Quem é o Renan Calheiros de Novo Hamburgo, que desde a década de 1990 está sendo governo?

Cena 1 – Data: 16 de dezembro de 2015. Local: Câmara de Vereadores de Novo Hamburgo.

Dia de eleição para presidente da Câmara de Vereadores em 2016. O nome da situação, desde o acordo criado em 2013, era o de Roger Corrêa (PCdoB). Contudo, o vereador Nassom Luciano (PT) decidiu às vésperas da eleição: não votaria no comunista. A base de governo do prefeito Luis Lauermann (PT) poderia entregar o comando do Legislativo para a oposição, que havia lançado o nome de Gerson Peteffi (PSDB). Eis que surge na Câmara a figura de Ito Luciano da Rosa – pai de Naasom. Reuniões. Telefonemas. Conversas olho no olho. Mais tensão. Teve encontro a sós de Ito e Roger. Dizem que as negociações teriam envolvido cargos. Fim da história: a situação elegeu Antonio Lucas (PDT) para a presidência. Ito manobrou o processo. Foi decisivo para ir contra, inclusive, os interesses do prefeito Luis Lauermann (PT), que desejava ver Roger na presidência.

Cena 2 – Data: 30 de dezembro de 2015. Local: Centro Administrativo Leopoldo Petry

Na véspera do Ano-Novo, o prefeito Luis Lauermann deflagrou uma onda de exonerações. Foram desligados de suas atividades sete servidores ligados ao deputado estadual e ex-prefeito Tarcísio Zimmermann (PT) – dois também por questões contratuais com o governo do Estado. Lá pelas tantas, Ito Luciano apareceu no Centro Administrativo. Foi tirar satisfações do secretário Geral de Governo, Gilnei Andrade – uma espécie de tampão do PT para preencher cargos e fazer politicagem. Ito partiu para cima como um leão, exigindo falar com o prefeito. Queria saber o motivo da suposta demissão de um CC da sua cota. Foi informado que houve algum mal-entendido. O tal CC não tinha sido exonerado. Ito se acalmou. Tinha garantido seus interesses e, ao mesmo tempo, deixou um recado: se mexer com CC dele, vai ter barulho.

Ito Luciano da Rosa foi vereador por 20 anos. Atuou nas legislaturas 1993-1996; 1997-2000, 2001-2004; 2005-2008; e 2009-2012. Neste longo período como vereador, chegou a assumir, interinamente, a Prefeitura de Novo Hamburgo.

Cansado da função e com problemas de saúde, abriu espaço para seu filho tentar perpetuar o sobrenome Luciano no Parlamento hamburguense. Nassom Luciano (PT) foi eleito para a legislatura 2013-2016.

Ito é uma espécie de Renan Calheiros (PMDB) de Novo Hamburgo. O atual presidente do Senado é governo desde o período do ex-presidente e atual senador, Fernando Collor de Mello (PTB). Dos tempos do caçador de marajás aos da presidente Dilma Rousseff (PT), Renan segue poderoso e dando as cartas. Emprega muita gente. Negocia. Barganha. Pressiona. O senador por Alagoas também passou sufoco em vários episódios de denúncias, inclusive o famoso Renangate. Atualmente, vem sendo ameaçado na Operação Lava-Jato. Mas resiste. E segue ao lado do poder.

Assim como Renan, Ito, desde a década de 1990, vem sendo governo. Passou pelas administrações do PDT (José Airton dos Santos), PMDB (Jair Foscarini) e PT (Tarcísio Zimmermann e Luis Lauermann) sempre estando ao lado do Executivo. Sua ética nem sempre é a partidária e seus princípios políticos mudam assim que muda o prefeito. Contrariando Che Guevara, Ito prefere: “Se hay gobierno, estou dentro!”

Além disso, teve seus direitos políticos cassados e perdeu seu mandato. Recentemente, foi condenado pela Justiça em 1º grau numa ação envolvendo o novo presidente da Câmara, Antonio Lucas (PDT), e o diretor da Guarda Municipal, Marcos dos Santos, o Marcão. Foram denunciados

por um esquema criado dentro do Legislativo a fim de bloquear o andamento de processos judiciais.

Mas nada impede a marcha de Ito Luciano. Ele segue influente e temido mesmo sem mandato. Os dois exemplos acima são uma amostra grátis de sua influência. Quando Nassom assumiu a presidência da Câmara de Vereadores, em 2014, circulava pelos gabinetes com absoluta naturalidade. E, em reuniões fechadas, subia o tom de voz.

O maior problema do comportamento de Ito é que sua prioridade não é com Novo Hamburgo. Ito indica dezenas de CCs pagos pelos contribuintes hamburguenses. Criou uma rede de favorecidos e admiradores. O foco são seus próprios interesses. Ito Luciano é leal – seus amigos e inimigos sabem bem – com seus princípios. Infelizmente, esse comprometimento não existe quando se fala no futuro e crescimento de Novo Hamburgo. O que importa, em muitos casos, é ser servido pela estrutura da cidade.

PS: Já tive meus pegas com Ito Luciano. No caso da eleição dos 14 x 21 vereadores, ele se pronunciou na Câmara com dedo em riste e olhando boa parte do tempo para minha pessoa – eu estava a quatro metros dele. Sentia o calor da sua ira. Respeito seu trabalho e suas eleições democráticas, embora não concorde com muitas atitudes. Ele diz que respeita minhas avaliações, embora não concorde com coisas que escrevo. Se ler este artigo, Ito não deverá concordar com o texto. Faz parte. Eu também não concordo com seus interesses por empregar tantos CCs sendo sustentados pelos hamburguenses. Entre outras coisas…

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