Há alguns meses, ainda dentro de 2015, participei de uma reunião do comitê de Finanças da AMCHAM (American Chamber) em Porto Alegre. A pauta da reunião: os desafios do ano de 2016 diante do atual cenário econômico e político do Brasil.
Dentro das atuais circunstâncias e às margens de uma eminente mudança da política econômica do país, a exemplo do ocorrido na vizinha Argentina, ficou claro nesta reunião que vivemos em um cenário cheio de incertezas sobre qual “história” adotar em exercícios de futurologia. A argumentação de que o Brasil necessita reconquistar a confiança de investidores internacionais de fato procede, e explicar para estrangeiros a ciência por trás das projeções mensais no Brasil é uma tarefa extremamente delicada. Como argumentar com americanos o que vem acontecendo no nosso país, uma vez que nem mesmo nós entendemos perfeitamente? O fato é que nossa economia já perdeu a confiança e a paciência internacional há tempos, e os profissionais que trabalham na linha de frente entre Brasil e exterior estão sendo exaustivamente testados, muitas vezes colocando em cheque a sua própria credibilidade.
O critério técnico, hoje, é talvez um mero coadjuvante em um emaranhado de fatos especulativos. Dentro dos indicadores utilizados hoje para projeção de resultado, talvez o que tenha maior impacto vêm da assertividade do “coeficiente de incerteza,” popularmente conhecido com o “coeficiente de cagaço”. Ele é o ponto chave na célebre estratégia “under promise and over deliver,” ou em português, “prometa menos do que você acha que pode entregar”. Entendo que talvez seja incoerente dependermos de algo tão subjetivo em previsões utilizadas como base de importantes decisões, entretanto, vale a pena ressaltar que no momento da reunião da AMCHAM comentada no inicio do texto, a taxa cambial unanimidade entre os profissionais de finanças era de FX=4 para 2016. Hoje, dia 24 de Abril de 2016 já está em 3,56. Ou seja, um erro de 12% não relacionado ao desempenho operacional das empresas. O impacto do coeficiente de incerteza em cerca de quatro meses já superou os números da inflação de 2015.
Claro que existem estratégias para assegurar patrimônio contra estas instabilidades econômicas, tais como contratos de hedge (trava cambial). Entretanto, estas proteções têm um alto custo financeiro para as empresas, as quais neste momento lutam para sua sobrevivência e não podem arcar com despesas não diretamente relacionadas à operação. Além disso, existe o desgaste político de sustentar um encargo adicional nas operações industriais dentro do Brasil, um país de alta complexidade trabalhista que não compensa mais pelo baixo custo.
O fato é que os comentários que vivemos uma crise de confiança no cenário internacional realmente procedem. Entretanto, vivemos isso já há muito tempo. A segurança do investidor internacional nunca esteve ligada ao país de fato, e sim, ao profissional que faz a conexão entre fronteiras. Agora, chegamos a um momento que os próprios profissionais que controlam a informação do Brasil estão inseguros diante desta crise generalizada. O “coeficiente de incerteza” nunca teve um papel tão importante na sobrevivência de empresas dentro do país.

























