A expulsão do ex-prefeito Paulo Ritzel do MDB de Novo Hamburgo vem gerando uma série de conflitos e acusações.
Nesta semana, Ritzel – que já foi deputado estadual, deputado federal, e teve cargos de direção na Comusa e Hospital Municipal – concedeu entrevista ao programa Conversa de Peso, da Vale TV, onde disparou uma série de críticas sobre o comando da sigla no município:
“Aqui (em Novo Hamburgo) eles venderam o MDB em apoio ao governo municipal. Eles (vereadores) venderam os cargos deles.”
“Foi uma negociação de cargos. Foi muito pior que o caso de Sapiranga (vereadores negociaram valores). Lá foi dinheiro, aqui foram pessoas. Aqui é tráfico de pessoas.”
“Quando um vereador vende um cargo, como aconteceu agora, ele perde a sua autonomia como vereador. Por que tudo que mandam para a Câmara eles são obrigados a aprovar, pois se não aprovarem o prefeito (sic) vai lá e tira os cargos que eles têm dentro da Prefeitura. Me disseram que um vereador term 30 cargos dentro da Prefeitura”.
A matéria completa pode ser conferida aqui: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/id/6806/titulo/expulso-do-mdb-de-novo-hamburgo-ex-prefeito-paulo-ritzel-ataca-eles-venderam-o-mdb-em-apoio-ao-governo-municipal
DENÚNCIA
Após estas manifestações de Ritzel, alguns integrantes do MDB partiram para a ofensiva. Nesta quinta-feira (19), a reportagem do Portal Martin Behrend recebeu material enviando por integrantes da sigla em Novo Hamburgo. Eles repassaram uma informação que consideram denúncia. Ritzel atua como CC do deputado federal Darcísio Perondi (MDB) e, ao mesmo tempo, atende na sua clínica particular, no Centro de Novo Hamburgo, como dentista – sua profissão de ofício.
Segundo esses integrantes do MDB, esta situação se configura uma ilegalidade e uma imoralidade, pois Ritzel estaria recebendo recurso público da Câmara dos Deputados, mas não se dedicaria ao cargo no tempo exigido, além de não estar contribuindo com projetos para Novo Hamburgo e região.
VERIFICAÇÃO
Apurando informações do site da Câmara dos Deputados, Paulo Artur Ritzel aparece na folha de pagamento do deputado Darcísio Perondi, que tem sua base de atuação em Ijuí – norte do Estado. Perondi não se reelegeu em 2018, ficando como suplente. Contudo, ele assumiu na vaga de Osmar Terra (MDB), que é ministro da Cidadania do governo Jair Bolsonaro (PSL).
Ritzel foi empregado em fevereiro deste ano, no início deste mandato. Ele faz parte do grupo de 19 servidores públicos que trabalham para Perondi. Em agosto, seu salário foi de R$ 5.271,20. Neste ano, ele recebeu cerca de R$ 35 mil como secretário parlamentar.
ESCLARECIMENTOS
Nesta quinta-feira, a reportagem conversou com Paulo Ritzel. Num primeiro momento, ele enviou uma mensagem via WhatsApp:
“Sou funcionário do Congresso Nacional, estou lotado no gabinete do Darcisio Perondi. Trabalho para ele como qualquer funcionário. Tenho horários específicos para isso. Não há nenhuma ilegalidade nisto. É mais um motivo para eles me respeitarem e não me colocarem para fora do MDB pois faço parte do Diretório Estadual e do Diretório Nacional.”
Num segundo momento, a reportagem conversou por telefone com Ritzel. Ele confirmou que ainda tem horários de atendimentos no seu consultório, mas está em ritmo de aposentadoria. “Estou terminando tratamentos em alguns pacientes. Mas já me considero aposentado dessa atividade”, relatou. Em janeiro deste ano, Ritzel publicou em seu perfil no Facebook que tinha retornado os atendimentos após período de férias.
Sobre sua atuação como secretário parlamentar, Ritzel destacou que sempre foi muito ligado a Osmar Terra. Como ele assumiu como ministro e abriu vaga para suplente, Darcísio Perondi manteve na sua equipe lideranças regionais do Estado. “Participo de algumas reuniões do MDB em Porto Alegre, tenho algumas agendas, estou vinculado ao trabalho do partido”, confirma.
O ex-parlamentar cita o deputado estadual Sebastião Melo (MDB) como uma liderança com quem mantém proximidade. “Estamos tentando mudar os rumos do partido, mas não é tão fácil”, explica o ex-prefeito falando da sua relação com Melo, que foi vice-prefeito de Porto Alegre.
Questionado sobre alguma conquista para o Vale do Sinos em razão do seu trabalho como servidor público, Ritzel não citou algo efetivo que tenha sido viabilizado para a região. “Tenho uma forte ligação com vários municípios. Estamos fazendo contatos. É um trabalho de relacionamento”, justifica.
A reportagem também questionou os motivos de estar atuando num gabinete de deputado federal que defende a região de Ijuí, quando poderia estar trabalhando ao lado do deputado federal Giovani Feltes (MDB), que é do Vale do Sinos. “Essa é uma longa história”, resumiu, sem entrar em detalhes. O certo é que rusgas do passado envolvendo definições de candidaturas em outros pleitos afastaram Ritzel de Feltes.
ATAQUES
O ex-prefeito voltou a atacar o presidente do MDB de Novo Hamburgo e atual presidente da Comusa, Márcio Lüders, e o vereador e líder do governo na Câmara, Sergio Hanich (MDB). “A prefeita Fátima Daudt vai se arrepender de ter aberto espaço para eles na administração municipal. Eles são muito rápidos. A Comusa está empilhada de cargos do MDB. Curiosamente, eu que criei a Comusa e hoje estão colocando os amigos lá dentro”, falou.
A realidade é que a expulsão de Ritzel do MDB – os motivos da expulsão podem ser conferidos aqui https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/id/6745/titulo/mdb-de-novo-hamburgo-confirma-expulsao-do-ex-prefeito-paulo-ritzel – devem render novos capítulos. Os caciques do partido, tanto em Porto Alegre como em Brasília, deverão se posicionar, e podem vir novas acusações e denúncias.
A reportagem entrou em contato com o gabinete do deputado federal Darcísio Perondi para saber mais detalhes da rotina de trabalho do ex-prefeito, mas até o fechamento da reportagem não houve retorno.
A reportagem também buscou com fontes que trabalham no Congresso Nacional informações sobre a possibilidade de conciliar trabalhos. Segundo informação apurada, “não há problema de exercer atividade fora, desde que haja o cumprimento das 40 horas semanais, que estão previstas na função de secretário parlamentar; e desde que o Departamento Pessoal da Câmara e o parlamentar sejam comunicados da atividade paralela.”
HISTÓRICO
Em 2017, o Portal Martin Behrend também produziu reportagem sobre CCs e atuação extra no horário de trabalho. Na época, o alvo foi a Câmara de Vereadores de Novo Hamburgo
A matéria surgiu a partir de denúncia envolvendo um CC do gabinete do vereador Raul Cassel (MDB). Segundo verificado, o CC estaria atuando como advogado no horário de trabalho do Legislativo hamburguense. O nome do CC? Márcio Lüders. À época, houve questionamentos de como essa realidade poderia ser alterada na rotina da Câmara.
A matéria pode ser relembrada aqui: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/id/2688/titulo/horario-de-trabalho-dos-ccs-na-prefeitura-e-camara-de-vereadores-um-desafio-em-nome-da-transparencia
