As repercussões envolvendo o 47º Festival de Cinema de Gramado seguem nas redes sociais. Infelizmente, o maior destaque fica para episódios motivados por manifestações políticas. A discussão dos filmes fica em segundo plano.
Neste domingo (25), o Portal Martin Behrend publicou duas reportagens sobre o tema. Aliás, num dos textos, foi destacado que militantes políticos buscaram transformar o Festival de Cinema em evento partidário e palanque eleitoral, inclusive com defesa aberta do ex-presidente Lula – ainda preso.
Ou seja, desrespeitaram o restante do público que não está tão interessado em política, e sim, no cinema. Ao invés de se focar nas temáticas envolvendo o universo cinematográfico, os cineastas conseguiram desviar o foco para interesses políticos.
Um dos momentos mais tensos foi na noite de sábado (24), antes da entrega dos Kikitos, quando cineastas pisaram no tapete vermelho com cantos de guerra e ataques ao presidente Jair Bolsonaro (PSL).
O público que lotava a Rua Coberta, formado na sua imensa maioria por turistas, ou seja, visitantes de fora de Gramado que historicamente vão prestigiar o evento e as festas no município, reagiu com vaias. E, também, arremessando restos de comida e pedras de gelo nos cineastas políticos. Detalhe: dos gramadenses que estavam no local, a maioria eram trabalhadores – garçons cozinheiros, gerentes, focados em atender seus clientes.
As duas reportagens publicadas neste domingo foram:
“Longa brasileiro Pacarrete leva oito Kikitos e é o grande vencedor do 47º Festival de Cinema de Gramado” – https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/id/6682/titulo/longa-brasileiro-pacarrete-leva-oito-kikitos-e-e-o-grande-vencedor-do-47-festival-de-cinema-de-gramado
“Política no Festival de Cinema: Lula Livre, filmes LGBT, pedras de gelo em cineastas e gaúcho premiado dizendo que Gramado tem um pensamento bem pequeno” – https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/id/6684/titulo/politica-no-festival-de-cinema-lula-livre-filmes-lgbt-pedras-de-gelo-em-cineastas-e-gaucho-premiado-dizendo-que-gramado-tem-um-pensamento-bem-pequeno
PABLO VILLAÇA
Embalado por desinformação e também por um viés ideológico, o escritor e crítico de cinema Pablo Villaça usou sua conta no Twitter @pablovillaca – para acusar a comunidade de Gramado. Ele tem mais de 260 mil seguidores.
“Quer dizer que moradores de Gramado resolveram jogar pedras de gelo e restos de comida em diretores, atores e críticos que estavam se manifestando contra o desmonte da cultura por @jairbolsonaro durante o Festival? Um evento que traz dinheiro pra cidade? Hum…”
Mais adiante, teve uma segunda publicação sua, comentando o resultado do segundo turno das eleições de 2018 em Gramado, quando Jair Bolsonaro derrotou Fernando Haddad:
“É, tá explicado”
Depois, com a grande repercussão e ataques a Gramado e aos gramadenes, por parte de internautas raivosos e militantes políticos, Villaça postou mais um texto:
“Incrível eu ter que explicar isso, mas NÃO sugeri mudar o
de cidade. Ele se chama Festival de GRAMADO. Seria como querer mudar o
pra Santa Catarina. Só comentei que acho uma tremenda burrice os moradores da cidade cuspirem no prato que comem.”
REPERCUSSÕES DA POSTAGEM
Após a publicação da mensagem sem provas e de forma equivocada por desconhecer quem é o público que circula pela Rua Coberta, internautas raivosos começaram a atacar Gramado e os gramadenses. Pablo Villaça conseguiu provocar uma onda de ataques com uma informação equivocada envolvendo a comunidade de Gramado. Confira apenas algumas mensagens – no Twitter @PabloVillaca tem mais.
– Esse povo está jogando pedra no prato que come??? Quanta ignorância dessas pessoas.
– Infelizmente a única língua que essas pessoas reconhecem é dinheiro… Simples, retirem o festival da cidade deixando bem claro o porquê.
– Moro bem próximo de Gramado e sempre que tenho oportunidade falo da cafonice dessa cidade, do pensamento provinciano de quem acredita ser superior por ter uma herança alemã ou italiana, aliás, herança só no nome, cultura e civilidade não é o forte dessa gente atrasada!
– Serra gaúcha né, cara. Só aplaudem Mussolini e Hitler.
– Bom saber, iria em Outubro para Gramado, agora resolvi ir para Foz do Iguaçu!
– Traz para Olinda esse festival. Nordeste não abraça o fascismo, o nordeste combate.
– As máscaras caindo, Gramado só tratava bem pelo dinheiro. Grande parte Sul é separatista, xenofóbica, preconceituosa.
– Já passou da hora de tirar o festival dessa cidade jeca fascista.
– Cidades colonizadas por nazistas, nenhuma novidade!
– Gramado tem um povo ARCAICO e a maioria votou no PASPALHO. Uma colonização Germânica dificil de conviver. Bom apenas para passear, não para viver.
– Pra vc ver como esse cara atrapalhou e dividiu o país. Qdo visitei gramado em 2012 deu vontade de mudar pra lá, pela forma que recebem (ou recebiam) os turistas. Lamentável que tenham caminhado pra esse lado.
– Fosse eu diretor ou ator nunca mais pisava em tal lugar.
– Simples deixem os babacas que sobrevivem ganhando dinheiro as custas do turismo à mingua. Que os artistas procurem os governos do Nordeste e Mudem para festival do Nordeste.
– Alertei aqui que era uma cidade bolsominion!!!
– Já fui a Gramado, depois desta nunca mais!
– Vamos tirar o festival daquela bosta de lugar.
– Gramado não merece este festival importante para o cinema brasileiro.
– O festival pode ser em qualquer lugar, não precisa ser em Gramado.
– Que se mude o evento pra uma cidade menos burra.
Alguns comentários, a minoria, tentaram defender os gramadenses:
– Cara, é improvável que sejam moradores de Gramado. Normalmente os bares do entorno do tapete cobram bastante caro para a noite da premiação. No mesmo final de semana a cidade é tomada por frequentadores das festas (com ingressos absurdamente caros). Acho que a baixaria vem dali.
– Deve ter sido turista, tem muita gente tosca que vai pra lá. Gramado é aquela cidade que se mobilizou para ajudar os prejudicados pelo temporal há uns tempos, são hospitaleiros por tradição.
– Duvido que sejam moradores da cidade. Isso é coisa da classe média babaca que vai pra lá durante o festival.
– Não deviam ser moradores, mas turistas. O local, a Rua Coberta, é tradicional ponto de visitação. Não tiro o bolsonarismo dos locais, mas deviam ser gaúchos de outras cidades, igualmente mal educados e cegos à realidade.
– Estava no ato no tapete vermelho. Estávamos com cartazes “cinema e democracia”, “cinema lgbt” e contra a censura. A raiva e as agressões foram surpreendentes. Acredito que a maioria era turista, sentados em pelegos, tomando champagne caro e mujindo ignorância.
FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO
Em relação aos episódios de conflitos, envolvendo arremessos de pedras de gelo e restos de comida, o Festival de Cinema de Gramado divulgou uma nota na noite deste domingo.
“A cidade de Gramado e o Festival de Cinema têm uma história sólida, de fortalecimento e crescimento mútuo. São 47 anos ininterruptos de encontros que trazem à cidade atores, produtores e público do Brasil e América Latina para as mostras, os debates e outras atividades paralelas ligadas à cultura cinematográfica e ao mercado do audiovisual.
Os dias em que acontece o Festival também mobilizam atividades paralelas, festas e shows, reforçando a vocação turística da cidade. O último fim de semana do Festival é particularmente concorrido, enchendo a cidade de diferentes públicos, entre cinéfilos e pessoas que buscam outros eventos. Todos são bem vindos e o tapete vermelho do Festival é democrático.
Os espaços em seu entorno são públicos e de livre circulação. Servem de atrativo para os que apenas querem ver artistas e também para os profissionais do audiovisual que acreditam na importância e na história do mais antigo e respeitado Festival de Cinema do Brasil. Conviver com esta diversidade de motivos e desejos para estar na cidade é democrático e fundamental para a harmonia de tudo e todos.
Como sempre fez em sua tela, o Festival de Cinema de Gramado acolhe, contempla e evidencia diferentes estéticas e opiniões, sendo historicamente um espaço para debates e manifestações. O que não se pode admitir é a violência como prática ou resposta a ideias e opiniões diferentes. Só a tolerância e o respeito seguirão fortalecendo a história da cidade, do festival, reforçando e saudando o convívio de todos.



























