O dualismo entre o certo e o errado tem balizado decisões há séculos. A diferença é que, atualmente, a velocidade de construção destes dois conceitos faz com que haja uma confusão, gerando a incerteza.
Quando discuto os conceitos de certo e errado com meus alunos, costumo questionar: o que é certo e errado no mundo de hoje?
Há defensores e detratores. Uns respondem: a experiência e o tempo são o que temos de melhor para utilizar como baliza. Outros afirmam: o conhecimento não deixa dúvidas. Ainda há aqueles que defendem os dados: o certo é comprovado por dados, pesquisas científicas e experiências.
Os detratores utilizam a antiga autoridade como base: se há governo, sou contra. Não aceitam qualquer imposição. São espíritos livres de conceitos, vivendo um dia de cada vez: o bem-estar em primeiro lugar.
Em realidade, o contexto mudou. E muda a cada descoberta. Conceitos lineares que nos levam a uma ou outra opção deram espaço para uma análise mais complexa e construída em rede. Em realidade, sempre foi assim. A diferença é que a velocidade atual, as tecnologias como a Inteligência artificial e a comunicação quase instantânea aceleraram o processo.
Quem está certo ou errado? Percebeu? Esta dualidade está sempre presente?
A incerteza como espaço de caos
A incerteza não é apenas a ausência de certeza; ela é o espaço onde o caos se manifesta, mas também onde a oportunidade se esconde. Viver e prosperar nesse território exige uma mudança de perspectiva, transformando o que parece um obstáculo em uma fonte de poder.
No nosso dia a dia, somos treinados para buscar ordem e previsibilidade. Planejamos, criamos cronogramas e seguimos rotas para evitar o inesperado. No entanto, a inovação, o progresso e a criatividade raramente surgem em ambientes totalmente controlados.
Quando entramos na incerteza, deixamos de lado o mapa e passamos a confiar na nossa bússola interna. É nesse espaço que a resiliência é testada, a adaptabilidade se torna uma necessidade e a intuição ganha voz. O caos nos força a:
- Questionar o “certo”: ele nos obriga a abandonar o que já sabemos e a abrir espaço para novas possibilidades;
- Aprender com o erro: no caos, não existe fracasso, apenas feedback. Cada revés é uma chance de refinar a rota e ganhar experiência;
- Desenvolver a criatividade: onde não há roteiro, é preciso inventar. A necessidade de resolver problemas inesperados força o cérebro a fazer conexões que nunca faria em um ambiente estável.
Do Caos à Inovação
Muitas das inovações mais importantes da história nasceram do caos. Pense em um novo modelo de negócio que surgiu de uma crise econômica, ou de uma nova tecnologia criada para resolver um problema que ninguém esperava.
A incerteza, como espaço do caos, não é algo a ser evitado, mas a ser abraçado. Ela nos dá a liberdade de experimentar e a oportunidade de construir algo novo, algo que jamais existiria se tivéssemos ficado presos à segurança do que já é conhecido. A glória da inovação é, na verdade, a recompensa por navegar nesse oceano de desordem.
O certo e o errado, para existir, precisam de uma referência. É certo e errado em relação a quê?
Para um cirurgião, o certo e o errado é algo definido por seu conhecimento e experiência. Da mesma forma, o imprevisto faz com que ele nade na incerteza e utilize seu discernimento como ponto de decisão. Neste e em outros casos, o certo e o errado surfam na incerteza. Se não fosse assim, a ciência não avançaria.
No fim das contas, a inovação não está em encontrar o ponto final entre o “certo” e o “errado”, mas em ter a coragem de viver e criar no espaço entre eles.
É na incerteza — esse vasto e caótico território — que a verdadeira liberdade reside. A liberdade de testar, de falhar, de questionar e, finalmente, de construir. Portanto, que a glória não seja apenas para a inovação bem-sucedida, mas para todos que se atrevem a abandonar a referência segura e a navegar pelo benefício do desconhecido.
A grande questão aqui é a referência. Ela se traduz pelo repertório construído durante a vida e, ao mesmo tempo, na capacidade reflexiva de avaliar o que pode ser melhorado ou radicalmente inovado.
O grande benefício de abraçar a incerteza é poder enxergar o inesperado a cada segundo, aprender, construir e experimentar com ele. O certo e errado são necessários, dependendo a situação.
A maior lição é aprender a navegar com ética e responsabilidade em cada decisão do caminho, se utilizando da nossa capacidade inequívoca em pensar, avaliar, questionar e, quem sabe, desafiar este dualismo cartesiano. Haja curiosidade para tantas incertezas!
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Artigo publicado no portal Martinbehrend.com.br
Leitura do artigo com César Silva:
























