Milhões de novos desempregados. Crescimento bilionário da
dívida brasileira. Queda histórica do PIB. Fechamento inédito de empresas e
quebradeira de empreendimentos. Dezenas de milhões de brasileiros impactados e
devastados. 2020 está sendo sofrido…
Desde março deste ano o Brasil mergulhou na crise da pandemia
do novo coronavírus.
Será que estão todos neste mesmo barco? Todos se sacrificando? Todos sendo afetados? Não é bem assim.
Os servidores públicos – ou seja, os funcionários da
população – seguem recebendo seus salários. É uma realidade bem diferente e mais
sossegada na comparação com os milhões da iniciativa privada que ficaram desempregados e estão se desdobrando para
sobreviver com os R$ 600,00 mensais oferecidos pelo governo federal. Enquanto milhões não sabem se terão pão no dia de amanhã, outros usufruem do sossego da estabilidade.
CARGOS DE CONFIANÇA (CCS)
Nesse campo dos funcionários da população existe um grupo especial: os CCs políticos.
No caso do ilustrativo levantamento desta coluna, destaco CCs
identificados com Novo Hamburgo e de perfis bem interessantes. São nomes e sobrenomes conhecidos, rodados na política.
Alguns dos relacionados são conhecidos pela contundência em falar nos gastos abusivos do recurso público e defender o povo. Seguidamente
atacam opositores por valores utilizados. Frequentemente estão a desqualificar escolhas de adversários políticos. Mas quando foi pra ser CC estavam de plantão. Recurso público no bolso.
Reforço: eles são/foram funcionários da população, devem
prestar contas aos eleitores, são pagos com tributos repassados pela população.
Num momento de pandemia e desespero, qual a relevância de um CC de deputado, por exemplo? Seria melhor aplicar esse recurso em testes de Covid-19 para a população ou ficar pagando salário de CC de deputado?
Vamos a alguns casos – os dados estão disponíveis no Portal da Transparência:
Carlos Finck (PTB) – Ex-vereador. Ex-secretário municipal em
governos do PDT e PT. É CC na Assembleia Legislativa – gabinete do deputado
estadual de Bagé Luis Augusto Lara (PTB)
Salários mais recentes: Abril – R$ 11.083,77 | Maio – R$
12.956,74
Tarcisio Jorge Heming – Irmão do vereador cassado Vilmar
Heming (PSL). É CC na Assembleia Legislativa.
Salários mais recentes: Abril – R$ 7.943,72 | Maio – R$
7.943,72
João Fischer, o Fixinha (PP) – Ex-deputado estadual por 24
anos. Presidente da Cesa – companhia em vias de extinção. Tem longo vínculo com Novo Hamburgo.
Após ficar sem emprego como deputado, seu partido, PP, fez
pressão política para ele assumir como presidente da Companhia Estadual de
Silos e Armazéns (Cesa) – uma companhia estatal que está sendo liquidada, extinta. Nem precisava assumir.
Não há dados atualizados do salário no site da Cesa. Em
2017, o salário do presidente da Cesa era R$ 15.344,28.
O Portal Martin Behrend registrou essa situação do cargo
viabilizado por pressão política: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/id/6397/titulo/ex-deputado-fixinha-pp-conseguiu-emplacar-cargo-com-alto-salario-no-governo-estadual
OS DOIS CASOS A SEGUIR FORAM EXONERADOS EM MARÇO. UM DOS MOTIVOS: CONCORRER NA ELEIÇÃO
MUNICIPAL DE 2020.
Tarcísio Zimmermann (PT) – Ex-prefeito, ex-deputado estadual
e ex-deputado federal. CC na Assembleia Legislativa. Foi exonerado em março.
Salários mais recentes: Fevereiro – R$ 8.091,19 | Março – R$
3.463,47
Paulo Ritzel (DEM) – Ex-prefeito, ex-deputado estadual e
ex-deputado federal. CC na Câmara dos Deputados. Foi exonerado em março.
Salários mais recentes: Fevereiro – R$ 5.721,00 | Março – 7.613,96
(Vantagens indenizatórias)
Ritzel se envolveu numa polêmica com seu
ex-partido, MDB, após denúncia de estar atuando como dentista em Novo Hamburgo e ser CC de um cargo da Câmara dos Deputados, em Brasília: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/id/6818/titulo/ex-prefeito-de-novo-hamburgo-garante-estar-dentro-da-lei-ao-atuar-num-consultorio-particular-e-trabalhar-como-cc-de-deputado-federal
.
SOMATÓRIO
Somando apenas os salários desses cinco CCs – indicados por padrinhos políticos – temos um número significativo.
O valor reunido seria de quase R$ 50 mil mensais. Num ano, mais de meio milhão de reais. Só
com os salários dos cinco.
Imaginem o resto. CCs em prefeituras. CCs em Câmaras de
Vereadores. CCs em Assembleias Legislativas. CCs em governos estaduais. CCs no
Congresso Nacional. CCs em Brasília. CCs do governo federal.
CCs são necessários para ajudar governos e, inclusive, tem uma parcela mais engajada do que alguns funcionários concursados.
A aberração é a
quantidade, os excessos, as regalias, a qualificação técnica baixa de muitos e os salários que não são compatíveis com o perfil profissional de vários.
Tudo está dentro da lei. Tudo é legal. Agora, é dessa forma que vamos seguir? Desejamos seguir nessa fórmula que quebrou nosso Estado? O rombo só vai aumentar.
Eis a realidade: milhões de brasileiros penando e sofrendo,
enquanto os apadrinhados da política usufruem de bons salários.
Se no Brasil “normal” já seria injusto essa situação, em ano de pandemia
fica até complicado adjetivar…
