Enquanto escrevo meu artigo na manhã deste sábado, um grupo de hamburguenses está na Praça do Imigrante coletando assinaturas para um abaixo-assinado. São os integrantes do Mobiliza Inconformados. Assim como este movimento
formado por cidadãos interessados no futuro da cidade
lutou para que a Câmara de Vereadores de Novo Hamburgo permanecesse com 14 vereadores – havia a possibilidade de ampliar para 21 –, agora eles defendem a
redução de gastos
no Legislativo. Toda
pressão para a correta aplicação dos recursos públicos é bem-vinda, e sou um dos maiores divulgadores de sacanagens e farras com nosso dinheiro
– inclusive quando há cortes autoritários e equivocados, como no caso da extinção da TV Câmara.
Encontrei dois integrantes do grupo com quem mantenho uma relação saudável. Eles
perguntaram o motivo de o blog ainda não ter
destacado esta iniciativa. Expliquei que respeitava a ação e considero positivo
em termos de iniciativa popular, mas que considerava um desperdício de energia. A estratégia e o foco deveriam ser outros – minha opinião. Registre-se: quando o Mobiliza Inconformados surgiu, fui um dos jornalistas que mais destacou a mobilização em diferentes plataformas: jornal, rádio e internet.
Como fui questionado por estes dois amigos e ciente da responsabilidade em atender esta solicitação, exponho abaixo meus argumentos sobre os motivos pelos quais decidi não entrar de cabeça nesta campanha – embora, insisto, todas mobilizações para reduzir a gastança com nosso dinheiro têm suas virtudes.
1 – A Câmara de Vereadores de Novo Hamburgo responderá, em 2016, por 1,383% do orçamento do município. Serão R$ 14,2 milhões. É muito dinheiro, sim. Mas é menos de 2% dos gastos do município. Por que dispender tanta energia com 1,383% do orçamento? Qual o motivo de o grupo não se indignar com o destino de 98,615% do orçamento? Por que proteger tanto o Executivo (incluindo Comusa e Ipasem) e mais de um bilhão de reais que terá para administrar? Quais interesses estão nessa ação desproporcional? Estamos falando de 1 bilhão x 14 milhões.
2 – O Poder Legislativo é formado por bons e maus vereadores, bons e maus servidores. Colocar todos num saco é uma generalização equivocada. Tem vereador que merece R$ 20 mil por mês. Tem vereador que merece R$ 1 mil – e olhe lá! – por tamanho despreparo e incompetência. Nivelar por baixo é enfraquecer ainda mais o Legislativo que, neste mandato, tem um grupo de vereadores que se humilha
e rasga
bandeiras para garantir cargos e benefícios. Mas tem gente fazendo a diferença.
3 – Por que os Inconformados não fazem pressão para reduzir o número de secretários, diretores e coordenadores do Executivo, por exemplo? Hoje, são mais de 40, alguns sem qualificação ou preparo, sendo que o salário de secretário é de R$ 10 mil por mês. Diferentemente dos vereadores, a maioria não recebeu votos. Muitos estão lá por interesses políticos. Muitos, nem residem em Novo Hamburgo. Por que o silêncio com estas aberrações? Por que esta proteção com a Prefeitura?
4 – O grupo Mobiliza Inconformados, na luta dos 14 x 21 vereadores, tinha como uma das bandeiras a economia de gastos públicos. Correto. Bravo. Mas o grupo fez a fiscalização? Realizou prestação de contas? Quem pressionou o Executivo para saber onde foi aplicado o dinheiro que ficou em caixa? O que o grupo fez nos últimos anos para rastrear o recurso que foi “salvo”? Ao que me consta, o grupo praticamente se extinguiu e tem número reduzido de voluntários. O grupo “prometeu” para a comunidade que iria sobrar mais recursos, mas os problemas persistem. Será que o grupo sabe onde está o recurso que foi poupado?
5 – Vou citar três episódios recentes em que não se ouviram
manifestações dos Inconformados: fim da TV Câmara e a falta de transparência para os hamburguenses, numa censura explícita conduzida pelo Enfermeiro Vilmar Heming; gastos milionários da Prefeitura em publicidade em jornais e rádios, principalmente. Em nove meses, mais de um milhão de reais, e a conta só vai aumentar; e contratações de secretários e servidores de outros municípios para cuidar de Novo Hamburgo – atualmente, são mais de 200 CCs empilhados na Prefeitura. E nenhuma palavra dos Inconformados.
6 – Finalizo minha argumentação trazendo sugestões ao grupo: a) fazer mobilização dando nomes aos bois, e não generalizando como se todos fossem ruins ou aproveitadores; b) focar – ou, ao menos, dividir – sua indignação com os gastos do Executivo: é lá que está a mina de ouro do município; c)
valorizar os bons representantes da Câmara, pois quanto mais fraco e vendido for o Legislativo, mais poder de tripudiar terá o Executivo; d)
seguir pressionando o Legislativo, sim, pois existem exageros e CCs também empilhados no Palácio 5 de Abril; e) realizar
prestação de contas para a comunidade sobre recursos que foram economizados nas mobilizações para trazer credibilidade ao movimento.
Executivo: 1 bilhão de reais em 2016. Legislativo: 14 milhões de reais em 2016. É Davi contra Golias. É 98,617% x 1,383%. Nos dois casos, é o nosso dinheiro. Indignação, sempre! Mas não esqueçam de olhar para o lado. Até para não gastar pólvora em chimango.
