As matrioskas são bonecas tradicionais do folclore russo que
trazem o mito do amor, amizade e maternidade. Essas questões são o pano de
fundo para uma abordagem surpreendente no seriado “Boneca Russa”, um dos
lançamentos do serviço de streaming Netflix nesse começo de ano.
A história é de uma mulher, Nadia Vulvukov (interpretada
pela ótima Natasha Lyonne, que inclusive é uma das criadoras, produtoras e
diretoras da série), que morre e passa a “reviver” repetidamente no dia do seu
aniversário. Já viu o filme “Feitiço do Tempo”, o genial Dia da Marmota, com o
sensacional Bill Murray? Então imagina isso, só que em Boneca Russa o que gera
a volta no tempo e repetição dos acontecimentos não é o fim do dia, e sim a
morte da protagonista.
Nadia é alguém com poucos pudores em relação a vícios ou
sexo – então assista sem as crianças na sala. Fala muito palavrão, banca suas
escolhas e começa a procurar uma explicação possível para estar morrendo e
voltando, toda hora.
Tem algum toque de drama, nonsense, algum tempero de humor
do estilo pesado, uma estética bem noir. O sucesso da série foi tanto que já
começaram a sair até matérias que tentam decifrar esse labirinto repetitivo de
tempo e espaço de “Boneca Russa”. A BBC, por exemplo, encontrou especialistas
para falar sobre multiverso, teoria do caos e viagens no tempo para teorizar a
respeito do enredo.
Eu não vou entrar nessa onda: ao invés de entender as
entrelinhas e mistérios, preferi usufruir de um bom entretenimento. É série
para maratonar, episódios curtinhos (30 minutos, até menos) e um ritmo
envolvente. O que não quer dizer que a trama apele para sentimentalismo barato
– as emoções são profundas, com questões íntimas, traumas do passado e um
crescente desenvolvimento das relações entre os personagens.
Detalhe que só fez eu gostar mais: a equipe é
majoritariamente feminina. Na linha de frente, são três diretoras (Leslye
Headland, Jamie Babbit e Natasha Lyonne); sete roteiristas (entre elas a
incrível Amy Poehler, de Saturday Night Live), cinco produtoras executivas, uma
editora, uma cenografista, uma figurinista, cinco maquiadoras, e por aí vai…
Esse grupo de mulheres no comando da série reflete diretamente no tratamento
das personagens femininas.
Sei que ainda estamos em março, mas Boneca Russa já é das
melhores coisas que vi esse ano!

























