Quem lembra do filme O Fugitivo, estrelado por Harrison Ford e tendo Tommy Lee Jones como investigador? Ford – no papel do dr. Richard Kimble – precisa provar sua inocência e passa por poucas e boas. Lá pelas tantas, ele vai a um hospital, se disfarça de servente e, num ambiente agitado, é chamado para conduzir a maca onde estava um menino com dores no peito. Ele obedece e sai circulando pelos corredores do hospital, subindo no elevador até um outro ambiente e olhando os exames do paciente. A cena pode ser conferida em: https://www.youtube.com/watch?v=nxotPpVYVcc .
A semana que passou reservou um susto e uma nova experiência jornalística. Como a vida muitas vezes imita a arte – ou vice-versa –, tive meu momento de Harrison Ford como dr. Kimble. Só que, ao invés de um hospital nos Estados Unidos, o cenário foi o Hospital Municipal de Novo Hamburgo; ao invés de um filme de Hollywood, o mundo real. A vida como ela é – mas que deveria e poderia ser bem diferente.
Meu pai teve uma queda inesperada na entrada de um banco. Ao cair, bateu com a cabeça no chão e sangrou muito, manchando
o piso até então reluzente da agência. O Samu foi acionado e, em poucos minutos, começava o atendimento. O trabalho do paramédico Roberto foi de primeira categoria, arrancando elogios por telefone do cardiologista Paulo Renato Machado.
Feito os primeiros socorros, a ambulância do Samu foi para o hospital. Enquanto meu pai era posicionado em outra maca, eu e minha mãe fomos fazer o registro na recepção. Com agilidade, a recepcionista pediu os documentos e, em quatro minutos, estava preenchida a ficha. Não se passaram mais cinco minutos para que nos chamassem para ficarmos juntos ao paciente.
A partir deste instante, pude presenciar um desconfortável e eloquente contraste: o lado humano versus a infraestrutura e condições de trabalho. Fiquei cerca de quatro horas na emergência, em pé, ao lado da maca do meu pai. Era preciso esperar para fazer um raio-x e uma tomografia para saber a gravidade do corte na cabeça. Registrei, neste período, vários médicos, enfermeiros, paramédicos e técnicos lutando para oferecer um atendimento de qualidade num ambiente hostil, apertado, pouco confortável e com pacientes espalhados por corredores. Não fosse a boa vontade e o preparo da maioria dos profissionais, a emergência do Municipal tinha tudo para ser um espaço ainda mais sufocante e sofrido.
Entre as cenas que chamaram a atenção, três se destacaram: uma ligação de familiar de paciente pedindo para a filha trazer paracetamol, que estava em falta na emergência; a enjambração com lençol que fizemos com meu pai em cima da maca para que ele pudesse urinar; e o diálogo com médicos e enfermeiros da emergência, que dentro das limitações e da demanda se mostravam solícitos.
E onde entra meu dia de Harrison Ford? Passavam quase três horas de espera, meu pai – 77 anos – com a cabeça enfaixada, reclamando de dores e desconforto, e nada de encaminhamento para exames, embora tivessem coletado sangue e verificado os batimentos cardíacos. Em determinado momento, uma enfermeira se aproxima e pergunta: “Consegue conduzir a maca? É que avisei o raio-x desse atendimento, mas não tem quem leve ele”, explicou. Não tive dúvida: coloquei a papelada sobre meu pai e, junto com minha mãe, saímos corredor afora. Pegamos o elevador e chegamos no outro nível. Saímos relembrando as instruções da atenciosa enfermeira: esquerda-direita-esquerda. Fomos cruzando por quartos lotados de pacientes e com estrutura defasada. Finalmente, ao chegarmos no ambiente anterior à sala do raio-x, superamos um piso aberto e irregular – a maca tremeu muito e a cabeça do meu pai chacoalhou – e acomodamos a estrutura numa antessala em reforma, suja e com obras expostas e sem proteção.
Na hora do raio-x, fui chamado pela enfermeira para ajudar a tirar meu pai da maca e colocar na mesa do procedimento. Uma atenciosa profissional realizou os exames e, em dez minutos, estávamos liberados para retornar. Quando cruzávamos o corredor, um integrante
do Samu que passava por ali perguntou: “Por que estão empurrando a maca?” Expliquei o que se passava. De pronto, ele disse que nós não deveríamos estar naquele papel e assumiu o comando da maca, levando até o mesmo local onde estávamos na emergência.
Finalizando: mais uma hora de espera e chamaram para
a tomografia – já haviam se passado mais
de quatro horas desde a entrada sem saber o diagnóstico e sequelas da batida. Como não se constatou uma lesão grave, foi possível liberá-lo na parte da noite. Por precaução, o cardiologista sugeriu que ele ficasse sob observação no Hospital Regina. E assim foi feito. Meu pai segue se recuperando e deve ter sido apenas um susto.
Em relação ao Hospital Municipal, concluo que existem excelentes profissionais trabalhando por lá. O lado humano é bastante valioso – temos alguns exemplos não tão positivos, mas é minoria – e, como conheço alguns hospitais privados – Regina, Unimed VS, Mãe de Deus e Moinhos de Vento – afirmo com segurança que os médicos e enfermeiros que vi trabalhando poderiam estar tranquilamente atuando nessas casas de referência no Estado.
Já em relação à administração e infraestrutura do Hospital Municipal, constatei no papel de familiar de paciente o que já tinha verificado em reportagens jornalísticas que produzi anteriormente: administração fraca, infraestrutura insuficiente e defasada, desleixo com equipes e pacientes. As críticas à diretora da Fundação de Saúde Pública de Novo Hamburgo, Simone Zucolotto, e a sua mãe e secretária municipal da Saúde, dra. Suzana Ambros Pereira, não são gratuitas: os hamburguenses pagam altos tributos e merecem mais carinho, cuidado e atenção. A falta de gestão fica escancarada em dezenas de espaços sucateados ou largados, na carência de itens básicos e na ausência de um comando positivo.
Mas não é falta de dinheiro. É questão de prioridade da Prefeitura. Enquanto o prefeito Luis Lauermann (PT), por exemplo, torra milhões de reais e engorda os cofres de jornais, emissoras de rádios e TV com fartura de publicidade, ou empilha centenas CCs a um custo milionário para agradar companheiros políticos, os pacientes do Hospital Municipal sofrem mais do que o necessário. O descaso faz a dor e a tensão aumentarem. Ninguém me contou. Eu vi. Eu senti.
