A Câmara de Vereadores de Novo Hamburgo viveu, nesta quarta-feira (27), um dos debates mais emocionantes da sua história. A pauta: Novo Hamburgo perdeu a Oncologia SUS.
Centenas de pessoas lotaram diferentes espaços da sede do Poder Legislativo, e outras tantas ficaram do lado de fora. Foi preciso acionar a Guarda Municipal para conter ânimos de quem não conseguiu ingressar.
Discursos emocionados, pessoas chorando, sentimentos de indignação, falas aplaudidas de forma efusiva. O fato de os pacientes oncológicos terem de se deslocar para Taquara está gerando uma mobilização raramente vista na cidade.
Ontem, o debate foi na Câmara – conforme registrado pelo Portal Martin Behrend: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… Dos 14 vereadores, apenas um é médico: Gerson Peteffi (MDB).
A expectativa era que o experiente médico e legislador estivesse debruçado sobre os contratos da Prefeitura com o Hospital Regina e leis vigentes, fizesse questionamentos, tirasse dúvidas dos oradores. De um médico e legislador se imaginaria profundo conhecimento da realidade do tema. O médico e legislador poderia confrontar informações de contratos, apontar legislações, trazer relatos do que ocorre em outras cidades.
Do médico e legislador se esperava uma postura atuante, apresentando dados deste tratamento, mobilizando alternativas por ser da área da Medicina. Do médico e legislador, que deve acompanhar a aplicação dos recursos do município, se esperava um relato de como é o hospital e o serviço prestado em Taquara, local onde os pacientes hamburguenses começaram a ser atendidos.
Outros vereadores perguntaram e questionaram.
Mas, novamente, o médico e legislador manteve sua postura omissa em temas relevantes. São dezenas de casos semelhantes em 30 anos como vereador. Se pudesse, Peteffi teria ficado invisível na sessão. Ele até tentou, pois ficou tão imóvel que parecia não estar ali. O silêncio acompanhou Peteffi por cerca de três horas.
O médico e legislador manteve sua trajetória medíocre. Ele não falha – sempre foi assim. O Portal Martin Behrend registrou, nos últimos anos, alguns desses episódios. Não é surpresa, não é novidade. E é papel do Jornalismo deixar registrado também essas situações.
SABEDORIA
O leitor, então, pode perguntar: como ele conseguiu se eleger para oito mandatos? A realidade é objetiva: Peteffi e médico e atendeu em postos de saúde. O político do MDB sempre lidou com agrados e gentilezas com os pacientes, que retribuíram com votos. Muitos eleitores confundem o pai de família e o profissional com o político. Isso parece não mudar.
Peteffi se omitiu em muitos temas polêmicos e estratégicos nos últimos 30 anos. Quem acompanha minimamente a política sabe do histórico. Contudo, agrados garantiram um eleitorado cativo. O eleitor vota em razão da parceria do médico.
Ao longo de sua caminhada, Peteffi dividiu seu tempo como vereador e médico. Mas sempre ganhou salário cheio da Câmara – mesmo trabalhando pouco tempo como vereador. A lei permite. Ao invés de fiscalizar contratos e legislações, o vereador estava atuando como médico num consultório. E a fiscalização? Paciência. Mas está na lei: não precisa trabalhar cheio, mas o salário vem inteiro.
Peteffi não está errado – legalmente falando. Ele está dentro da lei. O eleitor votou nele. Tudo democraticamente. Tem vários eleitores que gostam de gentilezas de outros políticos. Isso existe em todo o Brasil.
Para as voluntárias de entidades, pacientes e familiares presentes aos debates na Câmara, ficou aquele gosto amargo da omissão. Mas não se assustem: sempre foi assim. E ele foi sendo reeleito.
HOMENAGEM
Minutos após mais uma atuação omissa na Câmara, Gerson Peteffi foi homenageado. Soa como ironia, mas é o mundo real. Eleito pela primeira vez em 1992, o parlamentar completará 30 anos de vereança em 2022, um recorde em Novo Hamburgo.
Essa marca inédita motivou Ito Luciano (PTB) a sugerir uma homenagem ao integrante mais longevo da Câmara. A celebração à trajetória do parlamentar foi realizada após os debates sobre a perda da Oncologia SUS.
Então, como homenageado, Peteffi falou: “Eu entrei na política há 30 anos. Quero dizer que cada um de vocês tem luz própria. Os debates são e serão acirrados, mas fora daqui é diferente. Alegria em estar nesta tribuna, fazendo um discurso todo recortado. Não esperem de mim bola nas costas, em caso de divergências, sempre procuro conversar e deixar as portas abertas”, afirmou.
Os seus colegas na Câmara não pouparam elogios a Peteffi: “Fala mansa, sempre muito educado, respeitador e de uma índole e nobreza fantástica”; “Se tu tens oito mandatos é porque tu trabalhou”; “É um exemplo para a Casa Legislativa”; “Com sua paciência e inteligência, sabe conduzir as coisas aqui dentro da Casa”; “Rei da Lomba”.
Enquanto Novo Hamburgo perde a Oncologia SUS para pacientes de baixa renda com câncer, o médico e vereador é homenageado por sua atuação.
