Tem coisas na vida que merecem ser fotografadas para serem
lembradas por muito tempo, ou para sempre. Tem outras que não se consegue fotografar de tão terríveis,
mas que ficam na nossa memória fotográfica para todo o sempre.
Na minha maior estadia na China, em 1993, a região dos calçados
vulcanizados era a mais pobre que visitei, e também mais interiorana, completamente fora das zonas de
desenvolvimento. Essas fabricas eram
dirigidas pelo Exército, e as condições eram realmente as piores possíveis.
Nosso hotel era um edifício comprido (não alto), sui generis. As roupas de cama eram super sujas – não eram
lavadas na troca de hóspede! Tinha
cabelos pretos no lençol, e outras melecas tantas. A única bebida era uma térmica de chá, que
tinha uma rolha gosmenta!
Ao questionar a gerência, a explicação era de que num corpo
com espírito em harmonia não entram doenças, e que, portanto, não seríamos nós capitalistas,
desarmoniosos, que iriamos mudar o sistema do hotel. Ainda bem que eu sempre levava uma toalha limpa do hotel de
Hong Kong, e assim podia ao menos cobrir
o travesseiro pra poder dormir.
O banheiro era individual, parede de tijolo sem reboco, o chuveiro era
frio, e espirrava uma gota para direita e outra pra esquerda e molhava
tudo. Tinha um vaso turco, e uma pia
imunda. Mas era individual, e se podia
ter, ao menos, privacidade.
As fábricas eram construídas em diversos prédios, que
formavam um quarteirão fechado, e no meio tinha uma praça. Numa parte daquela praça estavam os banheiros. Eram pequenos cubículos, com um vaso turco cada
um, sem pia e …sem porta! Explicação dada: de trás somos todos iguais e, portanto, não
tem porque se esconder detrás de portas.
Filosofias à parte, eu não conseguia usar aquele banheiro, e
o corpo me doía todo. Um dia inventei
que tinha esquecido um remédio, e devia voltar urgente ao hotel. A gente tinha de informar o motivo de fazer
qualquer coisa, porque por um motivo fútil eles não deslocariam um carro e um
motorista … e ir a um banheiro individual
seria considerado muito fútil.
Sonhei mesmo muito pensando que iriam me disponibilizar um
carro e um motorista. Me
disponibilizaram um rapaz que não falava uma sílaba em inglês, e fomos de
ônibus.
E foi naquela viagem de volta ao hotel, que eu vi uma coisa
horrivelmente inesquecível.
O trânsito era uma confusão de carretas, carroças, carros,
ônibus, e aquelas motocas que viram caminhãozinhos, etc. Naquele tempo o transito de lá não tinha mão.
De repente, apareceu uma carroça na frente do ônibus, e
dá-lhe buzinaço. A carroça tinha tração
animal, mas um animal estranho, de pernas e braços longos e muito finos, meio desajeitado. Não era um cavalo. Mais parecia um macaco. Mas não tinha pelos.
Chegando mais perto vi de que animal se
tratava: era um homem! Todo deformado pelo trabalho. Já com braços mais longos, quase como um
quadrúpede!
Empunhei a maquina para fotografar, mas não consegui. Cruel demais para ser verdade. Não queria
ter aquela lembrança. Não adiantou nada, ela está na minha mente, gravada, viva,
como uma das coisas mais degradantes que já vi por este mundo afora.
Banheiro individual? Que futilidade!
