O alcance dos impactos da pandemia do coronavírus ainda está sendo avaliado.
Em alguns casos, os desdobramentos das restrições, do necessário isolamento e do afastamento das pessoas será sentido por muitos anos. Reflexos de uma mudança brusca de comportamento e do quanto o modo de viver e de conviver das pessoas foram afetados.
Cada faixa etária sentiu e ainda sente os reflexos da pandemia de diferentes formas. Enquanto pessoas mais idosas ou com comorbidades ficaram mais vulneráveis ao vírus, com a maioria dos óbitos, os bebês e as crianças tiveram uma brutal e severa interferência em fases fundamentais de seus desenvolvimentos. Houve uma quebra de padrão nas modalidades de relação e comunicação, tanto social como política e econômica.
No que se refere às questões emocionais e existenciais, o cenário é semelhante. “Assim, já podemos perceber bebês ou pequenas crianças com atraso no desenvolvimento motor, no desenvolvimento da fala e outras questões que estão diretamente relacionadas com as questões que envolvem as relações entre pares (crianças da mesma idade) e diferentes modelos de adultos para o exemplo e constituição”, explica Daisy Eckhard Bondan, especialista em Psicomotricidade Relacional e diretora do Espaço Global, em Novo Hamburgo.
As repercussões do distanciamento social sobre os sujeitos em desenvolvimento, as crianças em particular, são perceptíveis a olhos nus. A avaliação é da psicomotricista Lila Coelho. “Destacam-se num primeiro momento questões de ordem emocional e à medida que vão acontecendo oscilações entre flexibilizações e recrudescimento das regras de contenção, a retomada dos processos de ensino, primordialmente à distancia, fazem emergir dificuldades de relação, interação e atenção com o ambiente externo – mediado pelas telas de celulares, tabletes e computadores -, sobretudo naquilo que é próprio do desenvolvimento humano, as explorações sensoriais táteis-cinestésicas”, comenta Lila.
REAÇÕES E TOQUES
Tanto Daisy como Lila destacam que as dificuldades de ordem corporal vão se instalando e crescendo em visibilidade como na organização tônico-corporal, no equilíbrio, na estruturação espaço-temporal, nas percepções sensoriais, nos movimentos amplos (grandes articulações) e específicos (finos).
Elas apontam alguns exemplos que refletem esse novo momento: restrições corporais de contato como tocar, abraçar, beijar; restrições espaciais como o dentro e o fora – em nome da segurança e higiene; restrições nos deslocamentos como percorrer pequenas e grandes distancias; restrições nos movimentos e desafios motores amplos e finos como subir descer, escorregar, correr, rasgar, inspirar, expirar; restrições nas experiências sensoriais como ver, ouvir, sentir, cheirar, mastigar, tocar e, no conjunto, restrições sobre o conhecimento do corpo próprio e do próprio corpo, envolvendo esquema corporal, imagem corporal, consciência corporal; em suma, restrições relacionais.
“Vale ressaltar que em se tratando de desenvolvimento psicomotor, a pandemia e o distanciamento social afetaram radicalmente aquilo que lhe é próprio, ou seja, as relações, uma vez que a Psicomotricidade se ocupa do sujeito em movimento e de/em relação – consigo mesmo, com o outro, com os objetos, com o ambiente”, apontam as psicomotricistas.
VOLTA ÀS AULAS
A volta às aulas, que ocorre neste mês, será um período desafiador para pais, professores e crianças. Embora em praticamente todas as escolas ocorreu um retorno no final do ano passado, foi um período de poucas semanas, que emendou com as férias escolares. Agora, contudo, será para valer um novo ano de forma presencial.
Neste sentido, torna-se complexo falar em atrasos no desenvolvimento escolar, visto que a sociedade experimenta novos referentes de vida e relação. “É complexo afirmar que o distanciamento social provocou atrasos escolares que poderão perdurar por dois ou três anos, vez que estamos lidando com uma mudança radical no modus operandi das produções humanas”, avalia Daisy.
Seguramente, destacam as especialistas, há elementos materiais que apontam para atrasos cognitivos, sociais, motores, relacionais e existenciais. Que os mesmos são visíveis e que demandam intervenções reeducativas e terapêuticas, no âmbito das instituições família e escola em se tratando de crianças e adolescentes.
“Da escola regular e inclusiva às instituições de atenção à saúde e bem-estar psicossocial, fez-se necessário rever práticas de acolhimento e intervenção educativa e terapêutica; dos cuidados primordiais à criação/adaptação de estratégias de ensino e escuta terapêutica, instituições e profissionais precisaram se reinventar”, aponta Lila.
Será fundamental ter um olhar profissional para cada situação. Até porque, as estatísticas estão aí pra comprovar, cada criança tem seu tempo de amadurecimento. Então, é preciso ter muito cuidado em saber o que pode ser reflexo da pandemia e aquilo que ocorreria com ou sem isolamento.
ESPAÇO GLOBAL
O Espaço Global é um ambiente clínico e educativo com atendimentos de Fisioterapia Neuropsicomotora, Psicomotricidade, Psicopedagogia, Fonoaudiologia, reforço escolar e atendimento educacional especializado. Está localizado na Rua São Francisco de Paula, 276, no bairro Boa Vista.
Daisy Eckhard Bondan e Lila Coelho são sócias titulares da Associação Brasileira de Psicomotricidade (ABP) – relação pode ser conferida no link https://psicomotricidade.com.br/socios-titulares/ .
No Espaço Global estão salas estruturadas para diferentes movimentações (foto abaixo), incluindo espaço para artes e área para exercitar movimentos, com pula-pula, balanço, escorregador, entre outros equipamentos e acessórios. O telefone de contatos é: (51) 99153.4747. No Instagram, o perfil é espacoglobalnh .
