A Câmara de Vereadores de Novo
Hamburgo realizou na noite desta quinta-feira, 17 de agosto, debate junto à população sobre a destinação de dois prédios históricos de Hamburgo
Velho, conhecidos por sediarem a Casa Lar da Menina e o Centro de Especialidades
Médicas (Semsa). A audiência pública foi proposta pela Frente Parlamentar em
Defesa do Patrimônio Histórico.
O presidente da Frente Parlamentar, Issur Koch (PP), pediu
foco aos debatedores, a fim de concluir a audiência com apontamentos concretos.
“Venho muito mais na posição de mediador daqueles que têm mais amparo da causa.
Nosso trabalho é ser a primeira porta de entrada entre população e poder
público. Esta Casa tem sido um grande espaço de debates. Nosso passado e nosso
futuro passa pela revitalização de Hamburgo Velho”, introduziu o vereador, que
lembrou que a AudiênciaPública surgiu a partir de propostas apresentadas pela
Associação de Moradores e Empreendedores (AME) de Hamburgo Velho, que procurou
a Frente Parlamentar e a Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e
Tecnologia (Coedu).
As propostas
O tesoureiro da AME Hamburgo Velho, Márcio Moraes, apresentou o projeto
elaborado pela entidade para o prédio do Centro de Especialidades Médicas e
relatou boa receptividade da população do bairro, embora ainda queira ouvir
mais opiniões para a melhor destinação. “Fomos delegados pela prefeita Fátima
Daudt a pensarmos junto à comunidade na instalação de uma incubadora de cervejarias
artesanais no prédio do Semsa, a partir de escopo apresentado pela prefeita
Fátima Daudt. Esse é um imóvel público e precisa atender aos anseios da
população. Incubadoras existem pelo país todo, mas pensamos em maneira de
ampliar. Por isso, imaginamos Novo Hamburgo na Rota da Cerveja Artesanal. Nosso
objetivo diante dessa problemática partiu da premissa de pensar Novo Hamburgo
como a Capital Nacional da Cerveja Artesanal. Com esse título, poderíamos
explorar uma série de possibilidades, aproveitando-se da nossa cultura
germânica e fomentando o desenvolvimento de cervejeiros do nosso município”,
explanou.
Moraes também destacou o desenvolvimento econômico proposto pela
iniciativa e a aposta em um negócio sem aporte público. “Não basta oferecer
espaço, é necessário estimular noções de empreendedorismo, pensando em toda a
cadeia de negócio, aproximando, por exemplo, fornecedores e cervejeiros. Nossa
proposta é que esse negócio a ser desenvolvimento tenha auto-custeio, sem
necessidade de aportes. O modelo adequado para a ocupação desse imóvel seria um
edital de coparticipação, com o espaço sendo gerido por entidade sem fins
lucrativos”, emendou.
O vice-presidente da AME, Deivid Schu, apresentou o projeto elaborado
pela entidade para a estrutura da Casa Lar da Menina. “Entendemos o imóvel como
um prédio importante que já fez muito pela cidade e que ainda tem muito a dar.
Não temos a pretensão de ser a única ou a melhor ideia. Queremos levar à
comunidade e receber suas contribuições. Só o prédio principal já tem mais de
600 metros quadrados. Junto a essa oportunidade, há grande responsabilidade.
Para não exonerarmos o poder público, nossa proposta é uma parceria
público-privada para uso múltiplo. Sugerimos a criação de uma incubadora a
empreendimentos da indústria criativa. Qualquer empresa precisa de uma base
sólida de cultura de inovação. É a partir desse eixo que pretendemos criar uma
cultura de fomento ao empreendedorismo. Por isso uma incubadora, para pequenas
empresas com possibilidade de crescimento”, explicou.
“A ideia não é entregar o prédio para uma empresa privada, mas que ela
ocupe e subsidie o espaço para uso público, oferecendo treinamentos, cursos de
capacitação, oportunidade de estágios e contato com tecnologias de vanguarda de
difícil acesso. O prédio principal receberia espaço para a Secretaria de
Cultura (Secult), coworking, uma ilha de tecnologia, e uma parte de palco,
escola de música e arte. Já no anexo, haveria espaço para a indústria criativa
e tecnológica. O Município poderá exercer suas atividades-fim para cultura e
educação em um prédio gerido por uma empresa privada. O poder público pode ser
parceiro dentro dessa atividade. Acredito que com isso consigamos trazer tanto
o resgate histórico do local quanto sua melhor ocupação, avançando em termos de
vanguarda. Queremos criar um ambiente inovador que possa gerar emprego e
qualidade de vida”, completou Schu.
Abertura de debate
A presidente do Núcleo Vale do Sinos do Instituto dos Arquitetos do
Brasil, Karen Kussler, exaltou o momento de abertura de propostas.
“Acho importante não tentarmos mudanças bruscas na estrutura do bairro.
Precisamos promover a diversificação do público, mas precisamos focar um pouco
mais na vocação artística do local. Poderíamos ter um espaço complementar de arte
contemporânea para manter o que já há no bairro e propiciar espaço para
artistas locais. Sempre tentamos pautar as discussões pela diversificação de
oferta nesses espaços, que são públicos”, recomendou.
O secretário municipal de Cultura, Ralfe Cardoso, relatou avanços conquistados
nesses primeiros meses de Administração e destacou a necessidade de organizar
ações para o reconhecimento das capacidades culturais existentes em Novo
Hamburgo. “Os projetos mostram a potência de qualquer diálogo sobre a ocupação
desses prédios. Precisamos construir alguns pilares fundamentais. Qualquer ação
que tomemos nos posiciona frente ao Estado, ao País e pode causar reflexos,
tamanha a potência da discussão. De Hamburgo Velho podemos fazer uma plataforma
para que a cidade se encontre de maneira orgânica no bairro. Hamburgo Velho
precisa de um cuidado na preservação de seus prédios históricos, o que vinha
sendo negligenciado. Ninguém fala em não preservar Hamburgo Velho. Cada um tem
seu ponto de vista. Precisamos convergir nesse aspecto. E é uma obrigação da
Administração encontrar competência para fazer a gestão de seus espaços e de
suas políticas”, ressaltou.
O vereador Raul Cassel (PMDB) relembrou momentos pregressos de discussão
de melhorias para o bairro. “Fico extasiado com este momento. Em 2005, quando
fui incumbido de um primeiro espaço de debate, vi individualismo, interesses
particulares e falta de pensamento coletivo. Fico feliz com essa atitude
proativa da AME, que oferece uma alternativa viável e dentro dos preceitos das
políticas público-privadas. O tombamento tem que ser uma oportunidade,
oferecendo vantagens e chances de desenvolvimento de projetos. Precisamos unir
nesses espaços a gastronomia, as artes e, ao mesmo tempo, termos uma
oportunidade de aprendizado. Tivemos um atraso para colocarmos esses projetos
em funcionamento”, recuperou o parlamentar.
Integrante da Frente Parlamentar e da Coedu, Felipe Kuhn Braun (PDT)
incentivou outras entidades a procurar a Câmara e suas comissões. “A AME já
esteve conosco aqui nesta Casa para debatermos esse tema. Esta é a casa dos
debates e, quando falamos da questão das cervejarias, vemos tantas cidades que
lucram com o título cervejeiro, como Feliz e Blumenau. E está em voga o tema
das cervejarias artesanais. Por que Novo Hamburgo não pode diversificar sua
produção industrial? Esse fomento a microcervejarias pode mobilizar. Novo
Hamburgo tem potencial para suas diversas vocações, embora tenha se preparado
muito pouco para seu turismo e seu patrimônio, o que atrapalha sua exploração”,
destacou.
Contrapropostas
A audiência contou com a participação de diversas pessoas ligadas à cena
cultural hamburguense. Muitos apresentaram seus questionamentos aos projetos
desenvolvidos pela AME. O ativista cultural Alexandre Reis pediu mais
realidade. “Sabemos que o bairro tem cada vez mais afastado a comunidade que
não é investidora. Acompanhamos quase que uma proposta de compra do bairro.
Precisamos pensar na contrapartida para sua comunidade, e não para quem vai ao
bairro para consumir. Vejo mais um engessamento cultural. Precisamos englobar a
comunidade nesse processo, e não nos atermos a tendências hipsters. Hamburgo
Velho não é um parque de diversões e exige muito respeito”, cobrou.
A socióloga Rosana Kirsch pediu mais atenção ao cooperativismo. “Sabemos
que o estímulo ao trabalho e emprego é muito importante, mas precisamos ver os
locais e o tipo de trabalho que está sendo proposto. Precisamos pensar também
no trabalho cooperativo. Em 2010, esta Casa aprovou uma lei para a Economia
Solidária. Precisamos lembrar o compromisso da cidade em abordar essas
iniciativas”, solicitou. Morador de Hamburgo Velho, Emerson Silva mostrou
preocupação com a subutilização dos prédios. “A Fundação Scheffel e a Casa
Schmitt-Presser são subutilizadas. Não sei se esse espaço proposto seria
realmente utilizado, assim como não vi nenhuma reserva para a Secretaria de
Educação”, pontuou.
O ex-secretário de Cultura Carlos Mosmann discordou da proposta da
incubadora de cervejarias artesanais e da pretensão de tornar Novo Hamburgo a
Capital Nacional da Cerveja Artesanal. “Eu, hamburguense, não tenho esse
desejo. E gostaria que isso fosse lembrado. Preferia que fôssemos lembrados
como capital nacional da inclusão ou da diversidade. O poder público pode
trabalhar, sim, essa questão. Entendam que toda essa economia que movimenta o
mundo hoje, que é a tecnologia, não nasceu em Detroit e Manhattan, nasceu na
Califórnia, onde se produzia cultura. Entendamos que precisamos investir e dar
sustentabilidade à cultura”, argumentou.
Morador do bairro Boa Saúde, Gustavo Oliveira questionou os interesses
políticos da AME. “Não vemos em que momento o mercado está influenciando as
propostas. Estamos disponibilizando dois prédios históricos para a iniciativa
privada sem oferecer serviços essenciais à população. Não sei como a Associação
pretende incluir a comunidade em suas atividades. Está claro que a gestão
pública não funciona, uma vez que se abre mão da gestão desses espaços para a
iniciativa privada ou da sociedade civil organizada”, apontou.
O ambientalista alemão Markus Wilimzig, morador de Novo Hamburgo, pediu
a amostragem da planta baixa dos dois prédios para esclarecer a todos o espaço
disponível. “Acho que Novo Hamburgo não tem nenhuma história na cerveja
artesanal. Talvez daqui a dois, cinco anos, ninguém mais quererá cervejas
artesanais. Precisamos pensar em projetos mais duradouros”, estipulou.
O presidente da AME, Volnei Ferrari, agradeceu o espaço para expor os
pensamentos e anseios da entidade e de parte da população. “Tivemos vários
debates e entraves nos últimos anos quanto a tombamentos, mas não podemos
deixar que esse bairro envelheça e se torne em ruínas. Gostaríamos de ver nosso
bairro produtivo. Queremos que os moradores que optaram morar ali estejam
residindo em um bairro com todas as expectativas que devemos ter. Torço para
que cada morador possa viver com segurança e com o lado cultural e do
patrimônio histórico de Hamburgo Velho preservado”, revelou.
O artista Paulo Stürmer questionou sobre o acesso a esses possíveis
projetos. “Não tenho capacidade para olhar a cidade toda, mas, por ser da
classe
artística, vejo que não há discussão sobre o empoderamento dos artistas.
Precisamos olhar para a pessoa sem pensar no que ela precisa produzir e
consumir. Eu vejo uma preocupação com a inclusão de um teatro na Casa Lar da
Menina, mas como esse acesso se dará?”, indagou.
A advogada Gabriela Piardi ressaltou a importância do contraste de
opiniões para o entendimento dos reais anseios da população. “Ficou bem claro o
quanto precisamos abrir espaço para as participações comunitárias, para que não
haja esse fosso entre o discurso do poder público e a realidade vivida pela
cidade. Precisamos pensar no desenvolvimento local e sustentável e expandi-lo
para outros bairros. Precisamos buscar outras alternativas para desenvolvimento
humano e não só pensarmos em desenvolvimento econômico”, completou.
Integrante da AME, Maria Ignês Heckler defendeu os projetos
apresentados. “Nossa intenção, quando pensamos na incubadora de cervejarias,
tinha um viés a partir da experiência da economia solidária, utilizando tudo o
que a cidade pode oferecer. Todo o comércio está sendo convidado a participar.
Queremos ajudar a todos a se desenvolver. Apenas na rua General Osório, temos
mais de 80 estabelecimentos em pleno funcionamento”, contou.
Neri Chilanti, vice-presidente da Associação dos Arquitetos e
Engenheiros Civis de Novo Hamburgo (Asaec), destacou as diferentes vocações de
uma cidade. “Queremos lembrar aos participantes que as cidades têm uma vocação
natural. A nossa é a do calçado. Mas, dentro das cidades, os bairros têm suas
vocações. Nós, enquanto Asaec, nos preocupamos com a praticidade e com a melhor
utilização dos prédios restaurados”, concluiu. Com informações da Assessoria de Imprensa da Câmara de Vereadores de Novo Hamburgo.
























