Um tratamento precoce alternativo para a Covid-19 poderá ser utilizado pelos pacientes da rede pública de saúde de Novo Hamburgo.
Um coquetel de drogas com hidroxicloroquina, azitromicina, vitamina D e eventualmente mais algum medicamento aparece como alternativa no município.
É uma medicação sem a devida comprovação científica em razão de sequelas e sintomas que poderão aparecer nas pessoas. Mesmo sem todos os testes e análises, a hidroxicloroquina vem sendo ministrada em diversos brasileiros e está sendo apontada por alguns médicos como fundamental para a recuperação rápida de pacientes. Também existem casos de óbitos confirmados, mesmo com a utilização dos remédios.
Embora essa medicação não estivesse proibida ou impedida de ser ministrada no município, até porque está na lista de medicamentos do SUS para outros tratamentos, a linha de prevenção adotada pelos médicos na saúde pública hamburguense prioriza o isolamento e remédios antitérmicos para a recuperação dos pacientes. Aliás, centenas de hamburguenses – mais de 500 moradores – já se recuperaram dessa forma.
PROCURADOR
A prefeita de Novo Hamburgo, Fátima Daudt (PSDB), explica que o município vem buscando atuar com base na legalidade, na medicina e na comprovação científica. Desta forma, uma reunião virtual com o o procurador do Ministério Público Federal (MPF), Alexandre Schneider, senadores gaúchos, prefeitos e outras autoridades, permitiu que a prefeita tomasse essa decisão. “Como prefeita, arquiteta e urbanista, não posso definir um tratamento médico. A conduta médica é soberana e também precisamos estar seguros da legalidade dos procedimentos”, explica Fátima.
De acordo com o procurador Schneider, muitos planos de saúde já utilizam o tratamento precoce, o que também deve ser oferecido ao paciente do Sistema Único de Saúde (SUS). “Estamos trabalhando para a formatação de um documento, que servirá de baliza para a atuação dos gestores e médicos do sistema público”, afirma o procurador. “O desejo do MPF é formalizar essa tratativa o quanto antes para que o cidadão possa ter a expectativa e o direito atendido.”
Em algumas reportagens, o município de Porto Feliz (SP), 53 mil habitantes, é destacado como uma referência de quem passou a combater a Covid-19 com tratamento precoce. Curiosamente, a cidade a apresenta o mesmo índice de Novo Hamburgo – 250 mil habitantes – em número de óbitos pela doença: 0,11 a cada mil habitantes. Ou seja, cidades com realidades e tratamentos diferentes, mas com a mesma proporção de vítimas. Os dados populacionais são do IBGE.
DISPONIBILIDADE
Diante dessa sinalização repassada pelo procurador da República, a Prefeitura de Novo Hamburgo vai solicitar ao Ministério da Saúde os remédios. Contudo, aí já existe um problema: a falta de medicamentos. “A Procuradoria também está se movimentando para assegurar que o governo federal garanta os medicamentos. Já existe a falta de alguns remédios para quem está na UTI. Dessa forma, não basta oferecer, é preciso ter a medicação”, comenta Fátima.
COMO FUNCIONARÁ
Um morador de Novo Hamburgo está com sintomas da Covid-19. Ele procura atendimento na rede pública. O morador terá a opção de manter o atual tratamento ou, então, verificar as condições sobre o novo tratamento precoce.
Para receber os medicamentos, o médico ficará responsável pela recuperação e eventuais efeitos colaterais, bem como o paciente deverá estar ciente de eventuais riscos. Fica a cargo do médico receitar o tratamento. Eles vão assinar um documento se responsabilizando: é o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
A partir disso, de posse da receita, o morador deverá receber a medicação, que ainda será fornecida pelo Ministério da Saúde.
MÉDICOS
A reportagem do Portal Martin Behrend consultou alguns médicos do município e também algumas lideranças do setor médico. Num levantamento informal, a maioria dos médicos não deverá oferecer o tratamento precoce exatamente por não estar cientificamente comprovado os riscos e efeitos colaterais. “Existem indicativos que podem aparecer síndromes severas ali na frente exatamente pelo paciente ter consumido um remédio de forma desnecessária”, explicou um médico consultado pela reportagem.
Dessa forma, vai ser preciso ter a concordância entre cada médico e cada paciente sobre a ingestão da medicação que será oferecida.
Na rede particular, cada plano de saúde e cada empresa tem seus protocolos e seus procedimentos. Existem pacientes que reagiram bem à hidroxicloroquina, enquanto em outros o quadro ficou inalterado ou até agravado pelo remédio.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA
No dia 30 de junho, a Sociedade Brasileira de Infectologia divulgou um comunicado oficial sobre os medicamentos. Confira um resumo abaixo:
– Até o momento, os principais estudos clínicos, que são os randomizados com
grupo controle, não demonstraram benefício do uso da cloroquina, nem da
hidroxicloroquina no tratamento de pacientes hospitalizados com COVID-19
grave. Efeitos colaterais foram relatados.
– Seu uso no tratamento da COVID-19 nos primeiros dias de doença, em casos de
COVID-19 leve e moderada, está sendo avaliado e se aguardam os resultados.
– A Organização Mundial da Saúde (OMS), a FDA (agência reguladora de
medicamentos dos EUA), a Sociedade Americana de Infectologia (IDSA) e o
Instituto Nacional de Saúde Norte-Americano (NIH) recentemente recomendaram
que não seja usado cloroquina, nem hidroxicloroquina para pacientes com
COVID-19, exceto em pesquisas clínicas, devido à falta de benefício comprovado
e potencial de toxicidade. A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) também
segue e recomenda tais decisões.
– A associação da hidroxicloroquina com o antibiótico azitromicina foi descrita em
estudos observacionais e não trouxe benefícios clínicos.
A nota completa pode ser conferida aqui: https://www.infectologia.org.br/admin/zcloud/125/2020/06/ddb8adbedf98c5bed371a929338e0df2acc49af1becb494f5a15dd38f901c760.pdf .
NÚMEROS ATUAIS DE NOVO HAMBURGO (08.07)
– 6108 hamburguenses testados
– 1162 casos confirmados
– 555 casos recuperados
– 566 casos em acompanhamento
– 41 óbitos
– 67 pacientes internados no Hospital Municipal
– 22 pacientes internados em UTI
