Foram cerca de 30 anos de espera. Até que o reencontro aconteceu: foi numa das mais movimentadas avenidas de Porto Alegre, só que esvaziada em função do feriado: a Dom Pedro, próximo da Sogipa. A emoção era a mesma do início da década de 1980. O carrinho de lomba, o piloto e, diferentemente de anos atrás, o pau de selfie e a câmera GoPro. Tudo para poder registrar aquele momento. O vento na cara, o ganho de velocidade, o barulho do atrito das rodinhas com o asfalto, os freios emborrachados… O Lombinha estava de volta!
O empresário hamburguense Álvaro Schuck, 41 anos, é o autor dessa volta no tempo. Residindo em Porto Alegre, ele resolveu tirar o pó do brinquedo idealizado no final da década de 1970 por Luiz Fernando de Paula Gusmão. Durante mais de três décadas, Schuck manteve guardado um Lombinha intacto e original. Com duas filhas adolescentes – Giovana e Mariah –, ele decidiu que era hora de voltar no tempo e mostrar como ele se divertia. “Foi um momento tão bom, divertido e marcante de minha vida. Arrisco a afirmar que até hoje não refizeram nem lançaram no mercado nada parecido, simples, leve e, de tão fácil montagem e manuseio, como o Lombinha”, destaca.
Embalado pela nostalgia de quem descia lombas como as das ruas Centenário e Frederico Mentz, no bairro Vila Nova, junto da Fundação Evangélica, Schuck resolveu recriar o brinquedo no início deste ano, mas não mais para crianças
e, sim, para ele mesmo e seus amigos poderem desfrutar daquelas emoções únicas que o Lombinha proporcionara. Sendo empresário do ramo metalúrgico, as partes metálicas não seriam problema, mas esbarrou na rodas e no banco que na época eram produzidas em plástico. Sem similar no mercado, optou por fazer em fibra de vidro estes componentes. Pronto, estava recriada a lenda “Lombinha”.
SURGIMENTO DO LOMBINHA
O leopoldense Luiz Fernando de Paula Gusmão trabalhou por 20 anos na empresa Plásticos Mueller, em São Paulo – de 1959 a 1979. A empresa era especializada em produzir brinquedos, bonecas e botões, entre outros itens. Gusmão começou como representante comercial, mas fruto do seu esforço e competência foi alçado ao posto de diretor de Vendas. Lá pelas tentas, uma situação passou a intrigá-lo. “Produzíamos muitos brinquedos, mas muita coisa era inspirada em brinquedos alemães, argentinos. Pensava em ter algo nosso”, destaca.
Observando as possibilidades – até mesmo a partir do maquinário disponível pela Irmãos Mueller – e o comportamento dos filhos Ricardo e Marcel, começaram a ser criados protótipos que iriam dar origem ao Lombinha. “Contudo, após os primeiros testes, o diretor da Plásticos Mueller
se assustou com riscos de acidentes. Argumentei que esses riscos existiam, por exemplo, com quem andava de bicicleta ou skate. Mesmo assim, ele não quis produzir. Mas deu sinal verde para que a empresa que eu tinha criado levasse adiante o projeto”, explica Gusmão. Assim, em 1978, o bairro do Morumbi, em São Paulo, recebeu mais de 80 competidores para o primeiro evento de demonstração do Lombinha. A imprensa deu grande repercussão – inclusive três emissoras de TV –
e o sucesso estava garantido.
O Lombinha ainda estava buscando se consolidar
no mercado paulista e, em 1979, Gusmão foi convidado pelos irmãos Mario Alberto Gusmão e Paulo Sérgio Gusmão a retornar ao Rio Grande do Sul para atuar no Grupo Sinos. Ele aceitou o convite e, junto, trouxe a comercialização do Lombinha. Ao chegar ao Vale do Sinos, centenas de unidades foram negociadas. “Vendemos cerca de três mil lombinhas durante todo período de envolvimento”, relembra. Foi uma febre: os carrinhos de lomba com freios emborrachados, rodinhas plásticas, assento confortável, envelopados numa sacola laranja e criadores de
muita adrenalina caíram nas graças de jovens hamburguenses.
Gusmão chegou a ter pedido do Mappin de até 1.500 unidades. Contudo, o trabalho no Grupo Sinos estava exigindo muita entrega e foi preciso
priorizar esta nova fase. Não estava sendo possível conciliar as atividades na empresa com a comercialização do Lombinha. Foi necessário, inclusive, recusar novos pedidos para
não
perder o controle da situação. Assim, ainda na década de 1980, a produção dos carrinhos foi encerrada. Mas as emoções que eles proporcionaram continuam muito vivas. O caso de Álvaro Schuck é apenas um entre tantas paixões adormecidas envolvendo antigos pilotos mirins e o Lombinha. A lenda está de volta.
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