Tales Cotta era um modelo mediano no universo da moda. Sem
demérito, não era uma estrela no quilate de Gisele Bündchen, mas também não era
um novato na São Paulo Fashion Week. Talvez ainda em ascensão.
Formado em
Educação Física, não pretendia seguir carreira na área porque queria mesmo ser
modelo, tinha planos inclusive de tentar trabalhos na Europa, segundo contaram
seus amigos.
Enfim, Tales Cotta era mais um dos tantos modelos do casting
da já combalida São Paulo Fashion Week, a semana de moda mais importante do
Brasil que, como tantos setores, sofre com a crise econômica e cultural, geral,
global.
O evento busca transformação e tenta se reinventar, com a debandada de
marcas consagradas e a entrada de novas grifes, jovens, fluidas, enxutas. Um
mercado que faz girar a economia do consumo, operada por estilistas, designers,
criadores, publicitários, influenciadores, compradores.
Num destes desfiles de uma grife nova, entrou Tales, na sua
deixa, no seu momento, com o look especialmente separado para ele, ensaiado,
tudo certo, aparentemente. Na ponta da passarela, aquela em que nos anos 80 as
modelos faziam um pivô e hoje só fazem aquele carão para intimidar as lentes
dos fotógrafos, ali, na ponta da passarela, Tales fez a volta e tropeçou,
cambaleou e tombou.
Eu não estava lá, mas infelizmente vi as imagens que se
reproduziram pela internet, pela televisão. Ele foi atendido em seguida pela
brigada de socorristas, levado para os bastidores, de lá para o hospital. Com
vida, disseram.
Depois disso, dúvidas, incertezas, mas… o show continuou.
Aliás, recomeçou. A marca estreante Ocksa apresentou sua coleção sem Tales que,
mais tarde, todos souberam que havia morrido de um mal súbito sem causa
aparente, segundo a divulgação preliminar. Uma trágica fatalidade, tudo indica.
Choque, horror, tristeza. A morte, em sua desumanidade,
chegou para o jovem modelo. E as redes sociais, sempre tão rápidas e
inclementes, foram imediatas em condenar a marca e o evento por sua falta
absoluta de sensibilidade, por ter continuado o desfile apesar do ocorrido.
E quem é a Ocksa? Uma marca que destacou-se na Casa de
Criadores e estreava na SPFW, com expectativa de mostrar suas propostas
estéticas. O estilista Igor Crivellaro, à frente da Ocksa, é formado em moda na
UniRitter, saiu do RS e dividia seu tempo entre as capitais do mundo, com base
em Barcelona, fazendo de sua grife uma legítima marca global e globe-trotter.
No começo da semana vieram as manifestações dos
especialistas, de quem estava lá, e de quem tinha voz de comando. Alguns jornalistas
clamaram pelo fim do evento, outros pediram um pouco de humanidade no
julgamento e condenação da marca. Afinal, por trás de uma marca estão seres
humanos, que erram, não tinham informações, tinham pouco tempo, ansiedade,
faltou noção, sobrou improviso, e resultou em um linchamento virtual. Até a mãe
do modelo foi às redes da Ocksa eximir a turma, dizer que foi uma fatalidade,
ninguém tinha feito nenhum mal, etc. – e de qualquer forma, nada traria de
volta seu filho.
Paulo Borges, o líder de todo o SPFW, fez um vídeo no seu Instagram pedindo todas as desculpas do mundo e contou que também foi consolado
pela dona da maior dor, a mãe de Tales. E ela, na sua gigante humanidade,
deixou o ensinamento de que nem mesmo no pior momento, a gente não julga, não
condena, não aponta os pecados alheios. Cada um sabe sua dor, e todas devem ser
respeitadas.
