Para quem acompanha tênis, estamos em tempo de Wimbledon!
Realizado em Londres, na Inglaterra, é o mais tradicional e icônico torneio de tênis do mundo.
Os jogos são disputados em quadras com piso de grama, o que torna o evento ainda mais desafiador.
Wimbledon é terra de grandes lembranças para o tênis brasileiro. Maria Esther Bueno, a maior estrela do tênis nacional em todos os tempos, tem três títulos em simples e cinco em duplas na grama sagrada, além de três vice-campeonatos em duplas mistas – nas décadas de 1950 e 1960. Espetacular!
TOMÁS BEHREND
Acompanhando os jogos deste ano pela TV, vieram algumas memórias de quando estive em Wimbledon.
Nos anos de 2004 e 2005, viajei com meu irmão Tomás Behrend pelo circuito profissional de tênis. Ganhei o status de “Tour Coach” – Treinador do Circuito – já que ele tinha seu técnico, Marko Seidensticker, que ficava na Alemanha.
Quando o Tomás me convidou para acompanhar ele, no começo de 2004, eu integrava a editoria de Esportes do Jornal NH. Estava formado em Jornalismo pela Unisinos, e decidi aceitar o convite de viajar pelo circuito internacional. Como tentei – e não consegui – ser profissional do tênis, era um prêmio de consolação.
Nestes dois anos passei por mais de 20 países e acabei mantendo meu trabalho jornalístico, realizando algumas coberturas internacionais em paralelo ao trabalho de Tour Coach. Estive na cobertura do amistoso Alemanha x Brasil, em 2004, na reabertura do Estádio Olímpico de Berlim; na cobertura da Copa das Confederações de 2005, na Alemanha, vencida pela seleção brasileira; na definição do Papa Bento 16, o cardeal alemão Joseph Aloisius Ratzinger, também em 2005; entre outros trabalhos.
TODOS DE BRANCO
Conhecer Wimbledon foi algo mágico, especial. É um torneio de muita tradição, regras e rituais. E uma das principais tradições é que os atletas precisam jogar de uniforme branco. Se não for 100% branco, precisa ser próximo disso.
Quando o Tomás foi estrear no torneio de Wimbledon, houve uma gafe em relação ao uniforme dele. Eu relatei esse episódio no livro “Tomás Behrend. A trajetória vitoriosa de um tenista gaúcho – Jamais desista de seus sonhos”. O livro tem poucas unidades à venda e teve excelente aceitação.
Aproveito, então, para compartilhar a passagem do livro em que conto a gafe do uniforme.
GAFE NA FRENTE DA SACADA DA RAINHA
Wimbledon. Que
atmosfera cercava aquele torneio. Pisar na grama pela primeira vez é uma
sensação tão especial que fica difícil traduzir em letras. Aquela grama, verde,
aparada… de verdade! Realmente era grama, tive de arrancar alguns pedacinhos
para confirmar. Gesto meio tosco, mas jornalista procura apurar todos os fatos.
Em 2005,
chegamos no mais tradicional torneio de tênis do mundo sem grandes pretensões.
Duas semanas antes, Tomás tinha disputado o também londrino e tradicional
torneio de Queens, sendo eliminado na primeira rodada pelo americano Taylor
Dent, com 6/4 e 6/3. A grama sempre foi um território hostil ao Tomás,
principalmente pela questão de equilíbrio e da movimentação sobre um piso
escorregadio. Nessas duas passagens por Londres, ficamos hospedados no Chelsea
Village Hotel, uma estrutura anexada ao estádio do Chelsea – Stamford Bridge.
Durante os
treinos em Wimbledon, ficou claro o quanto a movimentação do Tomás sofria sobre
a grama. Acostumado a um pisar mais firme para disparar seus poderosos golpes,
ele não conseguia a tranquilidade necessária sobre a grama. Tanto que, num dos
treinos na quadra 18 – que fica no meio das duas quadras principais – ele foi
tentar chegar numa bola mais curta e quase foi parar na rede.
A estreia em
Wimbledon de 2005 foi contra o argentino Guillermo Coria. Nenhum especialista
em deslizar no gramado, mas um jogador talentoso, rápido e que, naquele ano,
estava no Top 20 do mundo. O jogo foi realizado numa das quadras que fica ao
lado da mítica quadra central. Um dos detalhes da “Center Court” é o espaço
reservado à família real. Com direito a balcão externo exclusivo para a
realeza, detalhes de Wimbledon.
Dia
ensolarado, quadra lotada antes mesmo de o jogo começar, eis que aparecem Coria
e Tomás. Então, nesse momento, temos o episódio da gafe. Em Wimbledon,
tradicionalmente, os tenistas devem usar uniformes na cor branca. Não precisa
ser 100%, mas o branco deve predominar ou dominar o uniforme. No entanto, a
coleção da Head daquele ano não contemplava uniforme branco e também não foi
providenciado a tempo para Wimbledon. O Tomás entrou em quadra fardado com um
bege bem clarinho mesclado ao branco. Nada agressivo, nem excêntrico, mas não
era branco.
Na foto abaixo, Tomás aparece no momento do sorteio, antes de começar a partida contra Coria, ainda com seu uniforme da Head. O branco claramente predominava, mas…:
O árbitro foi
obrigado a chamar a organização, um dos chefões do torneio apareceu. Eu, do
lado de fora, não estava querendo acreditar no ocorrido. O público estava
surpreso com o impasse. O senhor da organização foi claro: o Tomás não poderia
jogar, naquela quadra, com aquele uniforme. Ele até ponderou que, se fosse numa
quadra mais afastada, poderia fazer uma concessão. Mas, na frente da sacada da
rainha, tinha que jogar de branco.
Como a equipe
organizadora estava acostumada a lidar com tais situações, a solução foi
rapidamente negociada com o Tomás: ele teria de jogar com o uniforme de…
Wimbledon. Simples, assim. Ele aceitou e a organização providenciou duas
camisas brancas do torneio. No meio do jogo, Tomás ainda trocou mais uma vez de
camisa e pediu uma terceira – que, mais tarde, foi repassada de presente ao
Papi.
Depois da gafe
real, a bola rolou – ou quicou – na grama sagrada. E o Tomás não teve chances.
O Coria fez 6/1, 6/2 e 6/2. Uma derrota vestido de branco – para não insultar a
rainha!
Na foto abaixo, Tomás em ação com o uniforme que ganhou da organização de Wimbledon (com o logotipo do torneio na camiseta) – virou souvenir para a família após o jogo:
DanielBerehula/Bongarts/Getty Images
