Mais uma guerra está declarada na República Rio-Grandense. Para fazer companhia aos célebres duelos Grêmio x Inter, chimangos x maragatos, Atlântida x Torres, Rio Guaíba x Lago Guaíba, Gramado x Canela, temos uma nova parelha: Aeroporto Salgado Filho x Aeroporto 20 de Setembro. A aparente calmaria e unidade consensual em torno de um
futuro empreendimento em Portão foi quebrada há uma semana, quando o ministro-chefe da Secretaria da Aviação Civil (SAC), o gaúcho Eliseu Padilha (PMDB), foi definitivo: “Se depender do nosso ministério, nós vamos fazer o 20 de Setembro.” A declaração partiu durante entrevista coletiva realizada após encontro com o colega de partido e governador do Estado, José Ivo Sartori.
Essa declaração favorável ao 20 de Setembro causou um verdadeiro rebuliço na capital de todos os gaúchos. O primeiro a berrar foi o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati (PDT). Em seguida, vieram lideranças empresariais e de entidades. Para completar, veículos de comunicação concederam generosos espaços para opiniões favoráveis ao Salgado Filho. No jornal Zero Hora, democraticamente, a preocupação do doutor em Direito
Fábio Luiz Gomes
é de um egoísmo surpreendente: “Para chegar ao ’20 de Setembro’ sem perder um voo internacional às 19h, imperioso iniciar o deslocamento às 14h; com chuva, um caos.
Mas só um pouquinho. Esta é a preocupação? Há quantas décadas moradores de Novo Hamburgo, São Leopoldo, Caxias do Sul – só nestes três municípios, quase um milhão de gaúchos – precisam sair com cinco, seis, sete horas de antecedência para cumprir a epopeia de cruzar a maldita BR-116 para tentar chegar em tempo no aeroporto?
Um formador de opinião nas redes sociais escreveu o seguinte: “Está certo o prefeito José Fortunati em batalhar pelo Salgado Filho. Aeroporto em Portão? É viajar pra viajar. Sabotar a Capital, não!” Sabotar a capital? Será que eu li direito? Um colega jornalista se manifestou no rádio preocupado com o valor da corrida do táxi. “Imagina qual será o valor, cerca de 40 quilômetros”, sendo corrigido por uma colega, que informou que a BR-448 será ampliada e a distância ficará em torno de 25 quilômetros. Ah, a guerra é capital x interior? Porto Alegre tem cerca de R$ 1,6 mihão de habitantes. Bom, só Vale do Sinos, Vale do Caí, Vale do Paranhana e Serra, que serão diretamente beneficiados, superam esta quantidade de pessoas. Vamos beneficiar a minoria dos porto-alegrenses ou uma maioria de gaúchos? Imaginem quanto o turismo em Caxias, Bento, Farroupilha, Gramado e Canela vai ser favorecido encurtando distâncias! Vamos nos dividir de novo? É Gre-Nal de aeroportos? Uma informação: do Aeroporto de Guarulhos ao Centro de São Paulo se paga mais de 100 reais de táxi. OK?! É o maior aeroporto em movimentação de passageiros na América do Sul.
O Salgado Filho tem hora para chegar ao seu limite. Uns falam em dez anos, outros 12, 15 e, os mais entusiastas e defensores de sua manutenção total, falam em 25 anos. Aeroporto com uma pista, e ainda curta, é sinônimo de atraso, prejuízos, desgastes. Todo mundo sabe: quem tem uma pista, nada tem. É só o primeiro nevoeiro voltar pro caos se instalar – mesmo com Instrument Landing System 2 (ILS2). A ampliação da pista é um vexame – já deveria ter sido realizada
há uns cinco anos. As obras de ampliação do terminal de passageiros se arrastam. E seguiremos tendo apenas uma mísera e famigerada pista. Não tem solução. É uma pista única. Segundo a Agenda 2020 e a Câmara Brasileira de Logística e Infrestrutura, o Rio Grande do Sul perde mais de R$ 7 bilhões por ano em cargas aéreas por causa do tamanho da pista. Repetindo: mais de R$ 7 billhões – não é milhões. Morreu o assunto aqui.
Na Alemanha, por exemplo, o todo-poderoso Aeroporto de Frankfurt não aguentou mais tantas conexões. O que fizeram os alemães? Modernizaram os aeroportos de Munique, Berlim e Düsseldorf, por exemplo. Destes locais se voa para praticamente todo planeta. Voos distribuídos, novas rotas, voos e alternativas dentro do país. No Brasil, lentamente se tem esse processo, com voos internacionais chegando em Recife, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre. Descentralizar é saudável e necessário.
O Aeroporto 20 de Setembro não é uma aventura para ficar pronta em cinco anos. Tem o apoio de dezenas de lideranças políticas e empresariais.Houve uma aglutinação de esforços a partir de mobilizações conduzidas pelo Grupo Sinos e as intenções foram irradiadas e ecoaram por prefeituras da região. O atual secretário da Fazenda, Giovani Feltes (PMDB), foi o primeiro coordenador da Frente Parlamentar Pró-Aeroporto 20 de Setembro criada pela Assembleia Legislativa. É um projeto para ficar pronto em 10 ou 12 anos. Vai alavancar a economia gaúcha através de um aeroporto com logística para grandes cargueiros. Colocará o Estado como rota internacional consolidada e abre-se uma nova perspectiva a partir de um aeroporto diferenciado – no mínimo, duas pistas – com localização estratégica entre São Paulo/Rio
e Buenos Aires.
Agora, existem interesses inimagináveis
na sombra das declarações recentes. Porto Alegre já mostrou suas armas. Não quer perder o aeroporto no pátio de casa. E promete jogar pesado. A briga só está começando. É mais um Gre-Nal na vida dos gaúchos. E já tem caranguejo soltando foguete: nesta disputa, já tem sinais de que a pista do Salgado Filho não será ampliada e rolou balde de água fria para baixar a fervura e o entusiasmo do 20 de Setembro. O investimento não é para fazer os
porto-alegrenses gastarem mais com táxi. É um projeto maior. Para o Rio Grande do Sul.
PS: A solução apresentada pelo ministro Eliseu Padilha é interessante. Conceder para a iniciativa privada o direito de construir e explorar o Aeroporto 20 de Setembro, desde que sejam feitas melhorias imediatas no Salgado Filho para que não fique ainda mais pra trás. Quando o 20 de Setembro estiver pronto para operar, redistribuir rotas e voos entre os dois aeroportos, permitindo que ambos tenham movimentação, rentabilidade e eficiência. Em parte, como funciona em São Paulo – Congonhas e Cumbica – e no Rio de Janeiro – Galeão e Santos Dumont.
