Um dos equipamentos culturais mais importantes de Dois Irmãos, o Museu Histórico Municipal de Dois Irmãos (MHMDI) estará novamente de portas abertas a partir de 18 de outubro, após passar por um amplo processo de restauração, adequação e qualificação de seus espaços.
A programação de reinauguração do Museu Histórico Municipal de Dois Irmãos (Avenida São Miguel, 1658) inicia às 15h30 e contará com apresentação do Coral Cantares, proponente do projeto junto às leis de incentivo, além de apresentações culturais, visita guiada com intervenção cênica e o ato de entrega do museu restaurado.
A edificação preserva parte do legado de Dois Irmãos e do Vale do Sinos, por meio da história das famílias que nela viveram e contribuíram para o desenvolvimento da região. Mais do que narrar a imigração, o espaço busca contar a história da casa e da comunidade, valorizando a identidade e a participação dos moradores na construção da memória local e regional.
O processo de restauro teve início em 2021, com a elaboração dos projetos técnicos, incluindo os projetos arquitetônicos e de acessibilidade. Concluída essa etapa, as obras da edificação tiveram início em 2025, assim como o projeto museológico e museográfico. Ambas as fases foram realizadas com recursos captados junto a patrocinadores e contrapartida do município, através do Sistema Estadual de Cultura – Pró-Cultura RS, do Governo do Estado, por meio da Lei de Incentivo à Cultura. Ao todo, foram investidos cerca de R$3.051.000,00.
O projeto contará, ainda, com ações de educação patrimonial em escolas do município, através de um esquete protagonizado pela atriz Thaís Backes. De acordo com a sinopse, a personagem explica, “de forma lúdica, o que é um restauro, como se tivessem dado uma poção de juventude para o prédio, cuidando de cada detalhe para preservar o passado, já que Dois Irmãos é uma cidade referência na preservação do patrimônio”.
REALIZAÇÃO
O projeto de restauro tem como proponente a Associação Cultural Cantares e conta com a gestão cultural e a coordenação geral do restauro da Simples Assim Produtora Cultural. A Escaiola Arquitetura e Restauração foi responsável pelos estudos e projetos arquitetônicos, e a Rauber Projetos e Obras, pelas obras. O restauro dos móveis foi realizado pela Führ Restauro. O Plano Museológico pelo Studiolo.
O restauro do engenho de cana feito pela Führ Restauro e da lápide de Anton Kieling feito por Flávia Duque-Estrada, foi viabilizado por meio de convênio com a Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, com recursos provenientes de emenda parlamentar aprovada em 2024 para o exercício de 2025, do então deputado estadual Issur Koch (PP).
O restauro do Museu Histórico Municipal de Dois Irmãos – Parte 2 – Obra conta com patrocínio master da Calçados Pegada; patrocínio do Grupo GG10 e da Killing S.A. Tintas e Adesivos; e copatrocínio da taQi, Grafdil Impressos, Kinei Calçados e Confecções e Grupo Panvel. O planejamento cultural é da Simples Assim Produtora Cultural.
A realização é da Associação Cultural Cantares e da Prefeitura de Dois Irmãos, com financiamento do Pró-Cultura RS, do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura.
RESTAURO E CONSERVAÇÃO
O restauro do Museu Municipal de Dois Irmãos foi uma intervenção ampla, pois a edificação apresentava diferentes necessidades de conservação e recuperação em seus elementos históricos. Com a abertura de partes que estavam anteriormente encobertas, foi possível identificar com maior precisão as condições das estruturas de madeira – que receberam tratamento e dedetização –, encontrando peças com deterioração, perdas de seção e outros comprometimentos. A partir dessas condições, algumas peças puderam ser preservadas, enquanto outras precisaram receber reparos, enxertos, complementações ou substituições.
Nas paredes e revestimentos, foram realizadas recomposição e recuperação de rebocos. As esquadrias de madeira e os tampões de madeira tiveram seus desenhos e leitura preservados, com base em fotografias históricas e no levantamento cadastral anterior, mantendo a originalidade do aspecto visual das janelas, foram refeitos, mantendo a maioria das ferragens dos mecanismos de abertura e fechamento.
A cobertura também foi objeto de revisão de sua estrutura, tratamento das madeiras e recuperação dos elementos de acabamento. Nas áreas em pedra grês, foram realizadas limpeza e recuperação das superfícies. O assoalho histórico também foi recuperado, priorizando o reaproveitamento das tábuas existentes, com reforços, correções e substituições localizadas conforme as condições observadas em cada trecho. No terraço, foram realizadas desmontagem e recomposição de trechos necessários às intervenções, além de adequações relacionadas à drenagem.
Além da recuperação dos elementos históricos, foi necessário adaptar a edificação às atuais normas de acessibilidade e às necessidades de funcionamento do Museu. Para isso, foram implantados novos acessos e percursos, incluindo uma plataforma elevatória e uma passarela metálica, importantes medidas de acessibilidade inexistentes até então no espaço, além de novas instalações elétricas, iluminação, paisagismo, climatização, monitoramento, alarme e elementos de segurança. Também estão sendo executados novos projetos expográfico e luminotécnico. A acessibilidade comunicacional, com audiodescrição e linguagem simples, com tradução em alemão, também integra o projeto museológico, contribuindo para qualificar a apresentação e a valorização do acervo.
As intervenções tiveram aprovação do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural (COMPAC), além do acompanhamento de técnicos da Prefeitura e agentes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul (IPHAE).
A história da edificação e seus primeiros moradores
Datada de aproximadamente 1862, a edificação do Museu é um dos poucos exemplares da técnica construtiva enxaimel que permanece em pé no perímetro urbano de Dois Irmãos. Este ano, o espaço completou 37 anos de atividade como equipamento cultural.
O imóvel foi adquirido pelo município em 1985, passou por uma reforma em 1986 e teve suas novas instalações inauguradas naquele ano. O espaço tornou-se uma instituição museal somente em 11 de junho de 1989, na gestão municipal do então prefeito João Arnildo Mallmann e do vice Renato Dexheimer.
Os Weinmann
De acordo com relatos de Laura Dienstmann nascida Kieling (antiga moradora da casa) e Wally Hulda Weber (sobrinha de Laura, filha de Eugenia Koch, nascida Kieling), gravados em fitas k7, na década de 1990 e que fazem parte do acervo do MHMDI, a casa que abriga o Museu foi construída por Louis Weinemann. Nascido na Alemanha, em agosto de 1832, na cidade de Lübbecke, no norte da atual Alemanha (na época de seu nascimento, parte da Província da Westphalia, Reino da Prússia), Franz era filho de Friedrich Wilhelm Weinmann e Friederike Catherine Hildebrand. Foi casado duas vezes: primeiramente, com Charlotte Marie Louise Wubbling; posteriormente, com Margarethe Foernges, filha de imigrantes, nascida no Brasil, em São Leopoldo, no ano de 1849.
Do primeiro matrimônio, Franz Louis Weinmann teve cinco filhos: Carlos, Germano, Carlos Fernando, Carolina Catharina e Catharina Isabel. O empreendimento iniciado por Franz, em São Leopoldo no ano de 1878, a fábrica Weinmann, localizada próxima ao Rio dos Sinos, onde, além de vinagres, eram produzidas bebidas, entre elas a que recebeu o nome de “Capilé”, denominação pela qual os leopoldenses também passaram a ser chamados. Do segundo casamento, teve a filha Margarethe Elisabethe.
Os Schaeffer
Para entendermos o contexto, sobre a chegada de Franz Louis Weinmann e Charlotte Wubbling ao Brasil, conforme o Dossiê Histórico Sobre O Museu Histórico Municipal De Dois Irmãos — Casa Kieling, do historiador Prof. Dr. Rodrigo Luis dos Santos da Universidade de Caxias do Sul, a historiadora Bruna Dias de Azevedo (2024), apurou, “com base no Códice nº 234 de Registros de Imigrantes chegados entre 1857 e 1863, a data registrada é 11 de outubro de 1858, quando ainda não eram casados — ao menos, oficialmente, dentro das leis brasileiras da época. Pelo mesmo documento, há registro de que o local de destino de ambos era a recém-criada Colônia de Nova Petrópolis. Entretanto, ainda conforme os levantamentos obtidos por Azevedo, o futuro casal Weinmann não chegou a residir em Nova Petrópolis”.
Ainda conforme o Dossiê, “O lote 18, lado oeste da estrada que dividia a localidade, hoje Avenida São Miguel, era também de propriedade de Henrique Engelmann Filho, Pedro Kloss, Henrique Roehe e Georg Schaffer, filho de Johann Nikolaus Schaffer Júnior, mais conhecido como Nikolaus Schaffer. Todas as informações obtidas recaem sobre os Weinmann e os Schaffer, num primeiro momento, com o adendo posterior da família Kieling – cujo nome se popularizou, sendo o local também conhecido como Casa Kieling. Referente ao vínculo direto com a casa onde hoje está o Museu Histórico Municipal de Dois Irmãos, assim como Azevedo (2024), também não encontramos maiores informações que relacionem os citados Engelmann, Kloss e Roehe com a construção e uso do imóvel.” O que indica que Weinmann, ao se mudar para São Leopoldo passou/vendeu a propriedade para Georg Schaeffer, que aparece como proprietário das terras, onde hoje está o Museu, no ano de 1918, no documento que transmite o lote para seu genro Carlos Kieling.
Georg Schaffer, marceneiro, utilizava o porão de sua residência para trabalhar. Mas Georg ficou conhecido principalmente por sua atuação como “médico prático”, uma espécie de médico com atividades práticas e sem formação acadêmica, atendendo na região.
Os Kieling
Georg Schaffer se casou em 11 de setembro de 1859 com Catharina Lampert. Georg nasceu no dia 2 de novembro de 1837, falecendo em 21 de julho de 1918, enquanto Catharina nasceu em 17 de abril de 1836, falecendo em 22 de março de 1918. No total, o casal teve oito filhos: Jacob, Georg, Catharina, Friederich, Carolina, Baldwin, Luísa e Paulina.
Carolina Schaffer, a quinta filha do casal Georg e Catharina, em 14 de fevereiro de 1893, se converteu ao Catolicismo, em decorrência de seu casamento com Carlos Kieling, procedente de família católica.
Carlos Kieling – homônimo ao pai, mas que não usava as designações “Filho”, nasceu em Dois Irmãos em 14 de setembro de 1868, e faleceu em 7 de abril de 1933. Sua esposa, Carolina, faleceu 19 anos depois, em 31 de dezembro de 1954. Os frutos dessa união foram oito meninas: Ida, Olívia, Alvina, Laura, Hulda, Carolina, Eugênia e Edith.
Oito filhas
Na parte residencial do imóvel, na sala, ficava a máquina de costura utilizada por Ida Kieling, a única filha do casal Carlos Kieling e Carolina Schaffer que não se casou. Segundo registros de gravações e entrevistas com a última das filhas a falecer, Laura Kieling, já com 92 anos, relata, que Ida ficou responsável, após a morte de Carlos Kieling, de impedir o casamento de Edith e Alfredo Rübenich, pois o patriarca não queria que Edith se casasse com um luterano, o que levou a um noivado de anos e um casamento que durou apenas nove anos, devido ao falecimento de Alfredo. Durante 50 anos, Ida se dedicou ao ofício da costura. Relatos de Laura descrevem que era comum vê-la observando a movimentação da rua por uma das janelas frontais da casa.
A primeira intervenção após a aquisição
Em 1985, o imóvel passou a ser propriedade do município. A aquisição foi motivada por uma sugestão da então assessora de Turismo, Bernadete Rausch, ao prefeito Romeo Benício Wolf, como forma de evitar a demolição da casa e transformá-la em espaço de história e memória do município. A compra foi autorizada pela Lei nº 601/1985.
No ano seguinte, a administração municipal convidou o artista plástico dois-irmonense Flávio Scholles para coordenar a primeira intervenção física no prédio. Na ocasião, Scholles estabeleceu diretrizes conceituais para o recém-criado Museu, com foco na história do povo e dos trabalhadores, na integração com as escolas, na preservação dinâmica e na criação de uma Associação de Amigos.
As obras foram realizadas entre maio e dezembro de 1986, quando ocorreu a então inauguração da reforma da Casa Kieling. Flávio Scholles pontuou, em entrevista concedida à Prefeitura Municipal de Dois Irmãos no ano de 2022, que seu objetivo era fazer uma reforma inicial na Casa Kieling para resolver problemas como a falta de telhas (evitando que chovesse dentro da casa) e o preenchimento de madeiras danificadas, para que, ao longo dos anos seguintes, fosse contratado um arquiteto que realizasse uma obra de restauro.
Descendente da família Kieling, Scholles também está relacionado à história da lápide de Anton Kieling.
Anton Kieling, que havia lutado nas Guerras Napoleônicas defendendo os interesses franceses, nasceu em 15 de dezembro de 1784, falecendo em Dois Irmãos no dia 10 de janeiro de 1855.
Segundo registros históricos relacionados à família, Anton teria sido alferes de Napoleão e marido de Elisabeth Lange, filha de um duque e líder militar de seu próprio batalhão. Posteriormente, deixou a Europa e escolheu o Brasil como lar.
Flávio identificou a lápide no Cemitério Católico e contou com o apoio do empresário e tataraneto de Anton, Celestino Killing, que fez o pedido para a sua transferência para o pátio do Museu no ano de 1990.
Flávio Scholles nasceu no dia 15 de fevereiro de 1950, em São José do Herval, localidade hoje pertencente ao município de Morro Reuter, sendo o último dos 11 filhos de Anna Kieling Scholles e Carlos Scholles.
Anton era trisavô de Flávio Scholles e pai de Guilherme e de Carlos. Guilherme teve um filho chamado Carlos, pai da mãe de Flávio. Este, porém, não é o mesmo Carlos que viveu na Casa Kieling: o Carlos da casa era filho de outro Carlos, irmão de Guilherme. Assim, o Carlos que viveu na casa era neto de Anton e primo do Carlos que foi avô materno de Flávio. Anton, então, era bisavô das meninas da casa, por parte de pai.
