A ansiedade da classe apressada – nem Santiago de Compostela resolve!

Em setembro de 2015,
tive a oportunidade de viajar a Europa e percorrer de bicicleta os 800 quilômetros
do Caminho Francês, uma subdivisão do famoso roteiro de Santiago de Compostela.
Eram as minhas férias, mas obviamente descansar não era o objetivo. Sempre
gostei de viagens diferentes, exóticas e que agregam algo desconhecido até
então em minhas experiências de vida. Esta não seria diferente. A fase de
concepção do itinerário se revelou um desafio à parte: eram centenas de
vilarejos, povoados e, muitas vezes, um imenso vazio entre eles. Este modelo de
turismo requer um planejamento mais abrangente que o usual, sem dúvida. Nada
poderia dar errado. Estava ansioso, mas mesmo assim segui em frente.

Após a assimilação desta
ideia alternativa de férias, o primeiro passo foi esclarecer qual o ponto de
partida de tal roteiro. Entre uma e outra pesquisa no Google, um e-mail de
trabalho surgia em minha caixa de entrada com o título sugerindo uma
necessidade urgente de resposta. Colocava o planejamento da viagem de lado e priorizava
o turbilhão do dia a dia. Um colega de trabalho adentrou minha sala e discussões
técnicas continuaram a interromper minha empreitada. O telefone tocou. Outro e-mail. Meu colega reconquistou minha atenção, e
acabamos o diálogo de intermináveis 15 minutos. Voltei ao Google e continuei
minha pesquisa do ponto onde havia parado. Em alguma página de credibilidade questionável,
descobri que o ponto de partida do Caminho Francês era um pequeno vilarejo
chamado St. Jean Pied de Port, no sul da França. Já era final de tarde, entretanto,
e precisava sair para buscar minha filha na escola. No planejamento de uma
viagem de 20 dias, eu apenas sabia de onde partir. Eu não tinha tempo para planejar
a minha viagem de férias.

De acordo com o
economista sueco Staffan Linder, eu faço parte de uma classe econômica onde o
tempo de descanso foi perturbado. Estou sempre correndo, sempre apressado, até
mesmo meu momento de lazer acaba por ser caótico e gerando ansiedade. Isso
acontece porque sou rico, não rico como Eike Batista, mas tenho os recursos
financeiros necessários para comprar opções de lazer que custam caro. Suponho
que isto se aplique a você também. Estas opções de entretenimento que
consumimos preenchem uma abertura em nossas disputadas agendas, ou seja, o
tempo é um custo a ser dispendido. Por não ser multiplicável, ele acaba sendo a
riqueza mais valiosa, o recurso supremo e sua escassez cria uma correlação
inversa com a ansiedade. Sendo assim, tempo é dinheiro, e dinheiro é ansiedade.

Este trinômio tempo,
riqueza, e ansiedade podem ser percebidos por contraste, de acordo com Linder, na
diferença entre nosso entendimento de tempo e de tribos subdesenvolvidas. Com a
produtividade reduzida, e sem aquelas reuniões, e-mails, e ligações urgentes
que confrontamos em nossa realidade “rica”, ele vira um recurso abundante. Na verdade,
até mesmo seu conceito é de difícil explicação para tais culturas, que nunca
analisaram a magnitude do recurso supremo.
Logo, com o estoque abundante e um menor valor atribuído ao tempo, a “atitude
de mañana”, ou seja, procrastinadora, acaba sendo o modus operandi. Indo ainda
um pouco além, os pesquisadores Sanford DeVoe e Julian House, da Univerisdade
de Toronto, conduziram um experimento para entender os níveis de ansiedade em
dois grupos distintos enquanto escutavam 86 segundos de “The Flower Duet”, da
opera “Lakme”. Um dos grupos foi solicitado a calcular, baseado em seu salário horário,
o valor do tempo enquanto escutando a obra. Os participantes que fizeram tal cálculo
acabaram se sentidos menos felizes e mais impacientes. A máquina registradora
havia parado!

Escrevo este texto em
um domingo e o alto número de e-mails não lidos em minha caixa de entrada me
deixam ansioso. Ao mesmo tempo, minha filha pequena dorme no sofá ao meu lado e
preciso que que ela acorde em, no máximo 30 minutos, pois preciso lhe dar um
bom banho e arrumá-la para o almoço em um restaurante em Lomba Grande. Devo
levar 20 minutos para chegar lá. Este restaurante é relativamente custoso, mas
faço parte de uma classe que pode suportar tal gasto. Caso contrário, minha
filha poderia continuar seu descanso, eu continuaria com o recurso tempo, mas a
contrapartida seria a escassez de dinheiro. Talvez pudesse optar por não sair
para almoçar e economizar meus recursos financeiros, mas afinal, qual a importância
de se tê-lo senão proporcionar a mim e minha filha opções de lazer? Seria uma
discussão mais subjetiva, sem dúvida. A verdade é que a prosperidade financeira
consome tempo, e tempo é correlato com ansiedade.

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