A maior catástrofe ambiental do Rio Grande do Sul segue escrevendo desgastantes capítulos.
É um processo que ainda vai levar meses para se que se tenha algo próximo da normalidade. Embora algumas atividades foram retomadas, a água esteja baixando e estradas vão sendo arrumadas, ainda tem muita coisa pela frente.
Nesse longo e desgastante processo, existe o grande sofrimento dos atingidos (os que perderam tudo e/ou tiveram de sair de casa); a angústia dos afetados (não foram atingidos em suas casas ou estabelecimentos, mas os negócios estão prejudicados por diferentes razões); e o desgaste físico e emocional dos voluntários (que se doam desde o primeiro dia, mas que precisam seguir suas rotinas).
ANTIGO HOTEL FENAC
Na gelada tarde deste sábado (25), a reportagem do Portal Martin Behrend esteve conversando com um grupo de médicas veterinárias. Elas estão atuando como voluntárias, há três semanas, no abrigo de cães e gatos montado no antigo Hotel Fenac – a 400 metros dos pavilhões da Fenac, no bairro Ideal, em Novo Hamburgo.
Dentro do primeiro grupo de voluntariado que passou a atuar no local, estão as veterinárias Tatiane Meirelles, Giulia Grin Cassel, Roberta Mendes, Monique Borges e Carina Machry. “Há mais de 20 dias, não paramos. É trabalho contínuo, que precisamos conciliar com trabalho e família. Nosso grupo também está adoecendo. Tem veterinária com Influenza, suspeita de leptospirose, entre outras situações. Vem sendo muito desgastante”, relata Tatiane. São cerca de 20 médicos veterinários que atuam como voluntários, se revezando nas rotinas.
Elas convidaram o Portal Martin Behrend a fim de registrar algumas preocupações e fazer um balanço do trabalho realizado. As veterinárias afirmam que não têm o objetivo de criar uma discussão com a Prefeitura de Novo Hamburgo, especialmente com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semam), mas esperavam mais apoio e suporte do Poder Público. “Houve alguma ajuda, mas esperávamos mais. Na questão veterinária, são os voluntários que praticamente fazem tudo. Pedimos a contratação de veterinários, até para podemos ter um alívio nas nossas rotinas, mas isso ainda não aconteceu”, conta Giulia.
Elas também destacam que boa parte da infraestrutura foi sendo montada pelos voluntários. Isso inclui a instalação elétrica e a colocação de luzes, já que o espaço estava desativado. O fornecimento de água não existe e morcegos assustam seguidamente.
Segundo as veterinárias voluntárias, no abrigo do Hotel Fenac, já passaram cerca de 800 animais – a imensa maioria cachorros, mas alguns gatos também. Atualmente, seguem lá cerca de 250. “De uma parte sabemos quem são os tutores, mas eles ainda não voltaram para suas casas, então, os animais seguem aqui. Outros, porém, não temos indicação”, explica Giulia. Ela comenta que muitos foram para um lar temporário, ou seja, estão com tutores temporários, pois os cachorros podem ser de outra família. “Os tutores originais podem aparecer, então, temos essa situação de lar temporário”, esclarece Giulia.
Em relação aos filhotes que nasceram no abrigo, estes estão para adoção. Já são cerca de 30 cachorros que nasceram nos últimos dias e precisam de um lar.
DOAÇÕES
A partir de uma grande rede de doações e conexões, o abrigo recebeu itens enviados por voluntários locais e de outros Estados. Com isso, foi sendo montada uma estrutura que remete a um hospital veterinário.
Tem farmácia com centenas de remédios, instrumentos médicos e acessórios, depósito, sala de procedimentos ambulatoriais, balança, gaiolas, quartos com cães em tratamento oncológico, quarto com cães doentes, quarto adaptado para berçário com os filhotes, caminhas, brinquedos, cobertores, coleiras, roupas, pallets, muita ração, entre outros itens. “Ficamos preocupados como será daqui pra frente. Muitos veterinários estão esgotados e precisam um tempo”, reforça Tatiane. Os voluntários ainda trocaram todo o piso da sala onde ocorrem as cirurgias e outros procedimentos.
Um dos focos das voluntárias é seguir colocando chips nos animais, além de realizar a castração e a aplicação de vacinas. “Isso é algo importante nesse momento, já que estamos com esse grande número de animais reunido num mesmo local”, salientam as veterinárias. O trabalho que vem ocorrendo é altamente profissional, com receituários, cartazes, informações personalizadas nas baias, remédios separados para cada animal, entre outros detalhes.
Elas contam que mantiveram contato com o titular da Semam, Ráfaga Fontoura, para cobrar reforços no atendimento. O grupo poderá seguir com o voluntariado, mas numa outra intensidade. “Era fundamental ter mais veterinários contratados, até para a gente poder fazer nosso trabalho. Mas isso não aconteceu até agora”, lamenta Tatiane. A segurança também vinha sendo feita por voluntários, sendo que agora uma equipe contratada atua no controle de acesso.
Não bastassem todas as dificuldades do momento, elas ainda conviveram com pessoas arremessando cachorros por cima da cerca ou trazendo seus animais para fazer exames gratuitos, se aproveitando da situação.
POSICIONAMENTO DA SEMAM
O titular da Semam conversou com a reportagem do Portal Martin Behrend. Ráfaga Fontoura elogiou e destacou o trabalho dos veterinários voluntários, reconhecendo a dedicação pela causa animal e a importância da assistência prestada. Ao mesmo tempo, ele esclareceu algumas dúvidas e preocupações de quem trabalha no local.
Fontoura citou que a Prefeitura fez repasses para o trabalho no antigo Hotel Fenac e em necessidades demandadas pelos voluntários. Investimentos de R$ 20 mil em materiais para as baias e R$ 20 mil em toldo externo, fornecimento de 2.000 microchips, aluguel de banheiros químicos (chegaram apenas nesta semana) e o recente convênio com a Companhia Municipal de Urbanismo (Comur) para a limpeza foram algunas ações realizadas. Servidores da Prefeitura também auxiliam no local ou dando suporte.
O titular da Semam informa que a Prefeitura tem dois veterinários para animais de pequeno porte, e eles estão se revezando nos demais abrigos, como no Ginásio Agostinho Cavasotto, no bairro Rincão.
Fontoura informa que não foram contratados mais veterinários por falta de recursos.
Nesta semana, porém, deverá ter um chamamento público para a contratação de três veterinários para atuação 24 horas. “Recebemos a sinalização de um recurso de R$ 180 mil com origem no governo federal. Com isso, poderemos fazer essa contratação emergencial”, confirma.
Ele explica que, com estes veterinários contratados, os atendimentos terão continuidade. “Talvez não seja no mesmo padrão do que vem ocorrendo até agora, mas teremos profissionais do setor atuando. E espero que os voluntários, dentro das suas rotinas, consigam seguir ajudando. O trabalho realizado tem o nosso reconhecimento”, reitera. A projeção é que os interessados estejam atuando até o final da semana, em contrato emergencial para até 60 dias (dois meses) de trabalho.
FEIRAS DE ADOÇÃO
Atualmente, o município coordena 11 abrigos nas cidades – dois sem a identificação total dos tutores, e outros nove com essa indicação. A estimativa, contando com outros abrigos voluntários, é de cerca de 2.500 cachorros reunidos nestes locais.
Ráfaga Fontoura e as veterinárias têm avaliações parecidas sobre o futuro dos animais. Até porque, o problema de milhares de cães em abrigos se repete em até maior número em São Leopoldo, Canoas, Porto Alegre e Guaíba. As projeções indicam que, na Grande Porto Alegre, existam de 20 mil a 30 mil cachorros fora dos lares ou das ruas – somente em Novo Hamburgo.
Sugestões de medidas a serem adotadas:
– Grandes feiras de adoção no Rio Grande do Sul e fora do Estado.
– Ampla divulgação dos animais que estão nos abrigos – isso poderá ser feito via rede social – para localização dos tutores.
– É inevitável pensar que muitos cachorros, daqui a algumas semanas, serão soltos nas ruas. Não é possível ficar por meses com milhares de cachorros em abrigos.
– Castração, microchipagem e aplicação de vacina em massa nos animais dos abrigos.
– Com castração, microchipagem e aplicação de vacina em massa nos animais dos abrigos, os animais que voltarão para as ruas poderão ser controlados, não terão mais filhotes e também não serão vetores de doenças.
