Eram 30 minutos de sexta-feira, dia 3 de maio. A imensa maioria dos hamburguenses estava dormindo.
Naquela semana, o Rio Grande do Sul já estava impactado pelas enchentes, que avançavam para diferentes regiões do Estado.
Então, nos primeiros minutos daquele 3 de maio, o telefone da minha casa tocou. Eu e minha esposa acordamos sobressaltados. Estava me recuperando da dengue e despertar com um telefonema na madrugada foi sofrido.
Minha esposa atendeu. Do outro lado da linha estava o jornalista Dario Panzenhagen, coordenador de Comunicação da Prefeitura de Novo Hamburgo. Ele informou que precisava falar comigo. Bah, pensei, algo grave está acontecendo.
De forma muito rápida, Dario informou: “Precisamos que alguns jornalistas venham agora para a Prefeitura em razão de uma medida que será adotada. Liguei pro teu celular, mas tu não atendeu. Tens como ir agora?”
Minha reação foi de choque. Caramba, o que será? Olhei pro celular, que tinha deixado no silencioso – mais de dez chamadas não atendidas. Pensei de novo: caramba! Mesmo dolorido pela dengue, comuniquei que estava tirando o pijama, vestindo uma roupa e me dirigindo ao Centro Administrativo Leopoldo Petry.
Por volta da uma da manhã cheguei no prédio da Prefeitura. Estacionei o carro – e percebi de longe que estavam praticamente todas as luzes acesas no 9º andar – onde fica o gabinete da prefeita Fátima Daudt, a Procuradoria do município e o setor de Comunicação.
Peguei o elevador, apertei para o 9º andar e subi.
Quando as portas se abriram, acordei em definitivo – por susto e surpresa. Dezenas de secretários municipais, diretores e servidores reunidos sob comando da prefeita. Representantes da Brigada Militar, Corpo de Bombeiros e Guarda Municipal foram chegando. Também já estavam por lá os jornalistas Igor Müller e Suélen Schaumlöffel, do Jornal NH.
Na mesa de reuniões, coordenados pela prefeita, todos estavam focados numa decisão recente: era necessário uma operação imediata para retirar os moradores do Santo Afonso, especialmente da Vila Palmeira, de suas casas. O Rio dos Sinos estava subindo e os técnicos da Prefeitura alertaram: nas próximas horas, a água vai passar por cima do dique e alagar a região. A evacuação era urgente.
Naquele momento, a prefeita definia a operação que envolveria ônibus para transportar os moradores até a Praça da Juventude, carros de som para alertar a comunidade, assistentes sociais, abertura da Fenac para receber quem seria transportado e divulgação da emergência por veículos de comunicação com credibilidade e visibilidade.
A operação de evacuação definida durante toda a madrugada – a equipe seguiu acordada – permitiu que centenas – ou milhares de hamburguenses – deixassem suas casas no seco. Diferentemente de outros municípios, como São Leopoldo e Canoas, Novo Hamburgo fez um movimento antecipado para retirar o máximo de moradores possível antes das águas invadirem o Santo Afonso. Como se viu, a cidade teve poucos resgates dramáticos – diferentemente de São Leopoldo, Canoas e Porto Alegre, onde acompanhamos por dias pessoas sendo resgatadas por barcos.
Aquela madrugada de 3 de maio, em que vários servidores da Prefeitura cruzaram horas a fio sem dormir, na verdade, era a segunda madrugada em que muitos secretários e diretores do governo Fátima Daudt passavam acordados para definir estratégias e planejamentos para proteger a população.
Eu trago esse relato para informar que a prefeita Fátima Daudt e sua equipe estão trabalhando para reduzir os impactos da enchente. E contam com um batalhão de voluntários, afinal, estamos falando da maior catástrofe ambiental do RS. O Poder Público não teria forças nem estrutura para atuar sozinho. Os voluntários da comunidade são protagonistas de tudo o que está acontecendo.
Os milhares de hamburguenses atingidos foram acolhidos em dezenas de abrigos, assegurando um teto e banheiros para as pessoas. Existem doações que garantem comida, roupa e a higiene básica. Em vários abrigos, tem assistência social, psicólogos, lazer para a criançada se entreter. Novo Hamburgo foi escolhida por várias cidades para receber doações.
A Fenac é referência nacional para a chegada de cargas. Já vieram caminhões de cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Minas Gerais. Empresas renomadas estão enviando doações para a Fenac, que – com o grandioso trabalho de servidores públicos e voluntários – monta kits entregues para milhares de desabrigados e desalojados.
Novo Hamburgo receberá um hospital de campanha. Arrozeiros participaram de reunião e visita técnica para ajudar com bombas.
Diante desse cenário de intensa atuação da Prefeitura, por qual razão parte da comunidade está indignada com a prefeita Fátima Daudt?
Na minha avaliação, são dois motivos:
1) A prefeita não percebeu por completo que estamos numa guerra. Vivenciamos a maior catástrofe ambiental do Rio Grande do Sul. O olhar técnico da prefeita, importante em outros momentos, trava a sua tomada de decisões. Cenários severos, medidas severas. É preciso correr mais riscos.
Ah, Martin, mas não é tu que vai responder se algo der errado. É preciso correr riscos, ter mais agilidade, encurtar processos, bater na mesa e ter mais atitudes resolutivas. Essa demora com reuniões, laudos, análises, debates e mais reuniões,impede que algumas medidas mais emergenciais sejam adotadas com celeridade.
O caso mais emblemático é a obra emergencial do dique parcialmente rompido na divisa com São Leopoldo. É fato que a estrutura está fragilizada por tudo que aconteceu e oferece riscos de ceder. Mas o que dizer da fragilidade de milhares de moradores desabrigados?
Essa trava da prefeita ficou ainda mais escancarada quando, do outro lado da rua, o prefeito de São Leopoldo, Ary Vanazzi, fez a obra emergencial – com vazamentos, sim, mas segurando parte das águas. Vanazzi correu riscos, mas estamos numa guerra, e a decisão foi necessária.
A prefeita insiste na questão da segurança e na prevenção a fim de evitar uma tragédia maior caso outra parte do dique ceder. Mesmo assim, os tempos exigem posturas imediatas – dentro da um mínimo de razoabilidade.
2) A prefeita está distante de sua comunidade. Fátima é mãe. Nesta hora, ela precisaria levar mais abraços e mais afeto. Fátima morou e cresceu no Santo Afonso – é filha do bairro. Parte de sua comunidade está sem rumo. Ela precisava estar dividindo seu tempo entre reuniões e ouvir os anseios dos hamburguenses – não apenas nos abrigos, mas em quem está em vigília nos bairros pela água baixar. A imensa maioria das fotos e vídeos em que ela aparece é nos gabinetes, em cenários assépticos e organizados – num chocante contraste com alguns bairros arrasados pelas águas e lama.
Além disso, a maneira técnica e protocolar quando traz explicações necessárias para a população provoca a sensação de ser uma professora dando aula para estudantes sem classe, cadeira, caderno e lápis. Estamos na maior catástrofe ambiental do Rio Grande do Sul!
Vou trazer um relato pessoal e dos mais tristes que tive nessa cobertura das enchentes. Na tarde ensolarada e abafada do dia 7 de maio – uma terça-feira – fui caminhar pela BR-116, em São Leopoldo. A rodovia estava cercada por águas no trecho de São Leopoldo e algumas pessoas ainda acampavam no asfalto. Meu objetivo era chegar até o local onde estava sendo construído o trilho seco da BR-116.
Caminhando pela rodovia, duas pessoas me reconheceram. Eram ouvintes da Rádio União e leitores do Portal Martin Behrend. Uma perdeu tudo no bairro Scharlau, outro perdeu tudo no bairro Campina. Ao me identificarem, sorriram por ter um conhecido por ali… E logo desandaram a chorar.
Elas queriam um abraço, um afeto num momento tão dramático de suas vidas. Abracei eles com força. Era o que eu podia oferecer naquela BR-116 rodeada por águas.
Eu afirmo como informação: Fátima Daudt e sua equipe estão trabalhando pela população de Novo Hamburgo.
Só que estes dois erros estão provocando um tremendo desgaste para a prefeita: demora na tomada de decisões no meio de uma guerra e distanciamento da dor da comunidade.
Ainda dá tempo de corrigir essas posturas. A comunidade precisa de carinho e agilidade para o lento e difícil recomeço.
NOTA DO AUTOR: No meio das justas reclamações e dos pedidos de ajuda dos moradores, é notório que a politicagem está presente. Pré-candidatos a prefeito e a vereador – e pessoas da comunidade que postulam um cargo público – estão em campanha aberta: atacando, prometendo muita coisa e aparecendo de herói para, ali na frente, trocar pelo voto. É preciso saber filtrar o que são os gritos de preocupação e a tristeza dos moradores, o que é a correta fiscalização do trabalho dos agentes públicos e quem são os aproveitadores da tragédia.
