Greve. Greve. Greve. Agora, são os bancários. Quase todo mundo faz greve. O país afunda nas greves.

Já perdi as contas, deve ser a 57ª greve de alguma categoria no Brasil. Todo mundo fez greve no país nestes últimos meses e anos: carteiros, motoristas de caminhão, policiais, servidores do Judiciário, servidores do INSS, fiscais, técnicos-científico, médicos, professores, ferroviários… Agora, chegou a vez dos bancários. Agências bancárias em vários estados do país amanheceram cobertas de cartazes e estão fechadas a partir de hoje. Após assembleias realizadas na semana passada, os bancários decidiram entrar em greve por tempo indeterminado, segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT).

Tenho 37 anos. Sou jornalista e pai de família. Nunca fiz greve na minha vida. Mas sofro e pago caro por tantas greves. É um instrumento democrático, sim. A greve é uma maneira de evitar excessos, abusos e injustiças por parte dos patrões e empregadores. Mas, nas mãos de irresponsáveis, as greves se tornam uma arma descontrolada e afundam o país. Parece que cada categoria quer sacanear a outra: se bancário faz greve, carteiro também pode; se motorista de caminhão tranca as estradas, policiais não registram ocorrências; se ferroviário não conduz os trens, os professores abandonam as salas de aula. Que ciclo vicioso. Tem categoria que todo ano faz greve. Bancários e carteiros estão nesse grupo.

Hoje, fui a uma agência no Centro de Novo Hamburgo. Na frente, um grupo de sindicalistas mal-humorados estava bloqueando a passagem de funcionários. Tinha bancário querendo trabalhar, mas a pelegada do sindicato não permitiu. Não consegui sacar todo dinheiro que precisava para pagar um funcionário. Ele ficará sem o dinheiro do começo do mês – graças aos bancários grevistas.

Aqui, uma ressalva: os banqueiros não são santos. Engolem lucros bilionários anualmente, ganham cada vez mais dinheiro e são incapazes de tratar de uma distribuição mais justa de lucros, seja com projetos sociais ou outros investimentos. Quando o Brasil começa a afundar, são os primeiros a deixar a população na mão.

Nunca fiz greve. Nem sei como funciona. Só quero trabalhar para pagar minhas contas e honrar meus compromissos. Mas as contas não chegam – os carteiros estão em greve. Quero pagar meus fornecedores e não consigo – os bancários estão em greve. Esse é o Brasil: o país em que o respeito ao próximo está em greve há muitos anos.

REIVINDICAÇÕES DOS BANCÁRIOS

Os bancários querem reajuste salarial de 16%, com piso de R$ 3.299,66, e Participação nos Lucros e Resultado (PLR) de três salários mais R$ 7.246,82. A categoria também reivindica vales alimentação, refeição, 13ª

cesta e auxílio-creche/babá de R$ 788 cada. A categoria também pede pagamento para graduação e pós, além de melhorias nas condições de trabalho e segurança.

A proposta apresentada pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), rejeitada em assembleias, oferece reajuste salarial de 5,5%, com piso entre R$ 1.321,26 e R$ 2.560,23. A Federação propôs ainda PLR pela regra de 90% do salário mais R$ 1.939,08, limitado a R$ 10.402,22 e parcela adicional (2,2% do lucro líquido dividido linearmente para todos, limitado a R$ 3.878,16).

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