Mataram o atropelado. E ficou por isso mesmo…

Novo Hamburgo viveu uma quinta-feira tensa. O mais recente
capítulo de conflitos entre motoristas de táxi e de Uber deixou um taxista
gravemente ferido, prejuízos materiais e muita confusão. Conforme nota
divulgada hoje pela manhã pela Fundação de Saúde Pública de Novo Hamburgo
(FSNH), “o estado de saúde do paciente Maicon Rodrigo Cantinho é grave e ele
permanece recebendo tratamento intensivo.”

Maicon está vivo. E luta para se manter vivo. Mas ontem
vários hamburguenses mataram o taxista. Não foi uma, duas ou três pessoas.
Vários escreveram em redes sociais que a vítima do atropelamento havia morrido. Um dos líderes dos taxistas disparou mensagem pelo WhatsApp anunciando a morte do colega. Por quê? Qual a finalidade? Qual o objetivo de anunciar uma morte que não
ocorreu? A resposta é: as pessoas não têm responsabilidade. As pessoas não
estão preparadas para lidar com informação. No mundo da instantaneidade,
esquecem dos familiares, amigos, conhecidos. Anunciam a morte e ignoram o
quanto uma notícia impacta na vida de uma pessoa que recebe este conteúdo. Ignoram a força da comunicação.

Nada substitui o bom Jornalismo e o bom jornalista. Que
investiga, pergunta, checa, verifica, reflete. Que passa cinco anos numa
faculdade de Jornalismo recebendo conhecimentos, lendo, discutindo, treinando, debatendo
teorias da comunicação, aprofundando suas vivências, se preparando para os
desafios jornalísticos com ética e qualificação. As redes sociais são
plataformas importantes como propagação de notícias. Instrumentos valiosos inclusive
de fiscalização e denúncias. Mas também servem para mentiras serem espalhadas,
pessoas serem difamadas.

Já falei aqui: várias pessoas que pregam a
moral, que questionam a ética dos outros, que estão cobrando corretas posições
de autoridades, emprestam sua credibilidade seguindo fakes, personagens falsos
que agridem outras pessoas sem se identificar – será que sabem se a pessoa é
racista, estupradora, violenta, caloteira? Os fakes batem e se escondem no
anonimato. Quem se esconde atrás de perfis falsos prefere a covardia. E,
incrivelmente, muitos pregadores da moral e dos bons costumes seguem estes perfis
que disseminam calúnias, difamações, ataques ou ódio. Ah, cabe ressaltar:
liberdade de expressão e de seguir o que quiser. Mas também liberdade pra
externar as contradições e os desvios de uma sociedade muitas vezes
irresponsável e egoísta.

Ontem, muitos hamburguenses mataram pelas redes sociais um
taxista atropelado. Mas ele está vivo. Ele luta para se manter vivo. As pessoas
que divulgaram sua morte estão aí pelas ruas como se nada tivesse acontecido,
ignorando o sofrimento dos familiares com a falsa morte. Nada substitui o bom
Jornalismo e o bom jornalista. Vida longa ao Jornalismo responsável, que busca
aprender com seus erros, vibrar com seus acertos e se ajustar à modernidade.

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