A Câmara de Vereadores de Novo Hamburgo mostrou, ontem, o quanto pode ser flexível e incoerente. Um projeto de lei com parecer de inconstitucionalidade acabou sendo aprovado pelos legisladores hamburguenses. Por unanimidade. A partir de agora, ficará instituído no Calendário Oficial de Eventos do Município o Dia Municipal da Marcha para Jesus, Contra as Drogas em Favor da Família.
O projeto de lei, aprovado em segundo turno, tem escancarado aproveitamento político: se é contra as drogas em favor da família, por que colocar Jesus no meio? E os ateus? E os judeus? E os muçulmanos? E os budistas? Outras religiões ficam excluídas de lutar contra as drogas em favor da família? Por que segregar? Por que dividir? Por que não universalizar e realizar a Marcha Contra as Drogas Em Favor da Família? A resposta: uso político. Agradar algumas correntes evangélicas e, no futuro, buscar votos.
O vice-prefeito hamburguense, Roque Serpa (PTB), com sua religião assumida, pode se mostrar realizado. Esta era uma de suas bandeiras e ele se mostrou bastante efetivo. Ontem, na defesa do projeto de lei, Serpa não escondeu sua manobra política:
“Este projeto atende um anseio da comunidade cristã”, salientou.
Bingo! A prioridade não é combater as drogas e proteger a família: a ideia é mobilizar as milícias evangélicas.
Também interessante foram alguns posicionamentos de vereadores. Naasom Luciano (PT), conhecido por podar projetos de lei de colegas em função de pareceres de inconstitucionalidade, atropelou e ignorou mais um parecer contrário – bem diferente quando vem projetos de colegas de outros partidos – e votou a favor. Na defesa do seu posicionamento, ele destacou que a Comissão de Constituição, Justiça e Redação compreendeu que o texto é constitucional. Segundo ele, o estado laico garante que todos os brasileiros têm direito a realizar o seu culto. “Entendo que a laicidade deve ser para ampliar, não para restringir.” Na semana passada, Naasom também ignorou outra avaliação de inconstitucionalidade na votação do
reajuste parcelado dos professores. É, como as coisas mudam.
Curiosa, ainda, a argumentação do vereador Gerson Peteffi (PSDB). Ele disse não entender como alguém poderia ir contra tal proposta. “Estamos trabalhando hoje com a possibilidade de trazer a Novo Hamburgo um fato do bem.” É vereador, a comunidade também não entende como, há alguns anos, o senhor alegou problemas de saúde para se ausentar de votação polêmica e, no mesmo dia, foi visto serelepe num show musical em Porto Alegre. Deve ser a intervenção divina – vale participar da Marcha para agradecer. Faz uma selfie pra comunidade conferir.
Vou registrar ainda a manifestação de Roger Corrêa (PCdoB), que lamentou o crescimento da intolerância no Congresso Nacional. Mas, vereador, intolerância é quando um evento segrega, aparta, divide. Quer mais intolerância do que um evento que afasta religiões? Por que não fazer um evento universal, sem personalizar o movimento? Cabe ainda observar um novo estilo comunista: o comunista cristão – quem diria? Roger disse que a Câmara deve incentivar todo o tipo de expressão religiosa, sem intolerância.
Vou apresentar a Marcha do Satanás e conto com teu voto, vereador!
Finalizando, cabe lembrar que a secretária de Direitos Humanos do Partido Socialismo e Liberdade (PSol), Luiza Eduarda dos Santos, usou a tribuna na semana passada para criticar a proposta. Segundo ela, a iniciativa viola a Constituição Federal, que expressa a liberdade de culto. Luiza apontou ainda que políticas relacionadas às drogas devem ser debatidas de forma racional.
Uma mensagem final para quem faz uso político e mascara situações de fraquezas do ser humano para se aproveitar: Deus está vendo.
