aquele
era o vagão de fumantes. Foi quando decidi abordá-lo: “Quer fumar, SantAna?”
Pego de surpresa com a abordagem em português, ele respondeu. “Sim sim…”. Então,
convidei o colunista pra sentar na minha frente. E começamos a papear. Ele, claro,
começou a fumar, inclusive me oferecendo um de seus cigarros. Fui me
apresentando, explicando como estava naquela cobertura. Ele tinha curiosidade
de saber o que um jornalista de Novo Hamburgo fazia “perdido” por ali. Falei do
meu irmão Tomás, que era tenista profissional, e que eu era primo de um colega
dele na RBS.

O SantAna estava “apavorado” com a organização da Copa.
Elogiava a estrutura dos alemães, comentou sobre limpeza, pontualidade e lá
pelas tantas largou: “Nós estamos a 250 km/h neste trem e nada treme. Tudo
silencioso. É inacreditável!” Eu estava ali maravilhado e realizando um sonho:
cobrir uma Copa do Mundo. E naquele momento conversava com um dos gênios da
imprensa gaúcha.

Eis que aparece no vagão o narrador Pedro Ernesto Denardin.
O SantAna convida o colega pra sentar, já me apresenta ao Denardin e seguimos
papeando. Ele estava no segundo cigarro, naturalmente. SantAna só estava
chateado com uma situação: tinha perdido dois óculos durante a Copa.
Só tinha mais um. Foi o único lamento dele. Falamos de alguns jogos da Copa,
quais as chances do Brasil diante da França nas quartas-de-final – a seleção
perdeu e foi desclassificada em Frankfurt – e mais algumas amenidades.

Enquanto fumava seu terceiro cigarro, pedi para o SantAna e
o Denardin autografarem um exemplar da Expansão, que ficaria como documento de
jornalistas e brasileiros presentes no Mundial – a revista foi entregue no
retorno aos diretores da Expansão, Sérgio Jost e Ana Maribel Pacheco. Além do
autógrafo, eu ainda registrava o momento com uma fotografia.

Finalizado o terceiro cigarro, SantAna pediu com licença e
se levantou. Precisava voltar ao convívio dos colegas de RBS. Nos demos um
aperto de mão. Não vi mais ele no Mundial. Mas aquele momento, em junho de
2006, permanece vivo na minha memória.

Paulo SantAna faleceu nesta quarta-feira (19.07), aos 78 anos, em
Porto Alegre. Descanse em paz, gênio.

ABAIXO O REGISTRO DE PEDRO ERNESTO DENARDIN AUTOGRAFANDO A EXPANSÃO

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