O tarifaço de 50% anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afetou diretamente a projeção de muitas indústrias calçadistas do Brasil.
Atualmente, quase 30% das receitas geradas pelas exportações brasileiras de calçados são provenientes do mercado norte-americano. Nos sete primeiros meses do ano, os Estados Unidos foram o principal destino internacional do calçado brasileiro. No período, foram embarcados para lá 6,9 milhões de pares por US$ 134,9 milhões, incrementos de 15,3% em pares e de 7% em dólares na relação com o mesmo período do ano passado.
É por isso que é grande o temor do setor com a perda de mercados em razão do tarifaço de 50% nos calçados brasileiros que chegam nos EUA. A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) chegou a estimar que, se o tarifaço permanecer por longo período, poderá haver redução de até 20 mil postos de trabalho – diretos e indiretos, já que poderá afetar a cadeia de fornecedores.
OLHAR DE ESPERANÇA
O temor com a redução de pedidos é uma realidade. Algumas empresas brasileiras estão ajustando suas equipes e demitindo trabalhadores. Outras, programam férias coletivas. O Portal Martin Behrend teve acesso a mensagens enviadas por indústrias do Vale do Sinos aos seus fornecedores, solicitando o máximo de desconto possível para se trabalhar para “empatar” as vendas, já que o esforço do momento será para não perder clientes nos EUA – recuperar, depois, seria muito mais complicado.
Apesar de Trump, os brasileiros estão recebendo alguns sinais de esperança. E estes movimentos estão vindo exatamente de alguns clientes dos Estados Unidos. São empresários norte-americanos nada satisfeitos com a postura do presidente, já que eles estão tendo impactos nas compras de calçados. E alguns destes clientes querem seguir comprando do Brasil, um parceiro histórico e com mais de de cinco décadas de negócios com calçados.
ATLANTA E LAS VEGAS
A participação de 32 marcas brasileiras de calçados em duas feiras norte-americanas, promovida pelo Brazilian Footwear, programa de apoio às exportações do setor mantido pela Abicalçados em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), deve gerar mais de R$ 30 milhões (US$ 5,47 milhões) em negócios. A expectativa soma negócios realizados in loco e que ficaram alinhados na Atlanta Shoe Market e na Magic Las Vegas.
Carla Giordani, da área de Negócios da Abicalçados, conta que o dado surpreendeu positivamente, principalmente em função da entrada em vigor da sobretaxa de 50% para produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos. “Existe um movimento bastante positivo entre os compradores dos Estados Unidos, que se dizem dispostos a negociar o pagamento das tarifas extras para manter o fornecimento de calçados brasileiros”, avalia.
A primeira participação verde-amarela foi na Atlanta Shoe Market, entre os dias 9 e 11 de agosto. Lá, 22 marcas brasileiras comercializaram, in loco, 19,2 mil pares de calçados, que geraram R$ 3,34 milhões (US$ 609 mil). Somando os negócios que ficaram alinhavados no evento, os números saltaram para 148,64 mil pares e R$ 16,47 milhões (US$ 3 milhões). A feira gerou um total de 197 contatos com players dos mercados dos Estados Unidos, Canadá, Costa Rica, China, França, Austrália, México, Trinidad e Tobago, Panamá, Porto Rico e Jamaica.
Participaram da mostra, com o apoio do Brazilian Footwear, as marcas Arezzo, Awana Group, Bibi, Bottero, Cartago, Cocco Miami, GVD International, House of ZALO, Ipanema, Itapuã, Klin, Melissa e Mini Melissa, New Face, Pegada, Piccadilly, Pyramidis, Rider, Schutz, Usaflex, Vicenza e Zaxy.
O diretor da GVD, o hamburguense Wagner Kirsch, revela que a empresa foi para a feira com “expectativas reduzidas” em função do tarifaço, mas que o evento surpreendeu positivamente. “A feira se mostrou positiva. Durante os três dias, fechamos negócios e desenvolvemos novos contatos importantes, apesar de um mercado nervoso”, avalia. Segundo ele, os compradores norte-americanos se mostraram esperançosos com a resolução do conflito comercial.
Na sequência, entre os dias 18 e 20 de agosto, as calçadistas brasileiras participaram, em Las Vegas, da Magic Las Vegas. Com 12 marcas verde-amarelas, a feira comercializou, in loco, 20,3 mil pares por R$ 3,4 milhões (US$ 620 mil). Somando os negócios que ficaram alinhavados, os registros saltaram para 141,25 mil pares e R$ 13,5 milhões (US$ 2,47 milhões). No total, foram realizados 244 contatos com compradores dos Estados Unidos, Canadá, México, Guatemala, Honduras, Porto Rico, Panamá, Equador e Colômbia.
Participaram da mostra, apoiadas pelo Brazilian Footwear, as marcas Actvitta, Beira Rio, BR Sport, Carrano, Cocco Miami, Dress To, Klin, Modare Ultraconforto, Moleca, Molekinha, Molekinho e Vizzano.
Camila Chamoun, gestora de Exportações da Klin, que participou das duas feiras, diz que as participações foram fundamentais para entender como está o mercado local e como funcionam as negociações nesse momento de incertezas. “Na feira, recebemos não somente compradores dos Estados Unidos, mas de outros países, além de associações que representam o varejo local. Trocamos informações importantes sobre o mercado, canais de vendas e negociações’, conta. Segundo ela, as perspectivas são “muito boas” e os compradores não falavam tanto dos impactos das tarifas, pois acreditam que será algo temporário.
THE SOUTH BASE
Um outro sinal da confiança dos compradores dos Estados Unidos em relação ao calçado brasileiro foi dado ainda em julho, quando o Tarifaço de Trump havia sido anunciado, mas não estava sendo colocado em prática.
O The South Base, movimento criado no Rio Grande do Sul e formado por pessoas físicas e pessoas jurídicas com o objetivo de recuperar a relevância dos calçados brasileiros no mercado dos Estados Unidos, participou do FDRA Shoe Sourcing Executive Summit 2025, realizado em Nova Iorque, no dia 16 de julho. A FDRA é a principal entidade do varejo e distribuição de calçados dos Estados Unidos, sendo que o movimento brasileiro ganhou protagonismo.
Como palestrantes, Christian Thomas e Karin Becker apresentaram o grupo aos principais compradores e distribuidores americanos de calçados. Eles asseguraram um espaço exclusivo para apresentar o potencial do calçado nacional e promover o fortalecimento da marca Brasil no competitivo mercado americano.
Embora as condições adversas pelo tarifaço, o programa quer ser a base do Sul para os Estados Unidos terem no Brasil um parceiro ainda mais forte e estruturado na produção de calçados. A esperança segue viva.

























