Confusão armada. O Ministério da Educação (MEC) enviou a
escolas do país uma carta do ministro da Educação, professor Ricardo Vélez
Rodríguez, com um pedido de cumprimento para que fosse lida mensagem no primeiro
dia letivo deste ano.
Contudo, o teor da carta tem gerado várias manifestações
contrárias. No final da tarde desta segunda-feira (25), o Sindicato dos Professores
de Novo Hamburgo (SindProfNH) divulgou manifestação a partir do recebimento da
carta repassada por diretores de escolas hamburguenses. Na sua primeira manifestação no seu perfil no Facebook, o
sindicato escreveu:
“Diretor(a) de escola, cuja identidade será mantida em
sigilo, encaminhou para o Sindicato o seguinte e-mail enviado supostamente pelo
MEC, com mensagem do ministro Ricardo Vélez, determinando a leitura desta
mensagem após execução do Hino Nacional. Se não for um e-mail falso, se trata
de um caso grave de coação, pois não dá opção para fazer ou não, além de exigir
que se documente em vídeo, remetendo para a Presidência da República e MEC.
Orientamos aos diretores a não fazê-lo e esperamos também um posicionamento da
SMED a respeito.”
A partir dessa publicação, o Portal Martin Behrend
questionou o sindicato sobre o fato de divulgarem um conteúdo sem ter certeza
de sua veracidade. Em seguida, tanto SindProfNH como Portal Martin Behrend
receberam confirmação, seja via Ministério da Educação ou através de outros
veículos de comunicação, de se tratar de carta assinada pelo ministro.
A carta diz o seguinte:
“Brasileiros! Vamos saudar o Brasil dos novos tempos e
celebrar a educação responsável e de qualidade a ser desenvolvida na nossa
escola pelos professores, em benefício de você, alunos, que constituem a nova
geração. Brasil acima de tudo. Deus acima de todos!”.
No e-mail em que a carta foi enviada, pede-se ainda que,
após a sua leitura, professores, alunos e demais funcionários da escola fiquem
perfilados diante da bandeira do Brasil, se houver na unidade de ensino, e que
seja executado o Hino Nacional.
Para os diretores que desejarem atender voluntariamente o
pedido do ministro, a mensagem também solicita que um representante da escola
filme (com aparelho celular) trechos curtos da leitura da carta e da execução
do hino. E que, em seguida, os vídeos sejam encaminhados por e-mail ao MEC (imprensa@mec.gov.br) e à Secretaria
Especial de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República (secom.gabinete@presidencia.gov.br).
Os vídeos devem ter até 25 MB e a mensagem de envio deve conter nome da escola,
número de alunos, de professores e de funcionários.
A atividade faz parte da política de incentivo à valorização
dos símbolos nacionais.”
Num trecho final, antes da assinatura do ministro, vem a frase: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos!”
A partir da confirmação de se tratar de um documento
oficial, o Portal Martin Behrend pediu um novo posicionamento do presidente
do SindProfNH, Gabriel Ferreira. Ele enviou as seguintes considerações:
“A gente é contrário, tem um posicionamento contrário ao que
foi feito, e vou explicitar os motivos:
– O e-mail enviado para as escolas, e que a gente teve
acesso através da direção de uma delas, antes de os veículos de comunicação
ficarem sabendo, o sindicato ficou sabendo através dos próprios professores que
receberam. O e-mail não deixa explícito, em nenhum momento, que essa seria uma
tarefa voluntária. Se coloca como algo imposto, determinado.
– A mensagem tenta impor aos professores e diretores que
façam ao que está explícito ali, de fazer a leitura da carta, preceder ela da
escuta do hino em frente à bandeira. Tanto se coloca como algo obrigatório que
pede que seja filmado e enviado para aqueles canais, que é do gabinete do
presidente e a imprensa do MEC, como forma de comprovação de que foi feito.
Então, isso também demonstra o caráter impositivo da carta, da mensagem do
Ministério da Educação.
– A mensagem final da carta não é nem o slogan do governo, é
o slogan do candidato Jair Bolsonaro durante o período eleitoral, o que também fere
a lei de responsabilidade. Temos notícias de que deputados já denunciaram o
ministro pro crime de responsabilidade em razão de se utilizar do slogan de
campanha, portanto, a mensagem também tem o objetivo de fazer propaganda
pró-Bolsonaro. Não se trata de uma propaganda do governo, mas pró-Bolsonaro,
reforçando o slogan de campanha do Bolsonaro.
– Além de tudo isso, o slogan acaba ferindo um dos princípios
da educação brasileira, que é a educação laica. A gente tem de respeitar a
laicidade do ensino, principalmente no ensino público. Isso é um princípio
defendido em todos os momentos. Quando se coloca na mensagem que é necessária a
leitura naqueles termos, fere a escola laica.”
Na postagem desta notícia no Facebook do SindProfNH, tem manifestações – a maioria
de professores – sobre o tema. Confira algumas:
– Espero, sinceramente,
que seja fake. Não vou cumprir isso. Coação e controle?!
– Se a ordem é essa,
deve ser descumprida sim!
– Absurdo, gravo sim. Gravo uma mensagem especial
para essa quadrilha que tá no governo. Bandidos!
– Coação, simples e
nojenta. Só não percebe isso que se faz de cego.
– Vamos rir porque
chorar não paga nosso salário. Era só o que nos faltava mesmo. Qual será a
próxima doutrina? No aguardo.
– A tua matéria será sobre a postura do
sindicato na tentativa de defender os direitos dos professores e denunciar uma
possível coação ou sobre a coação em si? Apesar de já saber que o que praticas
não se trata de jornalismo, mas mera opinião, pois não exerce a capacidade da
imparcialidade, que um jornalismo de qualidade exige, ainda assim estarei
ansiosa para ler e perceber o nível de expressão que se encontra atualmente.
– É tão absurdo que a sanidade de alguns acena
para uma fake.
