O clima é de desconforto e instabilidade na Escola Municipal Harry Roth, no bairro Santo Afonso. Suspeitas de perseguição a professores, denúncias infundadas e ambiente de intranquilidade cercam o dia a dia do educandário. Uma das principais personagens deste enredo é a professora Carla Algayer Soares, 45 anos. Eleita no ano passado com mais de 70% dos votos da comunidade escolar, ela ainda não tomou posse.
Além disso, professoras que apoiaram e defenderam Carla foram convocadas repentinamente a atuar em outras escolas, tendo suas rotinas afetadas. Por trás desse quadro de caça às bruxas e prejuízo real aos alunos estariam interesses políticos da Secretaria Municipal de Educação e do secretário municipal de Educação, Beto Carabajal, que é bastante criticado pela categoria por seu autoritarismo, falta de diálogo e abuso de poder.
Fui procurado por dois pais de alunos da Harry Roth. Eles preferiram não se identificar, mas relataram o que estava acontecendo. “Estamos enfrentando um problema na escola do meu filho. Elegemos uma diretora e ela foi impedida de assumir seu cargo. Os professores que foram intimados e ouvidos, agora, estão sendo ameaçados e alguns foram transferidos injustamente”, escreveu um dos pais. Mais adiante, o relato destaca que uma professora foi intimada num dia pela Secretaria da Educação e, no dia seguinte, havia outra em seu lugar. “Essa troca aconteceu sem nenhuma comunicação entre escola, pais e alunos, desconsiderando todo vínculo já criado entre professora e alunos. Qual seria a justificativa para tais atitudes? Seria a intenção de formar um novo grupo de professores que a diretora interina tenha mais “afinidades”? Como ficam os alunos no meio destes processos de trocas onde o ano escolar já está em andamento?”
Conversei com a diretora eleita, mas ainda não empossada, Carla Algayer Soares. Ela explica que, mesmo tendo recebido mais de 70% dos votos, não assumiu por estar respondendo a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) a partir de uma denúncia que não seguiu seu trâmite normal. “Já havia respondido a um PAD indevido e provei que a acusação era equivocada. Agora, tive de responder a estas denúncias e mostrei que não tinham fundamento. Estou esperando ser empossada”, conta.
Carla tem mestrado pela UFRGS e recebe
admiração e carinho de boa parte da comunidade escolar da Harry Roth. Ela avalia, contudo, que duas situações podem causar mal-estar em algumas pessoas da Secretaria Municipal da Educação: ela tem relação estável com uma mulher e não é mais filiada ao PT – saiu após se decepcionar com atitudes de lideranças petistas. “Esta questão da homofobia sei que incomoda algumas pessoas”, analisa.
Em relação ao afastamento de professores, Carla confirma que as primeiras colegas que a defenderam foram realocadas. Ela conta que uma das professoras chamada para outra escola estava envolvida no projeto de inclusão de deficientes e que estas crianças que precisam de atenção diferenciada ficaram sem atendimento. “O clima é de medo na escola. A preocupação maior
é com as crianças e o aprendizado delas”, lamenta. Carla entrou com ação por danos morais contra a Prefeitura de Novo Hamburgo e as pessoas envolvidas nas denúncias infundadas.
Conversei com a presidente do Sindicato dos Professores Municipais de Novo Hamburgo, Andreza Formento. Ela relata que este tipo de situação, infelizmente, não é um caso isolado, já tendo sido registrado casos de perseguições por motivação política em outros educandários. “Atualmente, a Secretaria da Educação tem uma média mensal de 25 PADs. Isso significa uma média superior a um processo por dia útil. O que será que de tão grave está acontecendo para termos tantos processos e investigações?”, questiona. Ela acrescenta que, como houve renovação de diretores em aproximadamente 80% das 81 escolas de ensino infantil e fundamental do município, a tendência é aumentar o clima de instabilidade.
PREFEITURA DE NOVO HAMBURGO
Encaminhei pedidos de esclarecimentos por duas vezes a Prefeitura de Novo Hamburgo. Encaminhei a primeira solicitação em 20 de março de 2015, às 08h29. Enviei para seis
integrantes da equipe de Comunicação da Prefeitura.
Até o fechamento desta reportagem, nenhum esclarecimento foi oferecido à comunidade de Novo Hamburgo.
