Em outubro deste ano estava tudo novinho, pintado, grama
cortada, arrumado e com cheirinho de casa nova. O Residencial Aeroclube, junto
à Avenida dos Municípios, em Novo Hamburgo, estava apto a receber os novos
moradores de 300 apartamentos. Dezenas de famílias de hamburguenses foram
beneficiadas com unidades habitacionais pelo Projeto de Regularização Fundiária
da Vila Kipling. Tudo era festa até outubro, com o prefeito Luis Lauermann (PT)
participando da entrega das chaves e destacando: “Estamos muito orgulhosos por
conseguir proporcionar uma casa própria a essas famílias. Muitos saíram de
condições críticas de moradia e agora terão toda a infraestrutura.”
Menos de dois meses após a entrega das chaves, o conto de
fadas está dando lugar a um pesadelo da vida real. Familiares de moradores
entraram em contato com o Portal Martin Behrend inconformados com o que vem
ocorrendo. O Playground está destruído; placas de numeração dos prédios foram
arrancadas; interruptores e fios elétricos nos corredores estão sendo roubados
(deixando os locais às escuras); água jorra de forma descontrolada; banheiro de
área comum foi entupido com britas; o entra-e-sai de estranhos é permanente,
portas em ambientes de uso comum estão depredadas; à noite, gritos de moradores
embriagados ecoam pelos prédios; lixo acumulado e depositado de forma equivocada; a inadimplência inicial do condomínio já é de
cerca de 50%; e, uma das questões mais graves, moradores estão vendendo seus
imóveis – o que não poderia ocorrer. “Minha família esperou tanto pela casa
própria, mas o que ocorre lá dentro é uma vergonha”, destaca uma hamburguense
que prefere não se identificar e que produziu um vídeo sobre a destruição
interna. Todo esse patrimônio sendo detonado envolvendo recursos federais
subsidiados, ou seja, valores que pertencem a todos os brasileiros.
A maior queixa das pessoas que procuraram o Portal diz
respeito à omissão da Prefeitura de Novo Hamburgo em repassar instrução aos
moradores. “A maioria nunca viveu num condomínio. Não entendo os direitos e
deveres. As crianças ficam detonando tudo e ninguém faz nada. É tudo muito
triste”, conta um morador que também não quer revelar sua identidade com medo
de ataques dos vizinhos. “Outro dia, o prefeito veio aqui pra uma celebração de
final de ano e ninguém mostrou o estado do condomínio. Pessoal de preocupou com
a festa e agora está tudo destruído”, desabafa.
O empreendimento do Residencial Aeroclube teve investimento
de R$ 19,2 milhões, com 300 apartamentos disponíveis para os antigos residentes
da área e para financiamento via o programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal.
Ele faz parte da Regularização Fundiária da Vila Kipling, projeto da Prefeitura
de Novo Hamburgo, realizado por meio da Secretaria de Habitação (Sehab).
A reportagem do Portal Martin Behrend procurou a Prefeitura
de Novo Hamburgo e a empresa que administra o condomínio. Foram feitos contatos
por telefone e por e-mail. Não houve retorno às solicitações da reportagem para
esclarecimentos. Também não se obteve contato com o síndico do prédio – outra
reclamação dos moradores, já que é uma pessoa sem experiência para 300
apartamentos.
Confira o vídeo com um dos registros da destruição do condomínio.
