Thiago Moreira Safadi é sócio administrador na EGA Consultoria, com sede em Novo Hamburgo. Especializado em Gestão Ambiental e Mestre em Geografia, ele produziu artigo e repassou ao blog Martin Behrend. A reflexão se mostra absolutamente pertinente quando o Brasil, especialmente o Rio Grande do Sul,
vivencia severas intervenções climáticas.
As cidades precisam discutir os riscos do seu desenvolvimento social e territorial.
Durante uma chuva de granizo você sabe o que fazer? E se houvesse um acidente na Central Nuclear de Angra dos Reis? Você passa pela rua do valão e o nível da água começa a subir, até a altura do capô do seu carro, você sabe o que fazer? Já participou ou foi orientada alguma vez a exercer algum tipo de comportamento durante uma situação de risco? Seu celular recebeu algum tipo de informação alertando ou orientando sobre a proximidade de alguma situação de risco?
A gestão de ocorrências em eventos críticos precisa ser uma ação cooperada, transparente com a população. Ter um plano de ação apenas no papel não resolve nada. Ela precisa ser discutida, treinada, externalizada em diferentes ações. Seja através de programas de treinamento comunitário, visita de agentes de segurança as residências ou na criação de sistemas de monitoramento e comunicação remota com a população. Se preciso for, que se invente.
Cada vez mais a gestão de risco torna-se fundamental para o bojo do desenvolvimento urbano. As forças de segurança, os agentes públicos e a população precisam estar cientes do risco que cada evento/fenômeno existente no nosso dia a dia representa. Além disso, ambos precisam ser capacitados para responder a ela e a retornar a um estado emocional equilibrado. Ninguém volta a ser o que era após sofrer um trauma. Aprendemos com ele. Essa aprendizagem precisa ser compartilhada, transformada em ações que possam mitigar os seus danos em eventos futuros, seja num indivíduo ou numa população.
A impressão que fica é que ao tratarmos sobre os potenciais efeitos negativos de um empreendimento ou de um fenômeno climático estamos admitindo que nossos processos possuem falhas e, por isso, não devem ser compartilhados. O ego não permiti assumir o erro. Somos perfeitos demais. Adoramos Narciso. Os planejamentos de emergência existem, mas volto a dizer: estão guardados a sete chaves. Ninguém os conhece e o problema é exatamente esse.
O risco sempre existiu. O caos é uma certeza na natureza. Porém, diante dessas situações temos duas opções: negligenciar ou gerenciar.
Inúmeras cidades no mundo fazem a gestão de risco da sua comunidade. Trabalham as incertezas e os processos para mitigarem ou reduzirem os seus danos num momento de ocorrência como forma de gerar engajamento social. Discutem os perigos de cada evento e criam, em cima dos fatos, situações de treinamento. Cooperam entre sí. É assim no Japão, nos EUA, em Israel e em qualquer outro país aonde o gerenciamento do risco é levado de forma séria.
No Brasil é diferente. A cultura parece não permitir. Brasileiro gosta de levar tudo ao extremo, como a criancinha que é orientada a não colocar a mão na tomada para não levar choque. Mas ela coloca e… toma o choque. Teimosia burra ou falta de poder argumentativo dos pais? Será que tomar o choque na tomada pode ser comparado a situação de perder a casa num deslizamento de terra, de ver o carro alagado dentro de uma garagem, de sofre por falta de água numa cidade cortada por um rio poluído, como o Tietê. Teimosia burra ou falta de poder argumentativo para resolver os problemas e assumir as responsabilidades?
O problema de discutir o risco e as suas potenciais consequências está em assumir as responsabilidades das nossas ações. E talvez o problema esteja exatamente aí. Na nossa cultura o problema é sempre do outro. Cuidado, esse filho também pode não ser seu.
