A remoção das famílias no entorno do dique do Rio dos Sinos, no bairro Santo Afonso, movimentou a Câmara de Vereadores de Novo Hamburgo durante a semana.
São dezenas de hamburguenses, principalmente da Rua Eldorado, que vivem dias e noites de apreensão. A retirada das famílias tem relação com a necessidade da medida para a execução das obras de recuperação da estrutura de contenção, o dique.
Na sessão de segunda-feira (14) do Legislativo, uma das moradoras atingidas pelas obras no local, Júlia dos Santos, fez uso da tribuna. Ela externou a busca de todos os vizinhos pela garantia de novas residências definitivas, rechaçando a inclusão em programas de aluguel social. “Não precisamos de migalhas. Todos nós trabalhamos e pagamos água, luz e taxa de coleta de lixo. Merecemos respeito”, afirmou Júlia, que relatou a falta de amparo da assistência social.
“Nunca nos deram apoio. As crianças acordam de madrugada e perguntam: ‘a máquina vai vir e derrubar a nossa casa?’ Sinto essa dor de cada um. Estamos atirados e em depressão. As pessoas não conseguem dormir. Ninguém aguenta mais. Está na hora de nos olharem com carinho. Tiraram a nossa paz, a nossa saúde, tudo o que tínhamos. Queremos a nossa casa. Não somos culpados pelo que aconteceu com o dique. Estamos pedindo socorro”, continuou. O falecimento de um morador comoveu a comunidade, pois teria relação com a depressão em razão das obras do dique.
A moradora disse que não vão deixar as casas para o aluguel social. “Nosso psicológico não aguenta. Nossas raízes estão ali. Eu criei meu filho ali. Ali não é uma invasão, é uma ocupação.Nós somos humilhados em rede social dizendo que nós somos uns invasores, que roubamos, e que os riquinhos pagam tudo pra nós. Isso não é verdade”, acrescentou. “Somos trabalhadores, pagamos nossas contas”, falou Júlia (a foto abaixo é de Maíra Kiefer).
Líder do governo na Câmara, Giovani Caju (PP) disse ter estabelecido linha direta de diálogo com o prefeito Gustavo Finck sobre a temática do reassentamento. “Ele foi muito enfático de que não quer mais o aluguel social em Novo Hamburgo. Depois de todo o trauma que essas famílias já passaram, fazer o deslocamento para uma casa temporária antes de uma definitiva é muito complicado. O pessoal já está fragilizado”, ponderou.
ALTERNATIVA
Na mesma sessão da Câmara, os vereadores aprovaram uma Moção de Apelo. A sugestão dos parlamentares é a utilização de um terreno em frente à Estação Santo Afonso do Trensurb para a construção das novas unidades habitacionais. O documento, elaborado por Cristiano Coller (PP), foi enviado para análise do Executivo.
Como a área na Rua Celestino Killing é de propriedade da Trensurb, a Moção de Apelo pede à Prefeitura que inicie articulações junto ao governo federal. “Atualmente, 58 famílias residem em áreas de risco e sabemos que precisam ser realocadas, para garantir sua segurança diante das vulnerabilidades agravadas pelos eventos climáticos extremos que atingiram nossa cidade. As famílias compreendem a necessidade do deslocamento e têm demonstrado disposição em colaborar com o processo de transição. No entanto, é fundamental que isso ocorra de forma respeitosa, sensível e, acima de tudo, humana”, destaca Coller.
Ao longo do texto, o vereador elenca os benefícios do aproveitamento do terreno para os cidadãos afetados, não apenas por questões de mobilidade urbana, mas também pela permanência no bairro onde moram há décadas. “O terreno da Trensurb, por sua localização estratégica e viabilidade urbana, apresenta-se como uma alternativa concreta, justa e eficaz para acolher essas famílias com dignidade, respeito e visão social. Esse projeto habitacional representa muito mais do que a construção de casas: trata-se da reconstrução de vidas”, prossegue o documento. “Ouvimos rumores de que virá um projeto de lei para a desapropriação de uma área no bairro Canudos, onde essas famílias seriam alocadas. Acho que, quando chegar aqui, precisamos conversar e estudar bem. Não é justo que essas pessoas, que viveram sua vida toda no Santo Afonso, serem mandadas para outro bairro”, comentou Coller.
