Era uma tarde linda de verão, e já tínhamos trabalhado
muito. O trabalho de agenciamento com clientes estrangeiros sabe ser
cansativo. Porque além do trabalho em
si, o padrão de atendimento brasileiro é de uma hospitalidade muito grande, ou
seja, buscar no aeroporto, no hotel, levar para ao almoço, para o jantar, e
assim terminar o dia sempre altas horas da noite. E isso tudo por vários dias,
recheado das diferenças culturais.
Naquela semana, eram três americanos de Nova Iorque. Eram
verdadeiros modelos da superioridade que eles supõem ter em relação aos países
do terceiro mundo. E eu sabia que, depois de um dia estafante, deveria ainda
levá-los para jantar, fazer piadas, ser agradável, rir, e nem de longe mostrar
que depois de fazer isto uma semana inteira, eu estava mesmo é com vontade de
ir para o meio do mato, onde ninguém falasse, muito menos em inglês. Onde eu
não precisaria representar no palco da minha profissão, e simplesmente ser um
ser.
Os leitores podem até pensar, mas por que não deixá-los no
hotel? A resposta é cruel: se deixasse eles sozinhos, cairiam nas mãos de
concorrentes, que já ficavam nos hotéis espreitando. E prometiam de tudo,
começando por levá-los ao Gruta Azul – o que eu não proporcionaria jamais! E
eles nos trocariam facilmente: a cultura deles era tudo por um lucro, qualquer
que seja! Isso foi nos idos dos anos 90.
Mas aquele dia, eu cheguei no limite. E assim pensando,
liberei minha criança interna. Eram 17
horas (normalmente se trabalhava ate 21 horas) e anunciei que iria parar o
trabalho para ir ao sítio. Quem quisesse poderia vir junto. Não tem comida, nem
bebida, só paz. Pois vieram os três, e mais uma colega.
O sol estava ainda alto. Quando chegaram, se atiraram na
grama, de pernas e braços abertos, sem falar, apenas gemiam de satisfação, e se
deixavam abraçar pelo sol. Eu fiz a mesma coisa, e foi uma experiência
grandiosa.
Pouco a pouco se levantaram e foram passear pelo mato. Eu,
sem falar nada, me deliciei com um belo chimarrão. Eles encontraram a plantação
de milho de minha mãe, e fizeram uma pequena colheita. Ao retornar, sentaram no
chão, e começaram a tirar a palha e a barba do milho, para limpar as
espigas. Nunca imaginei que soubessem fazer
isso: um serviço primário! E humildemente preparando nosso jantar… isso sim era
inédito.
O orgulho e a empáfia de alguns em ser americanos, era quase
insuportável, e agora, ali, éramos somente seres da mesma espécie. Como sempre
deveria ter sido, em todos os tempos. Principalmente, antes de 2011.
Cozinharam as espigas, colocaram sal, acharam uma garrafa de
vinho e fizemos a festa. Tudo simples, estupidamente simples.
