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Home Notas

Alagamentos e cheias após o ciclone: existem culpados?

Martin Behrend Por Martin Behrend
24/06/2023 - 09:28
em Notas
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Uma semana após a passagem do ciclone extratropical pelo Rio Grande do Sul, os números são devastadores e impressionantes.

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Foram 16 vidas perdidas. Milhares de famílias ficaram desalojadas. Centenas de famílias perderam tudo o que tinham em suas residências. Rodovias, ruas e estradas seguem bloqueadas nos municípios.

As estimativas iniciais para recuperar as cidades afetadas superam os R$ 100 milhões. Municípios decretaram situação de emergência. Esse número vai crescer.

Nestes dias de dor, sofrimento, aflição e também de muita solidariedade, outra realidade ganhou destaque: troca de acusações sobre culpados pelos alagamentos, oportunismo político, populismo barato e busca por apontar o dedo para eventuais responsáveis pelas cheias.

Tem culpado? Ou culpados?

Entre as relevantes contribuições do jornalismo profissional, uma delas é a prática de trazer fatos, relembrar o passado e provocar reflexões. É essa postura, aliás, que incomoda muita gente, principalmente políticos incompetentes ou fanfarrões.

Como jornalista profissional, registro abaixo uma série de situações envolvendo as cheias. O objetivo é alertar para que a sociedade possa aprender com esses episódios. E que a gente possa fazer reflexões de como precisamos evoluir de forma coletiva.

FORÇAS DA NATUREZA

Ainda não há tecnologia que consiga enfrentar as forças da natureza. É só acompanhar a história recente e antiga: erupções de vulcões, ciclones, furacões, tsunamis, chuvas severas, tempestades de granizo, terremotos, maremotos. A natureza resolve agir e é imparável. Ela leva o que tem pela frente.

Então, tem algo que pode ser feito? Não se tem como frear as forças da natureza, mas É POSSÍVEL reduzir os impactos, diminuir as perdas e preservar vidas.

Para isso, é preciso prevenção, planejamento, investimentos e uma sociedade mais consciente de sua responsabilidades.

FATOS E REFLEXÕES

– As prefeituras precisarão investir mais na limpeza e manutenção de córregos e arroios. É fundamental deixar mais caminho livre para a passagem das águas em eventos severos.

– A população precisa parar de entupir arroios e córregos com tudo que é tipo de material – garrafas, plásticos, móveis, eletrodomésticos… Arroio não é lixeira! Quem transforma arroio em local de descarte é criminoso. Depois, a água não escoa pelos arroios, fica entupido de lixo/resíduo, e reclamam dos alagamentos.

– Falta de fiscalização ao longo do tempo envolvendo ocupação indevida de loteamentos e vilas. Vereadores não fiscalizaram, prefeitos permitiram, e famílias construíram casas onde deveria ser área de preservação para o rio poder transbordar. A culpa é do rio? Ou de quem não fiscalizou e aprovou os loteamentos e vilas onde não podia?

Muitos desses vereadores que não fiscalizam são reeleitos. Agora, na tragédia, eles entram em campo com o assistencialismo, ranchos, etc. No meio da desgraça, começam a buscar votos pra se reeleger – e seguir não fiscalizando. Além disso, é sabido que alguns governos – por ideologia – incentivaram invasões de áreas indevidas – práticas criminosas em troca de votos.

– Na Avenida dos Municípios, entre Novo Hamburgo e Campo Bom, está nascendo uma favela do lado direito – foto abaixo. São dezenas famílias ocupando terrenos particulares numa área de preservação ambiental. Estão aterrando as margens da avenida. Agora, mais uma vez, tudo alagou ali – em 2020, o Portal Martin Behrend registrou a mesma situação: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… .

Neste local, não pode ter moradias daquele jeito. Tem riqueza de fauna e flora, é área de natureza protegida. Em 2021, a Prefeitura de Novo Hamburgo já teve algumas ações para retirar ocupantes de área pública – aqui uma matéria: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/….

Mas, ali, os terrenos têm donos. E o Ministério Público, deixa assim? Na cara das autoridades?! Está nascendo uma favela numa área de proteção ambiental e fica por isso mesmo?! Quem vai ser responsabilizado? Ah, e as famílias que ali estão, muitas delas, têm carros, celulares, TV por antena, etc…

– Embora a imprensa tenha suas falhas, o Jornalismo profissional faz vários alertas e reportagens sobre estes temas. Mas parte da população prefere repassar Fake News. Outra parcela desacredita o Jornalismo. Dizem, com orgulho, que não leem, não ouvem, não assistem notícias. Depois, reclamam que não sabiam. Muitos preferem ficar assistindo vídeos no celular a se informar. São escolhas, todos são livres. Mas depois não vem chorar dizendo que não sabia. A imprensa – portais de notícias, rádios, jornais, emissoras de TV – noticiam diariamente. Agora, precisa se informar e parar de repassar Fake News – Notícias Falsas.

– Alguns empresários também precisam mudar seu olhar para investimentos. Hoje, é desenvolvimento sustentável. Muitos empresários pressionam pra aprovar empreendimentos sem medir as consequências. Tem regiões que alagam facilmente pois autorizaram muitas obras sem as devidas compensações. Talvez, alguns empresários pensem: eu moro num edifício, numa parte alta, não me preocupo. Só que, numa parte baixa, pode estar o colaborador da sua empresa com a casa alagada. Desenvolvimento, geração de empregos, fábricas, tudo fundamental e necessário! Mas com planejamento e de forma sustentável.

NOVO HAMBURGO E SÃO LEOPOLDO

Das regiões mais afetadas pelas cheias e alagamentos, as de maior população ficam em Novo Hamburgo e São Leopoldo. Por isso, um capítulo para estas duas cidades.

– A Casa de Bombas de Novo Hamburgo não é confiável. A cada evento severo, surgem acusações e críticas. Existem sete bombas no local, mas, desta vez, apenas três funcionaram. O roteiro de explicações da Prefeitura é o mesmo: peças estragadas, manutenção, peças antigas, dificuldade de reposição. Há anos é a mesma explicação!

A prefeita Fátima Daudt (MDB) vai completar oito anos de governo em 2024 e tem a obrigação de deixar encaminhada uma solução. Ou, então, já prepara o e-mail com o release pronto para a próxima situação: peças estragadas, manutenção, peças antigas, dificuldade de reposição. Bah, sempre o mesmo roteiro. Cansou, passou da hora de encaminhar uma solução.

– Vale lembrar que a Casa de Bombas envolve apenas uma parte menor de Novo Hamburgo. Outras partes foram alagadas pois foi chuva excessiva – zero conexão com a Casa de Bombas. Alagaram porque foi muita chuva, pois tem casas em lugares indevidos, pois foram ocupações irregulares, etc…

– A sujeira que tem origem em áreas de São Leopoldo é outro problema. A Prefeitura de Novo Hamburgo insiste que seja colocado um gradil para frear a sujeira – colocada por moradores!!! – dentro do arroio. Essa sujeira, sim, prejudica as bombas, que estragam. São Leopoldo tirou o gradil, e a sujeira circula livremente.

– Ao invés de buscar soluções para os problemas, a Prefeitura de São Leopoldo, mais uma vez, jogou com o populismo barato. O governo Ary Vanazzi repassou boa parte dos problemas para o colo da Prefeitura de Novo Hamburgo, em razão da Casa de Bombas. Ao invés de concentrar esforços pra ajudar as famílias, preferiu ir para uma acusação pública para ganhar pontos com seus eleitores.

– Nada surpreende nas posturas de Vanazzi. Quando tem seca, a culpa é dos arrozeiros; quando a chuva extrapola, a culpa é da Casa de Bombas de Novo Hamburgo. Vanazzi vai para 16 anos como prefeito. Esteve alinhado com presidente do PT. Esteve alinhado com governador do PT. Serão 16 anos com a caneta na mão. Como ele explica tantas famílias seguirem morando em áreas de risco? Vanazzi chora, acusa arrozeiros, acusa o município vizinho, veste o uniforme do populismo e, agora, surge como herói para ajudar as famílias atingidas. A fórmula é conhecida e funciona, tanto que serão 16 anos como prefeito. Agora, basta ver o que foi feito neste período – e será pouco, muito pouco que foi realizado, diante das necessidades.

– Em 2021, manchete do Portal Martin Behrend: “Novo Hamburgo e São Leopoldo buscarão recursos junto à União para reduzir alagamentos” – matéria aqui https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… . Dois anos depois, onde estão estes recursos? Cadê a parceria dos municípios?

– Em 2019, quando o presidente da República era Jair Bolsonaro, Vanazzi disse: “Desde 2017 que estou alertando para a fragilidade do Sistema de Proteção Contra Cheias.” Aqui está a matéria: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… .

Em 2023, com praticamente nenhum grande investimento realizado nos diques, o governo Vanazzi afirma: “O sistema de contenção de cheias – diques está seguro e em pleno funcionamento, sem riscos para a população.” Oi?! Como assim?! Era frágil, quase nada foi feito, e virou seguro?! Aqui a afirmação na semana: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… .

– Com essa quantidade de água sobrando, qual foi a estratégia pra reservar para o verão? Precisamos de mais cisternas. Tem incentivos para mais cisternas? Como não se é capaz de reservar parte dessa água, que no verão tanto falta? Isso é desperdício escancarado.

Em Novo Hamburgo, o governo Fátima Daudt decretou uma área como utilidade pública para detenção de águas pluviais. Fica atrás do I Fashion Outlet: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… . Já é um começo. É preciso mais em toda a região.

LIÇÕES

Existem culpados? Na minha opinião, é um problema coletivo. Precisamos evoluir como sociedade. Todos temos responsabilidades como cidadãos. Desde não jogar lixo na rua até eleger melhores representantes que realmente trabalhem para soluções.

Contra as forças da natureza, não há o que fazer. Elas vão agir mesmo contra nossa vontade e orações. Agora, fica claro: é possível planejar, prevenir, ficar em alerta para minimizar estragos. E, nesse caso, a responsabilidade é todos.

Que a gente consiga tirar lições e aprendizados para os próximos eventos severos.


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