Prefeitura vira as costas para 240 crianças do bairro Canudos e Casa da Cultura fecha as portas

Entre pagar três anúncios de página de jornal por mês ou garantir atividade esportiva, social e cultural para 240 crianças do bairro Canudos, qual foi a opção da Prefeitura de Novo Hamburgo? Pagar publicidade. Sem patrocínio da iniciativa privada e com o Poder Executivo hamburguense virando as costas, a Casa da Cultura e Cidadania, localizada na Rua Bruno Werner Storck, no bairro Canudos, está encerrando as atividades. No último cálculo apresentado ao poder público, enxugando todos os custos, o projeto seria mantido com R$ 300 mil por ano – ou R$ 25 mil por mês. O prefeito Luis Lauermann (PT), através de interlocutores, disse não ter como viabilizar esse recurso. Balela – tem de sobra para publicidade e para dezenas de CCs improdutivos, apenas para ficar em dois itens.

“É tudo muito triste. Já choramos bastante. Parece que não está acontecendo”, conta Lia Andrade, diretora da unidade de Novo Hamburgo. Amanhã pela manhã, um caminhão irá encostar no pavilhão localizado em frente à Escola Municipal Tancredo Neves para carregar os materiais utilizados nas atividades e levar para São Paulo. Logo após, a direção do núcleo da casa devolve as chaves do ginásio para a Prefeitura. O projeto, que escolheu Canudos

em razão da vulnerabilidade social das crianças e da capacidade de transformação, não terá continuidade em 2016.

A Casa da Cultura e da Cidadania foi inaugurada em julho de 2011. Tudo era festa. Novo Hamburgo estava recebendo a primeira unidade do projeto no Rio Grande do Sul. O programa foi viabilizado através do patrocínio da AES Sul – grupo AES Brasil – em parceria com a Prefeitura. À época, o ex-prefeito e hoje deputado estadual Tarcísio Zimmermann (PT) fez discursos inflamados. “O melhor jeito de iniciar um processo de transformação é através do desenvolvimento social e de projetos como esse”, ressaltou, à época, Tarcísio. Mais de 600 pessoas – muitos funcionários da Prefeitura – foram prestigiar a cerimônia festiva.

Menos de cinco anos depois, o cenário é bem outro. A reportagem do Blog Martin Behrend esteve visitando a sede do projeto na tarde desta quinta-feira. Encontrou todos materiais praticamente empacotados e um desânimo geral. “Não foi por falta de esforço. Visitamos cerca de 200 empresas. Procuramos a Prefeitura várias vezes. Enxugamos o que foi possível para viabilizar o projeto, mas ninguém mostrou interesse”, ressalta Lia, contemplando um menino que se exercitava num dos poucos tapetes emborrachados ainda não empacotados, destacando que ele tinha chegado às aulas tendo no histórico o consumo de drogas. E lágrimas brotaram nos olhos sofridos da diretora. Em relação aos políticos, aqueles que em julho de 2011

festejavam a conquista, hoje, desapareceram. Uma ressalva:

o atual deputado estadual

Tarcísio Zimmermann foi um dos poucos que seguiu empenhado até o último momento a fim de manter o projeto, inclusive indicando visitas a serem realizadas nos últimos meses de 2015.

A Casa da

Cultura e Cidadania é coordenada nacionalmente pelo Instituto Agires. Segundo a presidente, Heloisa Melillo, a crise energética e econômica afetou o principal patrocinador. “Tivemos de entender a situação deles. A crise hídrica foi notícia mundial. A diferença de Novo Hamburgo para outras cidades em que temos o projeto

é que nestes municípios

o poder público abraçou a causa”, conta. O ano de 2015 encerrou com sete unidades da Casa da Cultura

e Cidadania espalhadas pelo Brasil, com cerca de 3.500 crianças atendidas. “O pessoal sabe que fui para Novo Hamburgo mais do que devia a fim de tentar manter as portas abertas. Em algumas vezes, agendamos no dia e hora solicitados pelo prefeito, mas ele desmarcava”, desabafa Heloisa. “A situação de busca de patrocinador vinha ocorrendo desde o final de 2014. A Prefeitura sabia da nossa dificuldade”, completa a presidente do Instituto Agires. “O sentimento é de abandono, de falta de preocupação afetiva com essas crianças”, finaliza

entristecida.

Amanhã será um dia muito pesado na Casa da Cultura e Cidadania. A data coincide com o último dia de trabalho do aviso prévio dos quatro integrantes ainda envolvidos com as atividades. O local que por mais de quatro anos recebeu dezenas de jovens diariamente estará mais quieto. O espaço que se envolveu com crianças e adolescentes de 6 a 17 anos, sendo beneficiados com atividades gratuitas e cursos de artes visuais, música, teatro, dança, artes digitais, artes circenses, área livre, projetos, ginástica artística e arte de contar histórias, ficará em silêncio.

O ambiente que formou jovens, por exemplo, para atuar no Natal Luz de Gramado, como é o caso das jovens Cintiara Ribeiro e Francielen da Silva, fechará, melancolicamente, suas cortinas nesta sexta-feira.

Entrei em contato com a assessoria de imprensa da Prefeitura de Novo Hamburgo. Enviei solicitação de entrevista e esclarecimentos para seis integrantes da equipe de comunicação. Gostaria de divulgar para a comunidade a avaliação do Executivo. A Prefeitura não se manifestou até o fechamento da reportagem.

A seguir, confira o relato das jovens Cintiara Ribeiro e Francielen da Silva sobre o encerramento das atividades na Casa da Cultura e Cidadania. A título de curiosidade, elas integram o elenco do Desfile de Natal do Natal Luz, de Gramado, no papel de gnomos.

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