Eram 21h15 da noite deste sábado (22 de abril), quando o
puxador da escola de samba Império da São Jorge mandou bem no microfone: “Não
deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar…” Com o termômetro da
Imobiliária Snel na Avenida Pedro Adams Filho marcando 19 graus, estava começando
o desfile de quatro escolas de samba de Novo Hamburgo. Foi um carnaval fora de
época, longe da Pista de Eventos, no outono, levando cerca de 2,5 mil pessoas
até o Centro de Novo Hamburgo. E com os mesmos questionamentos de outros
desfiles. É fato: não deixem o samba morrer – até porque carnaval é muito bom!
Mas para receber recurso público precisa mudar muito. E melhorar bastante.
O carnaval em pleno outono, o que fez alguns passistas
chegarem encasacados, foi a solução do governo da prefeita Fátima Daudt (PSDB)
para prestigiar as escolas de samba. Cada agremiação recebeu R$ 25 mil (R$ 100
mil no total). No ano passado, cada escola havia recebido R$ 42 mil (foram mais
de 250 mil). Como o governo anterior do ex-prefeito Luis Lauermann (PT) não
deixou a situação encaminhada – aliás, uma entre tantas bombas deixadas para
trás pelo petista –, os tucanos criaram esse remendão para dar algum apoio aos
carnavalescos.
A escola de samba Protegidos da Princesa Isabel, do bairro
Rondônia, não concordou com o formato do evento e com os valores, preferindo se
resguardar para o Carnaval de 2018. Passaram pela avenida Império da São
Jorge, Aí Vem os Marujos, Cruzeiro do Sul e Portela do Sul. Não haverá escola campeã já que não houve apuração nem contratação de julgadores.
Para economizar no aluguel e montagem das arquibancadas, a
Prefeitura optou pela Pedro Adams Filho, entre as Bancas e o Receptivo Turístico. Teve transtornos para o comércio durante
o sábado com o bloqueio de ruas centrais e, num dos cenários que mais geraram
reclamações, banheiros químicos perfilados “decorando” o Calçadão da Rua
General Netto – o Calçadão da Escola Oswaldo Cruz. Foi uma cena bem desagradável
que irritou alguns comerciantes – embora alguns comerciantes não podem reclamar,
pois são os primeiros a estacionar seus carros sem cartão da Faixa Nobre e
ocupar vagas irregulares afastando seus clientes.
Embora todo amor, esforço e paixão dos integrantes das
escolas de samba, o desfile foi de baixa qualidade técnica. Sem alegorias, quase nenhuma coreografia, alas tendo duas ou três pessoas, pouco mais de 100 integrantes por
escola, foi quase uma passagem de blocos. A temperatura, que no avançar da
programação chegou em 18 graus, em nada lembrava o calor, a energia e o suor
que remetem ao carnaval.
O fato é que o governo do PSDB recebeu uma herança podre do
PT. Ainda mais se tratando da Secretaria de Cultura (Secult). Aliás, o
ex-secretário Carlos Mosmann esteve prestigiando o evento e parecia estar conformado
com o legado que deixou. O petista sempre foi um entusiasta do carnaval, mas ao
invés de incentivar outros mecanismos para captação de recursos por parte das
escolas e buscar patrocinadores na iniciativa privada, defendeu uma zona de conforto
onde o município deveria bancar tudo. Algo como “sigam assim, a Prefeitura vai
pagar”.
A herança do PT em Novo Hamburgo foi criar armadilhas para
as escolas de samba, que até hoje perguntam ao secretário: onde está o recurso
do projeto Alô Carnaval? Onde o PT meteu esse projeto de incentivo ao mundo
carnavalesco? Sem respostas do governo democrático e popular, rejeitado por
quase 90% dos hamburguenses. Aliás, a questão do carnaval não é uma guerra de classes como alguns ideólatras querem criar no município. Os maiores protestos não vêm do Jardim Mauá, Boa Vista ou Centro – mas de moradores de Canudos, Rondônia, São José, Kephas, Lomba Grande, Santo Afonso.
As escolas de samba são patrimônio cultural de Novo Hamburgo. Mas nem
por isso precisam obrigatoriamente receber recurso público – ainda mais quando há escassez em
outras áreas e quanto o retorno da verba em termos de qualidade é bem duvidoso. O trabalho realizado pela comunidade carnavalesca é digno e de dedicação.
Mas passou a hora da profissionalização. O “estado patrocinador” tem muitas demandas
para o ano inteiro. E aí está um dos pontos principais: o carnaval dura uma
noite, no máximo duas com a muamba. E recebe um valor significativo para esse
período. Já existem outras áreas que atuam o ano inteiro e também precisam de
valores do Poder Público em função do seu valor histórico e cultural. Cabe lembrar, por exemplo, que a Sociedade Ginástica Novo Hamburgo faz um carnaval para 5.000 pessoas e não recebe patrocínio da Prefeitura. Ou seja, promove o carnaval, divulga a cultura carnavalesca e busca recursos na iniciativa privada.
Uma das sugestões é que a Prefeitura patrocine a estrutura
do evento: luzes, som, carro de som, arquibancadas, divulgação, pista de
eventos, banheiros químicos, segurança. Caberá às escolas durante um ano
inteiro captar recursos na iniciativa privada, assim como fazem escolinhas de
futebol, escolas de música, corais, entidades, associações quando desejam realizar
atividades especiais. É um dos caminhos. A propósito, agora em maio já haverá reunião para começar a preparar o Carnaval de 2018. Isso se chama programação. Algo que o governo do PT não tinha, e que o PSDB já mostra ser diferente. Isso também é valorizar o carnaval.
“Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar…” Que
o Carnaval de Rua de Novo Hamburgo siga ocorrendo, pois é emocionante ver uma
bateria em ação! Mas que se ajuste a novos tempos de maior valorização do
recurso público.
CONFIRA A SEGUIR O AQUECE DA ESCOLA AÍ VEM OS MARUJOS E FOTOS DO DESFILE

























