Na noite deste sábado (24), foram conhecidos os filmes vencedores do 47º Festival de Cinema de Gramado. Conforme já divulgado neste domingo pelo Portal Martin Behrend, o longa brasileiro Pacarrete foi o grande vencedor, levando oito Kikitos para casa.
Além dos elogios aos filmes concorrentes, a 47ª edição foi uma das mais políticas do quase cinquentenário evento cinematográfico. O alvo de muitos ataques e recados foi o presidente Jair Bolsonaro (PSL).
Em julho, o presidente afirmou que se o governo não puder impor algum filtro nas produções audiovisuais brasileiras, por meio da Agência Nacional do Cinema (Ancine), ele extinguirá a agência. No centro da polêmica, estão filmes com temática LGBT e questões de gênero, que segundo Bolsonaro, podem ser realizados, mas sem recurso público.
Vinculada ao Ministério da Cidadania, que tem à frente o gaúcho Osmar Terra, a Ancine é uma agência reguladora que tem como atribuições o fomento, a regulação e a fiscalização do mercado do cinema e do audiovisual no Brasil.
REPERCUSSÕES
Durante todo o 47º Festival de Cinema de Gramado e ainda na repercussão e balanço do evento, várias manifestações foram realizadas por integrantes do universo cinematográfico. A maioria delas democrática, mas desrespeitosas. Muitos que vão prestigiar o festival não estão interessados em politicagem, manifestos políticos ou campanha eleitoral. Não querem saber se o ator ou diretor defende político A ou B.
Confira alguns registros a seguir:
– No palco para apresentar o filme Bacurau em sua primeira exibição pública em solo brasileiro, o diretor Kleber Mendonça Filho convocou elenco e equipe técnica do filme a se identificarem, pedindo respeito e destacando o número de brasileiros que têm emprego neste setor.
– Um grupo de profissionais ligados ao cinema gaúcho atravessou o tapete da Rua Coberta de Gramado empunhando cartazes de filmes brasileiros e entoando um grito de guerra: “Pelo cinema, pela cultura, por uma arte livre e sem censura”.
– Antes da exibição do longa Veneza, o ator e diretor Miguel Falabella leu um manifesto em defesa do cinema brasileiro, assinado pela organização do Festival de Gramado e mais 63 associações e entidades ligadas à área, espalhadas por todo o país.
– Durante a semana, um grupo de cineastas desfilou no tapete vermelho com cartazes de “Lula Livre”, entre outros com teor político.
– “Enquanto nossos corações se abalam porque tem um vilão aí querendo nos destruir, permanecemos unidos. Mesmo sendo recebidos a gelo, nossa a energia continua. Esse filme de terror vai ter um final feliz. Esse vilão vai ser vencido. Menos Bolsonaros, mais Pacarretes”, disse o diretor do filme Pacarrete, Allan Deberton, ao receber o prêmio de melhor filme.
– “O festival sempre foi palco de expressões políticas, e esse ano
os colegas do cinema gaúcho fizeram várias e lindas manifestações contra a
censura do governo. Aparentemente, deixou a sociedade gramadense bem puta de raiva,
o que é sempre divertido. A cidade tem um pensamento bem pequeno, apesar de
precisar dos artistas para sobreviver de turismo.” Ulisses da Motta, cineasta do Vale do Sinos, premiado no Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema para a Mostra Gaúcha de Curtas – venceu Melhor Produção Executiva em “Quero ir para Los Angeles”
– Neste sábado, noite de entrega dos Kikitos, vários diretores e produtores de cinema passaram pelo tapete vermelho em direção ao Palácio dos Festivais entoando gritos de protesto às recentes medidas de Bolsonaro. A manifestação política desagradou frequentadores que ocupavam os bares e cafés da Rua Coberta. Muitos responderam com vaias e palavras de ordem. Além disso, restos de comida e até pedras de gelo foram arremessadas nos cineastas.
– Na foto oficial dos vencedores com Kikitos, um grupo subiu ao palco para defender filmes com temática LGBT, abrindo uma faixa colorida.
DESRESPEITO
Historicamente, essa militância política é um erro e um atraso para o Festival de Cinema. A culpa é de muitas cineastas. Ano passado, o ator Osmar Prado pediu Lula Livre: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/id/5107/titulo/vencedor-do-kikito-de-melhor-ator-global-pede-liberdade-a-lula-e-critica-sergio-moro
Discutir o futuro da indústria cinematográfica sem problemas, mas muitos se aproveitam dos holofotes no palco do Palácio dos Festivais para militância política. Ofendem e agridem quem está ali para prestigiar os filmes e o trabalho de tantos profissionais. Desrespeitam quem investe em ingressos para ajudar na ocupação dos cinemas. E dão um tiro no próprio pé.
Ao invés de se destacar os filmes, os premiados, a qualidade dos trabalhos, a imprensa dedica parte do tempo para repercutir atitudes de movimentos políticos no maior festival de cinema do país e um dos mais relevantes do continente. Aliás, o cinema brasileiro tem filmes e profissionais espetaculares.
Só quem já esteve no Palácio dos Festivais diante de militantes engajados numa causa política para entender o desrespeito que isso representa. E lá se vão alguns anos de repetidas cenas.
O Festival de Cinema nasceu ainda no final da década de 1960, quando foram realizadas as duas primeiras Mostras de Cinema. O que essa comunidade de Gramado – com parceiros de fora, como Porto Alegre e Novo Hamburgo – fez para o cinema brasileiro não tem preço. É uma lástima que uma nova geração não tenha a dimensão do que representa o Festival para o cinema brasileiro.
Oscar, Berlim, Cannes, Veneza, tradicionais premiações e festivais de cinema pelo mundo também têm seus protestos e suas manifestações. Mas em escalas e proporções bem diferentes. Em Gramado, há uma orquestrada e sistemática agressão ao evento e aos espectadores. Um atraso.
Gramado foi impulsionada ao mundo pelo Festival de Cinema. Há anos – ou décadas – o município já não é mais dependente desse evento para fomentar a indústria turística. Agora, o cinema brasileiro ainda precisa, e muito, de Gramado, dos Kikitos e do Palácio dos Festivais. A cidade de Gramado mostrou ao cinema brasileiro como crescer, se qualificar, captar milhões de novos frequentadores.
Menos política, mais respeito com o Festival de Cinema de Gramado.
