A cada nova sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura a legalidade das remunerações recebidas pela secretária municipal da Fazenda de Novo Hamburgo, Michele Vargas Antonello, o mau cheiro aumenta na Câmara de Vereadores. É um deboche atrás do outro com a comunidade hamburguense.
O odor desagradável vem das posturas de quatro parlamentares aliados do prefeito Gustavo Finck (PP), que agem com o manual da velha política. Os deputados e senadores de Brasília devem estar impressionados com as semelhanças das CPIs que ocorrem no Congresso Nacional.
Escalados para “investigar” a dupla remuneração da secretária municipal, Ricardo Ica Ritter (MDB), Giovani Caju Pereira (PP), Ito Luciano (Podemos) e Joelson de Araújo (Republicanos) atuam para enfraquecer as investigações. Já Luciana Martins (PT) e Felipe Kuhn Braun (PSDB) se esforçam para buscar mais informações.
Lembrando: a CPI está apurando se houve repasse indevido de recurso público, dinheiro da comunidade. Inclusive, movimentações no Judiciário sobre a Prefeitura já implicaram na suspensão do pagamento do duplo salário integral para a secretária.
MANOBRAS
As manobras começaram com três aliados de Finck, que votaram CONTRA a instalação da CPI, terem se escalado como presidente (Ica), relator (Ito) e secretário (Caju). Na prática, três parlamentares que não queriam a investigação da CPI é que estão na condução dos trabalhos da CPI. É um tapa na cara de quem acredita em mudanças na política. Desde o início, o quarteto faz de tudo para que a apuração seja enfraquecida.
Na sessão desta quinta-feira (10), um roteiro se repetiu: os aliados de Finck impedindo a convocação de mais testemunhas. A vereadora Luciana Martins defendeu a convocação da servidora Márcia Regina Grasel, da Unidade Central de Controle Interno da Prefeitura, responsável por manifestação emitida em fevereiro que apontou inconsistências relacionadas ao caso investigado. Também foram sugeridos os nomes do prefeito Gustavo Finck e do subprocurador Bruno Alves Gomes, que assinou diversos documentos vinculados ao tema.
Luciana argumentou que os depoimentos poderiam contribuir para o esclarecimento dos fatos apurados pela comissão. A proposta, porém, foi rejeitada com votos contrários de Giovani Caju, Ito Luciano e Joelson de Araújo. O presidente da CPI, Ricardo Ritter – Ica, só vota em caso de empate.
Aliás, os vereadores da base governista que se escalaram para investigar o caso quase não fazem perguntas às testemunhas, como se já soubessem o resultado: pizza sabor velha política.
SECRETÁRIA DA FAZENDA NÃO VIRÁ PRESENCIALMENTE
Mas os aliados de Finck não ficaram somente nestes impedimentos. Na sessão de hoje, eles também aprovaram que a secretária municipal da Fazenda, que está tendo o duplo salário investigada, tenha a tranquilidade de trazer suas informações sem precisar estar presentes. Michele Vargas Antonello deverá ser sabatinada de forma virtual. “É um desrespeito”, desabafou Luciana Martins. “Sem comentários”, resumiu Felipe Kuhn Braun sobre as posturas adotadas na CPI. Apenas uma testemunha até agora – servidora gestante e moradora de Santa Maria – teve sua participação de forma virtual, sendo que todos os outros vieram presencialmente até em sinal de respeito com os trabalhos realizados.
Os integrantes da comissão definiram a convocação de Michele Antonello para depor de forma virtual no próximo dia 17 de setembro, às 14 horas.
RELATÓRIO
A CPI tem prazo legal para conclusão dos trabalhos até 28 de outubro. O responsável pelo relatório é Ito Luciano. Como ele não tem expertise na elaboração desse tipo de documento, apuração do Portal Martin Behrend identificou que ele está recebendo assessoria direta de aliados do governo Finck.
Um dos mais próximos a defender o prefeito é o ex-procurador-geral do município e atual assessor do prefeito, advogado Vanir de Mattos. É ele que tem estado em praticamente todas as sessões da Câmara de Vereadores, numa espécie de cão de guarda de pautas de interesse do prefeito e do Executivo.
Em seu depoimento na CPI, o próprio Vanir trouxe aquilo que ele considera o desfecho do caso: um erro sem intenção. Ao que tudo indica, esse deve ser o teor do relatório final a ser apresentado por Ito Luciano.
DEPOIMENTOS
Ainda na sessão desta quinta-feira, foram ouvidas a secretária de Desenvolvimento Econômico e Inovação e secretária interina de Gestão, Governança e Desburocratização, Daiana Monzon, e a gerente de Relacionamento com o Poder Público da RGE Sul, Elisandra Maciel Terres de Castro.
Ao longo de seu depoimento, Daiana Monzon explicou que tomou conhecimento do caso envolvendo os pagamentos à secretária da Fazenda em dezembro de 2025, quando assumiu interinamente a Secretaria de Gestão, Governança e Desburocratização. Segundo ela, diante da identificação de uma situação considerada inédita no município, a pasta encaminhou consulta à Procuradoria-Geral do Município (PGM) para obter orientação jurídica sobre os procedimentos a serem adotados.
A secretária relatou que a análise jurídica foi solicitada em janeiro e que a manifestação da Procuradoria chegou em junho. Conforme Daiana, após o retorno da PGM, a administração promoveu os ajustes indicados em relação ao subsídio e ao processo de cedência da servidora.
Felipe Kuhn Braun ressaltou que o objetivo dos questionamentos era compreender em que momento a gestão municipal teve conhecimento da situação e quais encaminhamentos foram adotados para buscar uma solução jurídica para o caso. Segundo o vereador, a comissão busca esclarecer a cronologia dos fatos e as medidas tomadas pelos setores responsáveis dentro da administração municipal. Joelson de Araújo questionou se Monzon teria sido indicada para compor o governo, ao que ela respondeu que seu nome foi lembrado à época pela secretária Andrea Schneider, que já a conhecia pelo trabalho realizado na Universidade Feevale.
Questionada pela vereadora Professora Luciana Martins sobre apontamentos feitos pelo Controle Interno do Município, que identificaram possível pagamento em duplicidade e recomendaram providências administrativas, Daiana afirmou que a secretaria tinha conhecimento das recomendações, mas destacou que o caso já estava sob análise da PGM desde janeiro. Segundo ela, as medidas adotadas seguiram a orientação jurídica recebida posteriormente.
A secretária também respondeu questionamentos sobre o Projeto de Lei Complementar nº 5/2026, encaminhado pelo Executivo à Câmara. Ela informou que a proposta foi elaborada com participação da Diretoria de Recursos Humanos e análise da Procuradoria, cabendo à sua função o encaminhamento formal do projeto ao Legislativo.
Na segunda oitiva da manhã, a comissão ouviu a gerente de Relacionamento com o Poder Público da RGE Sul, Elisandra Maciel Terres de Castro. Convocada após ter seu nome citado em depoimentos anteriores, ela confirmou que conheceu Michele Antonello quando ambas residiam em Santa Maria e que forneceu o contato da atual secretária ao prefeito Gustavo Finck quando ele informou estar buscando nomes para compor o governo municipal.
Elisandra ressaltou que a indicação ocorreu em caráter pessoal e negou qualquer relação entre a sugestão do nome de Michele e as negociações envolvendo débitos do município com a concessionária de energia. Segundo ela, a decisão sobre eventual contratação coube exclusivamente à administração municipal.
Ao detalhar suas atribuições na empresa, a representante da RGE explicou que atua no relacionamento institucional com prefeituras, câmaras de vereadores e demais órgãos públicos dos municípios atendidos pela concessionária, prestando suporte em demandas relacionadas ao fornecimento de energia, atendimento em situações de crise e acompanhamento de questões administrativas.
Questionada sobre uma eventual relação entre a indicação e as dívidas da Fundação de Saúde com a RGE, Elisandra negou qualquer vínculo. A consultora também afirmou que as cobranças e negociações financeiras seguem procedimentos internos separados e transparentes na empresa.
Sobre as tratativas envolvendo débitos do município, ela relatou que ocorreram algumas reuniões ao longo de 2025, sempre com a participação de representantes jurídicos da RGE e da Prefeitura. Segundo ela, não houve reunião de negociação envolvendo simultaneamente prefeito, secretária e a consultora.
























