Mariana Peixoto Socal e Michele Rigon
Spier foram colegas de Ensino Médio – antigo 2º grau – na Fundação Evangélica,
unidade da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH). Na reta final do colégio, elas integraram as
turmas do GA2 (1993) e GA3 (1994).
Mariana estava no topo das mais inteligentes
da classe e resistia bravamente aos assédios de colegas que insistiam em pedir
cola. Michele também ocupava a parte de cima dos mais inteligentes da turma, mas era
um pouco mais saliente e costumava circular pela turminha do fundo.
Após concluírem os estudos na Fundação
Evangélica cada uma seguiu seu caminho. Mariana passou no disputado vestibular de
Medicina na UFRGS e Michele ingressou no inovador curso de Engenharia de Alimentos da
Unisinos – concluindo na PUC do Paraná. Ambas seguiram se dedicando aos estudos,
com mestrados, doutorados, entre outras titulações. Mulheres que decidiram
fazer a diferença.
Quis o destino que, mais de 25 anos após
deixarem de dividir a mesma sala de aula, Mariana e Michele começassem o ano de
2020 brilhando. Numa coincidência de período, elas foram destaques em
publicações de prestígio e audiência.
NEW ENGLAND JOURNAL OF MEDICINE E REVISTA CLAUDIA
Morando em Baltimore, Maryland, nos
Estados Unidos, Mariana emplacou um trabalho no New England Journal of Medicine.
É simplesmente a revista científica de maior impacto no mundo. É considerada
a publicação médica mais lida, citada influente do planeta na atualidade.
O
trabalho e a entrevista sobre pesquisa envolvendo insulina com grande impacto no mercado dos Estados Unidos está aqui: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp1916387?query=featured_secondary
Residindo em Curitiba, no Paraná,
Michele é um dos destaques da edição especial da revista Claudia: “Mulheres que
impactam nosso amanhã”. Ela teve duas –
isso mesmo, duas – fotos de página inteira publicadas na revista no capítulo
que tem como título: “As protetoras da Terra”. Lembrando que a Claudia é uma
das publicações de maior tiragem e leitura no Brasil.
A reportagem tratando de
um novo plástico biodegradável revolucionário para o mercado está no link: https://claudia.abril.com.br/noticias/mulheres-que-lutam-pela-sobrevivencia-do-planeta/?utm_source=whatsapp
A reportagem do Portal Martin Behrend fez contato com as duas
ex-alunas da IENH. Além de publicar um
histórico da formação de Michele e de Mariana, está sendo publicado na sequência um
pingue-pongue realizado com elas por e-mail. As duas gaúchas explicam a
relevância dos seus trabalhos e os impactos para a sociedade.
Mariana Peixoto Socal, 42 anos
– Nasceu em Porto Alegre
– Estudou em Novo Hamburgo: E.E. Otávio Rosa, E.M. Sao Jacó e Fundação Evangélica.
– Formação acadêmica – Graduação em Medicina na UFRGS| Residência médica em Neurologia –
HCPA | Mestrado em Medicina: Ciências Medicas – na UFRGS | Mestrado em Políticas
Públicas: Politicas de Saúde – Princeton University (Estados Unidos) | Doutorado
em Saúde Pública: Sistemas de Saúde – Johns Hopkins University (Baltimore,
Estados Unidos)
– Onde reside atualmente: Baltimore,
Maryland, Estados Unidos
– Onde trabalha: Cientista na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore,
Estados Unidos
Michele Rigon Spier, 42 anos
– Nasceu em: Estância Velha
– Estudou em Novo Hamburgo: IENH (Oswaldo Cruz e Fundação Evangélica)
– Formação acadêmica: Graduação Engenharia de Alimentos (iniciou na Unisinos e
concluiu na PUC/PR) | Mestrado em Tecnologia de Alimentos (UFPR) (Curitiba)
| Doutora: D.Sc. em Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia (UFPR) | Pós-doutorado:
MRI, na Alemanha
– Onde reside atualmente: Curitiba (PR)
– Onde trabalha: UFPR – Universidade Federal do Paraná (UFPR) –
Docente Associada II, Departamento de Engenharia Química, Cientista e
Pesquisadora do CNPq-2DT
ENTREVISTAS
MARIANA PEIXOTO SOCAL
Qual foi a pesquisa
que acabou rendendo entrevista na revista?
O assunto foi uma nova regulação
implementada pelo FDA americano em relação à produção de insulina. O FDA, Food
and Drug Administration, é a agência que regula todos medicamentos
comercializados em solo americano e desempenha o papel semelhante à nossa
Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Uma lei passada em 2010 determinava que a partir de março de 2020 a
regulação de insulinas pelo FDA deveria ser modificada.
A insulina é uma medicação
tão antiga que precedia as regras e regulações atuais, e esta lei previa que a
partir de março de 2020 o FDA deveria passar a tratar a insulina não mais como
uma medicação convencional, mas como um remédio biológico, isto porque a
produção de insulina é feita em laboratório utilizando-se bactérias.
O grande
problema é que esta nova regulação, apesar de bem-intencionada, teria uma
consequência séria para os usuários de insulina. A insulina é um dos
medicamentos de maior prioridade na saúde pública, porque o acesso a insulina
significa a diferença entre a vida e a morte para os diabéticos. E,
infelizmente, os preços de insulina estão crescendo vertiginosamente nos
Estados Unidos, em grande parte porque há um monopólio na produção deste
medicamento.
Só há três companhias farmacêuticas que produzem insulina, e
empresas concorrentes que tentaram lançar produtos no mercado não conseguiram
“quebrar” este monopólio e acabaram desistindo. Em maio de 2019, em
antecipação às novas regras, o FDA ouviu a população em audiência pública. Nesta audiência, eu apresentei um depoimento no qual identifiquei os problemas das
novas regras e propus uma solução radical e inovadora: que a agência fizesse
uma exceção para as insulinas de forma que as novas regras favorecessem maior
competitividade no mercado. Toda a indústria farmacêutica é contrária a esta
ideia, porque maior competitividade resulta em preços mais baixos e maiores
opções para o consumidor, com menor monopólio.
Em uma decisão inédita, em
novembro de 2019 o FDA publicou sua decisão, na qual decretou estar
implementando uma exceção para as insulinas de acordo com a proposta
apresentada por mim em maio. Esta decisão é um enorme avanço para a política de
medicamentos americana. Antecipa-se que haverá novas companhias que entrarão no
mercado agora, incentivadas pela nova política.
Em dezembro do ano passado, eu e meu colega
Jeremy Greene, um colega médico e historiador, chefe do departamento de
história da Medicina da nossa universidade, documentamos esta política
inovadora do FDA para a classe médica, cobrindo em nosso artigo os prós e
contras, e as consequências esperadas desta política, que é de grande interesse
dos médicos, pois os mesmos estão cansados de ver seus pacientes lutando para
poder pagar os altos preços da insulina e às vezes vindo a falecer devido ao
seu alto custo.
Lembremos que aqui não há SUS e não há dispensação gratuita de
medicamentos como no nosso Brasil, então o paciente que não pode pagar o
remédio muitas vezes tem consequências clínicas gravíssimas pela sua falta. O
New England Journal of Medicine, a revista científica mais lida no mundo,
publicou nosso artigo na primeira página de sua edição de 12 de março de 2020,
e realizou uma entrevista comigo ressaltando os aspectos mais importantes do
problema.
O que mais me emocionou foi receber uma mensagem, poucas horas depois
de o artigo estar disponível na internet, de uma professora de Medicina da
UFGRS que, em Porto Alegre, já havia lido a revista, visto o artigo e a
entrevista, e reconhecido o meu nome da época de quando eu era aluna. Demonstra
não somente a audiência global deste assunto mas também o nível de atualização
dos nossos médicos gaúchos, que estão literalmente no topo das notícias.
– Como avalia a relevância desse tema
para a sociedade?
A grande importância deste tema é que
atualmente existem enormes problemas na disponibilidade e no custo de
medicamentos globalmente. Em certos casos, uma parte do problema são políticas
públicas como a que o FDA estava a ponto de implementar, onde criam-se
barreiras que dificultam a entrada de novos produtos no mercado em nome de
maior segurança para os pacientes. Eu e meu colega conseguimos demonstrar com
sucesso frente ao FDA que em certos casos as considerações de segurança de
medicamentos não se justificam, e pelo contrário, causam mais consequências
indesejáveis do que benefícios aos pacientes.
No caso da insulina, um
medicamento que existe no mercado desde a década de 1920, com uma longa
experiência entre médicos e pacientes, e com uma grande capacidade de
monitoramento (existem monitores de glicose que dão resultados em tempo real,
por exemplo), demonstramos que o resultado das novas políticas, se
implementadas conforme originalmente planejado, não teria qualquer ganho
clínico para os pacientes (pois a segurança deste medicamento não representa um
problema real) e além disso teria uma consequência indesejada de dificultar a
entrada de novos produtos no mercado.
De uma forma geral, esta experiência
ilustra como as agências de medicamentos tem que equilibrar cuidadosamente seu
papel de proteger a saúde da população com seu papel de ajudar com que os
medicamentos no mercado tenham preços acessíveis e possam realmente ser
acessíveis para os pacientes que deles dependem para sobreviver. O caso da
insulina foi uma grande vitória para a sociedade do meu ponto de vista, mas há
outros medicamentos que estão em condições semelhantes, em que há um monopólio
de fabricantes ao redor do mundo, e os pacientes não tem alternativa se não
pagar qualquer preço que estes fabricantes determinarem.
– Como aconteceu a aproximação para que
o tema se destacasse e fosse publicado na revista?
Esta revista onde meu artigo foi
publicado, o New England Journal of Medicine,
é a revista científica de maior impacto no mundo.
Trata-se da publicação
médica mais lida, citada e mais influente que existe atualmente. Mais de
600 mil pessoas leem a revista a cada semana, distribuídas em praticamente
todos os países do mundo. Só é possível publicar um artigo científico nesta
revista após revisão por no mínimo dois editores e dois cientistas revisores
anônimos, que trabalham na mesma área de interesse da pesquisa.
Mais de 16 mil artigos são submetidos para publicação neste jornal, provindos do mundo
inteiro, a cada ano; porém pouquíssimos conseguem ser publicados.
Em geral,
somente artigos que são de alto impacto para a comunidade médica e científica,
trazendo conteúdo inovador e muito atual, acabam sendo escolhidos. Isto porque
o jornal é a plataforma de maior visibilidade e efetivamente modifica a prática
da medicina.
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MICHELE RIGON SPIER
– Qual
foi a pesquisa que acabou rendendo espaço na revista?
O fato de
eu ter desenvolvido junto com minha equipe na UFPR e UEL uma tecnologia
brasileira e que ainda não há no mercado: é um tipo de plástico (matrizes
poliméricas biodegradáveis) desenvolvidas sem causar impacto ambiental, pois se
degradam integralmente em cinco meses, atendendo normas brasileiras NBR e normas
internacionais ASTM para poder ser considerado e denominado de ‘biodegradável’,
pois quando ele se degrada libera no meio ambiente apenas biomassa orgânica,
minerais, água e CO2.
Ou
seja, o produto não gera poluentes químicos como os microplásticos.
– Como avalia a relevância desse tema para a sociedade?
Sabe-se
que o Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo. Somente parte
desse lixo plástico é reciclável. Mesmo que a população utilize sacolas
permanentes, ainda existe grande demanda para acondicionar, por exemplo, nosso lixo
orgânico (da cozinha, dos banheiros, etc).
Também há
demanda de produtos de higiene pessoal (tais como fraldas infantis e
geriátricas, tapetinhos para pets, saquinhos para coleta de rejeitos de pets),
linha de copos e canudos descartáveis, etc.
É de suma
relevância para a sociedade o que conseguimos desenvolver pois é uma nova
alternativa natural, orgânica, como uma nova opção para o mercado de embalagens
descartáveis, eco-friendly, que não poluem o meio ambiente.
Uma
versão é a base de amido e a outra versão verde contém algas. Como a formulação
contém outros componentes e aditivos (não pode ser revelado) pois a tecnologia
está protegida, a equipe da cientista e professora Michele obteve propriedades
mecânicas e físico-químicas semelhantes as propriedades do polietileno.
Nosso produto é maleável, não gera ruídos quando manipulado, é
resistente à ruptura e à elongação; apresenta resistência ao transporte de 4,5
Kg de materiais; apresenta propriedades de barreira à umidade, e aos gases. Não
absorve umidade mesmo em ambientes úmidos. E além de tudo em 150 dias é
integralmente decomposto (100% compostável).
Também é uma alternativa
para o mercado brasileiro produzir produtos 100% biodegrdáveis como alternativa
aos plásticos convencionais oriundos da indústria petroquímica. Uma alternativa
sustentável e amiga do ambiente (eco-friendly).
A
tecnologia que desenvolvemos: produto 100% biodegradável a base de amido
termoplástico (patente solicitada ao INPI); ainda não existe nenhum produto
no mercado brasileiro feito a partir desta tecnologia.
Produtos
similares mas poluidores:
–
Oxibiodegradáveis: São
parcialmente (não são biodegradáveis). Em sua formulação (polímeros da indústria petroquímica), possuem aditivo que fragmenta o polímero que, com presença de luz, oxigênio
temperatura e umidade fragmentam o plástico liberando microplásticos no meio
ambiente (além dos microplásticos serem poluentes, demoram décadas para se
degradar e ainda estão relacionados a problemas de saúde). Estudos científicos
indicam desenvolvimento de patologias e que poderia até propiciar o desenvolvimento
de tumores e câncer – porém mais estudos precisam ser feitos para afirmar esses
danos.
Plásticos
de origem renovável (como é o caso dos plásticos feitos a partir da
cana-de-açúcar): a cana-de-açúcar passa por processo fermentativo para a produção
de etanol. A partir do etanol ocorre desidrogenação e polimerização do etileno
que resulta no mesmo plástico convencional – o polietileno que também demora de
100 a 400 anos para se degradar na natureza.
– Como
aconteceu a aproximação para que a reportagem/artigo fosse publicado
na revista?
A Revista
Claudia identificou mulheres no Brasil que estavam trabalhando em prol da
sobrevivência do planeta. E na edição do mês de março, a Revista Claudia
dedicou uma matéria para as Mulheres Protetoras da Terra, na Edição especial
“Mulheres que Impactam o nosso Amanhã”. Identificaram uma mulher
cientista moderna que tenha desenvolvido alguma tecnologia amiga do meio
ambiente.
E foi que a embalagem biodegradável foi assunto de várias reportagens
nacionais (como publicado no site do UOL, na TV Record, na BandNews TV, no site
do G1, e em diversas rádios, blogs e redes sociais). A repercussão foi tamanha em nível nacional que a Editora Abril resolveu dedicar três páginas à invenção.
A demanda existe por empresas e indústrias que querem desenvolver alternativas sustentáveis,
economicamente viáveis, e com impacto zero ao meio ambiente, utilizando
matérias-primas disponíveis no Brasil – isso foi a principal motivação de meu trabalho
nesses últimos dois anos. A minha preocupação foi
trazer uma solução que não implicasse na fauna e na flora.
– Onde essa tecnologia poderá ser utilizada?
A
tecnologia desenvolvida pela minha equipe
poderá ser utilizada para descartes de lixo orgânico, sacolas, transporte de
materiais, produção de fraldas descartáveis, produção de saquinhos para coleta
de rejeitos de pet, para tapetinhos higiênicos para pets, e poderá ser destinado
para os aterros sanitários como para biodigestores (produção de energia como o
biogás: biometano), pode ser utilizada par enriquecer o solo propiciando
desenvolvimento de plantas e vegetais pois possuem nutrientes em sua
composição capaz de nutrir o solo;
A
tecnologia desenvolvida está pronta para ser transferida e licenciada para
indústrias que desejarem produzir granulados (matérias-primas para as mais
diversas indústrias que produzem produtos plásticos). Também é possível adaptar
a tecnologia desenvolvida para a produção de canudos, copos, talheres, pratos
descartáveis!
O
laboratório LENGEBIO, instalado na UFPR, encontra-se disponível para a
realização dos estudos de biodegradabilidade em solo simulado para as empresas
que desejarem realizar estudos ou obter dados de produtos do mercado.
ABAIXO AS DUAS PÁGINAS DA REVISTA CLAUDIA COM FOTOS DE MICHELE
