Arroz Uncle Bens, cortador de cutícula italiano e sapato Werner

Quando se vai lançar um produto novo, normalmente se fazem
estudos de mercado, de necessidade, de utilidade, qualidade, durabilidade que
deve ter o produto, e eteceteras.

Tudo acertado, vamos ao mercado. E daí podem acontecer
surpresas, como um consumo em nichos completamente diferente do que aqueles
para os quais os produtos foram concebidos. Esse fator sempre me intriga muito,
e também dá uma sensação de que não se pode planejar tudo, tem de ser deixar um
pouco ao acaso. Ou seja, quando o cavalo passar encilhado, monta e vai!

Alguns casos de exemplos:

O arroz Uncle Bens, em porções pequenas e em saquinhos
perfurados, é obviamente mais caro que o arroz vendido em quilos. Foi concebido
nos EUA para cozimento rápido, de um arroz de qualidade, parabolizado, sem
desperdícios, sem precisar lavar, fritar, para pequenas famílias, ou pessoas
solteiras, com exigência de grãos longos, finos e separados. Enfim, o mercado
alvo era um mercado exigente e de bom poder aquisitivo. A surpresa: no Nordeste
do Brasil, quem mais consome esse produto é a classe mais pobre
financeiramente. O que aconteceu: as pessoas que trabalham fora, e não podiam
pagar restaurante, nem lanche ao meio-dia, cozinhavam seu arroz, bastando água
e um “rabo quente” de energia. Impossível um almoço mais barato!



Vários empresários brasileiros nos pediram para comprar, e
também ver a viabilidade de importação, de uma espécie de pinça, porém um com “V” na ponta, e cujo vértice era cortante, produzida na Itália. Esse pequeno
instrumento era usado para cortar, manualmente, as rebarbas muito sutis nos
solados de calçados com injeção direta produzido nas fábricas do Brasil. Contatamos o fornecedor, que nos atendeu com
muita cortesia, mas que nos pediu uma visita, porque ele queria entender o
porquê do nosso interesse, visto que nosso perfil e a quantidade eram incomuns.
Explicamos o uso e, para nossa surpresa, ele informou que aquilo era o
instrumento de cortar cutículas de unhas na Itália, uma vez que não se
usa alicate como no Brasil…

Nas regiões da Baviera e do Tirol (Alemanha, Áustria e norte
da Itália), o costume do uso de roupas tradicionais é sinônimo de bom gosto,
respeito pelas tradições e também de alto poder aquisitivo. As roupas que se
chamam de “Trachten” são confeccionadas com tecidos de muita qualidade, e com alta técnica de costura e modelagem. Os calçados, por sua vez, devem seguir a
tendência das roupas, sempre em couro, com excelente acabamento, bom calce, com
um toque clássico de elegância e boa durabilidade. Ou seja, o mercado é feito
de clientes exigentes.

Abrimos, ao seu tempo,
uma cliente que continua a comprar sempre calçados da Werner, mas nem de longe
imaginávamos que era para combinar com “Trachten”. Pois agora com a maravilhosa coleção de
sneackers (sem cadarço) com muitas flores aplicadas e pedrarias, o pessoal dos “Trachten” ficou tão encantado, que manifestou seu contentamento. Por isso, soubemos
que os calçados que entregamos destinavam-se a esse exigente nicho de mercado,
cujas características estão muito dentro das tendências das próximas estações! Isso
com certeza não foi o planejado, mas é um motivo de muito orgulho!

Enfim, fiquem de olho, se o cavalo encilhado passar … pode
ser a oportunidade não planejada!

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