Carreira e empreendedorismo

Nas minhas andanças como consultor e palestrante,
conversando com empreendedores e colaboradores escuto muito declarações como
esta: “Trabalho neste segmento mas um dia terei meu próprio negócio.”

Claro que em um texto como esse não tenho e nem poderia ter
a pretensão de estabelecer uma avaliação de que esse desejo seja o melhor ou
pior, certo e errado e muito menos que seja definitivo. Porém vejo cada vez
mais a cultura do “Você Ltda” ser considerada a única forma de realização plena
no mundo do trabalho.

Com o advento da tecnologia e das conexões que ela
proporciona toda ideia parece ser passível de ser viabilizada como negócio, e a
capacidade de crescimento exponencial ser fonte de uma independência financeira
infinita.

No entanto, em tempos líquidos e até gasosos onde tudo se dissolve em
curtos espaços de tempo, gostaria de chamar a atenção para uma oportunidade que
cada vez se apresenta em crescimento: a carreira como funcionário.

Talvez heranças filosóficas e até traumáticas da Revolução
Industrial, sim, a primeira revolução de alto crescimento em detrimento das
condições humanas, tornaram ser funcionário uma opção menos almejada que outras
funções. O que em países com dificuldades de formação educacional acaba sendo
consequência para um mercado competitivo, visto que conhecimento é uma das
partes da composição de competências.

O Brasil é um país de muitos empreendedores, muitos são os
negócios pensados para buscar o sucesso
como dono do seu ofício. Em contrapartida as organizações sejam pequenas,
médias ou grandes sentem cada vez mais necessidade de funcionários que possam
entender sua carreira como o grande negócio da sua vida.

A resiliência que é a
capacidade de lidar com dificuldades, pressões e objetivos, retomando sempre a
motivação e aprendendo com as dificuldades ainda é muito confundida com
submissão ou falta de personalidade no entendimento sobre a condução de
carreiras.

Uma outra ideia antiga é de que uma carreira de funcionário
será sempre vinculada a pouca valorização ou falta de perspectivas o que cai
por terra visto a quantidade de empresas e negócios que surgem em velocidade
cada vez maior e a corrente necessidade de busca de profissionais qualificados.
Mas a mudança de comportamento entre os profissionais que percebem que uma
carreira pode ser desenvolvida em empresas diferentes, desde que se tenha um
espírito de flexibilidade e resiliência quanto a competências, e também a evolução de empresas empregadoras
de não tratar funcionários apenas como recursos e, sim, como parte do valor a
agregar em produtos e serviços, pode
fazer a carreira como funcionário ser talvez uma das maiores oportunidades em
empresas de qualquer porte.

Imagine, por exemplo, um gerente de vendas de peças de uma
empresa para o setor automotivo. Se este entender que estar informado sobre o
mercado e as evoluções e poder contribuir com sua empresa além da sua função,
pode torna-lo potencial vendedor de outros equipamentos desde que esteja aberto
para conhecimentos técnicos de outros produtos.

Por outra via a empresa que emprega investe em um
funcionário que deve ser valorizado mas também manter sua principal riqueza no
conhecimento além da prática natural do dia a dia em reconhecimento e
contribuições.

Se as organizações entenderem que compartilham funcionários com
o mercado conforme a dinâmica das suas atividades e os funcionários entenderem
que prestam serviços também compartilhados naquele momento com a empresa
empregadora, a carreira torna-se uma das mais valiosas formas de
empreendedorismo para equilibrar o mundo do trabalho.

Sim, estamos longe disso em um país com legislação de uma
época que nem servidores públicos ainda existiam com estabilidade garantida,
isto mostra o quão antiga está em relação ao mercado atual. Mesmo assim levanto
a reflexão como diálogos de oportunidades melhores de negócios para todos.

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