Como será acordar, abrir a cortina da janela do quarto e se deparar com um cenário branco e gelado? Mais do que isso: como será encontrar – ou tentar encontrar – seu veículo no estacionamento do condomínio no meio de blocos de gelo? O casal de hamburguenses Sergio Mylius Jr. e Caroline Capra Mylius, juntamente com a filha, Nicole, precisam conviver com esta realidade por várias semanas seguidas em Boston, nos Estados Unidos. É de lá que Sérgio faz um relato exclusivo sobre como a rotina deles está sendo afetada num inverno norte-americano de recordes de neve acumulada e com
sensação térmica próxima de 30 graus negativos!
Há quantos anos estão nos EUA? Este está sendo o inverno mais rigoroso?
Já vivemos fora do Brasil há 13 anos, quase todos nos EUA, com passagens por algumas regiões metropolitanas: Boston (Massachussetts), São Francisco (California), Washington (Distrito de Columbia – capital federal). Além dos EUA, também vivemos um ano e meio em Londres. Pode-se dizer que já rodamos um pouco por aí. No entanto, mais de cinco destes anos vivemos aqui em Boston, onde a convivência com a neve faz parte da nossa rotina por pelo menos três meses do ano. Em alguns casos, até seis
meses do ano.
Dos invernos que passamos, este está sendo o mais rigoroso em termos de neve. Nos últimos dez dias, batemos o recorde de acúmulo de neve em um período de sete dias consecutivos em todos os tempos! Com as temperaturas abaixo de zero, a remoção dessa neve fica bem difícil e como aparece nas fotos, a neve somente é “empurrada” e empilhada em montes de até cinco metros de altura.
O que muda na rotina de vocês? O que a neve impede de fazer?
Quando temos neve, a mudança na nossa rotina é diretamente proporcional ao impacto da tempestade. Os principais problemas são falta de energia elétrica e mobilidade limitada.
Como a remoção e gestão do acúmulo de neve podem ser bastante complicados, resolver esses problemas pode demorar bastante tempo. Assim como nos temporais de chuva, estamos sujeitos a falta de energia, que é o principal problema, já que nossa dependência é muito grande. O aquecimento das casas, água quente e, muitas vezes, fogões, são todos elétricos. O aquecimento é crítico, já que as temperaturas podem estar muito baixas e o frio extremo é perigoso. Além dos ventos nas tempestades, a neve acumulada nos postes, fios de luz e também galhos pode fazer que eles se quebrem com o peso, afetando as linhas de transmissão de energia.
Por outro lado, a neve causa um problema específico em nossa mobilidade. Quando há uma tempestade forte, assim como tivemos no dia 26 de janeiro, o governo pode decretar um
“travel ban”,
que basicamente proíbe as pessoas de dirigirem nas ruas – a não ser em casos de
emergência. Se você é pego dirigindo, pode ir até preso. É um assunto levado muito a sério e a população respeita mesmo. Como consequência, vários estabelecimentos
públicos
(escolas, governo, etc) e privados (empresas, supermercados, etc) são fechados e as pessoas têm que ficar em casa. Os órgãos
públicos
e imprensa fazem um apelo à população para que se preparem para ficar em casa por um
período
que pode se estender por alguns dias, e que tenham água, comida seca e outras necessidades básicas caso não consigam sair de casa. É impressionante como as pessoas levam isso a sério. Nos dias que antecedem tempestades os supermercados ficam caóticos!
Essa preparação e a
consciência
da população ajudam para que não tenha grandes impactos e poucos incidentes graves acontecem.
Como passar o tempo em situações tão específicas?
Em dias como estes, o importante é ter criatividade e, se realmente é necessário ficar em casa, aproveitar o máximo do tempo para fazer atividades em
família. Se a energia e internet continuarem disponíveis, também se pode trabalhar de forma remota, que é uma prática bastante comum aqui nos EUA. Para dar um exemplo, nesta última nevasca mais ou menos 10% dos funcionários da minha empresa trabalharam de forma remota durante os dias que o escritório estava fechado. Enfim, a rotina muda sim, mas se seguimos regras básicas, nos prepararmos e respeitarmos as orientações das autoridades, normalmente conseguimos suportar muito bem as adversidades destas nevascas.
Esta foto da neve diante da porta é uma montagem ou a residência da imagem amanheceu cercada pela neve? E aí, o que fazer?
A foto não é uma montagem, realmente acontece em alguns lugares, mas não foi o meu caso específico, já que moramos em um prédio de apartamentos e a neve é removida pelo condomínio. Quando acontece, o pessoal literalmente precisa cavar sua saída através da neve.
Tem algum risco de neve acumulada no telhado?
Sim, a neve acumulada nos telhados pode causar, em algumas vezes, o desabamento do telhado da casa, já que o acumulo provoca um peso adicional. Muita gente precisa remover a neve do telhado assim que possível.
Sente saudades do calor de 35 graus de Novo Hamburgo ou prefere os 10 graus negativos de Boston?
Quando falamos simplesmente do clima, nessa hora sentimos falta do verão do Brasil, sim. Apesar de estarmos muito bem preparados e ter as vestimentas apropriadas, sair nos com 19 graus negativos é brabo. No entanto, ao analisarmos a atual situação da nossa cidade e país, a saudade diminui muito e só se limita a saudade das PESSOAS, nada mais. É realmente triste ver como estão as coisas e quanto a IMPUNIDADE prospera em TODOS os setores da sociedade. Viver nos EUA não é uma maravilha, todos lugares têm seus pontos bons e ruins, o importante é que teus valores pessoais e familiares estejam alinhados e sejam valorizados e respeitados tanto pelo seu governo como pelo resto da sociedade. Se consegues ter esse balanço, vais ter uma vida feliz, sem medo e com liberdade.
Links para videos feitos por Sérgio Mylius Jr. em frente ao condomínio que a família reside
em Boston:
/
/

























