A pandemia do novo coronavírus chacoalhou o setor calçadista brasileiro de uma forma que pode ser considerada inédita.
Se em 2020 as empresas produtoras de calçados no Brasil demitiram mais de 50 mil trabalhadores e houve desativações de filiais em diferentes estados, o ano de 2021 – principalmente a partir do segundo semestre – registra um cenário radicalmente oposto.
Alguns registros do que se verifica nas últimas semanas: carros de som circulam por ruas de algumas cidades do Rio Grande do Sul em busca de mão de obra; empresas estão comprometidas com produção até o começo do ano que vem; indústrias estão indo comprar materiais de fornecedores da cadeia coureiro-calçadista pelos próximos seis meses; e tem até casos de pedidos que deixaram de ser aceitos pela impossibilidade de entrega dentro do prazo solicitado pelos clientes do exterior – faltaram funcionários para abrir nova esteira.
“A gente vive um momento, de três a quatro meses para cá, onde temos mais negócios de private label do que fábricas para produzir;” afirmou o empresário hamburguense João Fernando Hartz, diretor da Sunset Agenciamento e Intermediação.
Com mais de 35 anos de atuação na exportação calçadista, ele participou do Painel “Fimec 2022 – Retorno das Produções Private Label Internacional para o Brasil”, transmitido na noite desta segunda-feira (18), sendo sabatinado pelo diretor-presidente da Fenac, Márcio Jung.
A conversa foi transmitida ao vivo pelas redes sociais e integra a Semana do Calçado 2021, uma iniciativa do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC) e Sebrae.
PRIVATE LABEL
O que é o private label? Significa marca própria, também conhecida como marca que pertence ao distribuidor. O Vale do Sinos, nas décadas de 1970 e 1980, gerou um absurdo de riqueza a partir desse modelo. Os americanos enviavam os modelos que desejam produzir e as fábricas brasileiras, empregando milhares de trabalhadores, produziam os pedidos – sempre com a marca do cliente estrangeiro.
Quando os americanos descobriram um custo de produção mais barato na China e em outros países da Ásia, eles pararam de enviar pedidos para as fábricas brasileiras. Por aqui, muitos ficaram sem demanda, sem marca, sem produção própria. E houve uma tremenda quebradeira.
PANDEMIA
Ocorre que a pandemia afetou esse modelo de negócios dos Estados Unidos em relação à Ásia. Confira a seguir a realidade do que está ocorrendo, a partir das avaliações de João Fernando Hartz.
– A China segue muito fechada para entrada e saída, inclusive de produção, em razão da pandemia. Os desenvolvimentos e as produções de coleções estão afetadas.
– O Vietnã, que também é responsável por grande produção calçadista global, adotou uma estratégia de imunização por rebanho – sem vacinar a população. Deu errado. Os casos de coronavírus aumentaram, foi preciso fazer lockdown, o país ficou para trás nos pedidos de vacinas. As produções de coleções estão afetadas.
– Com China e Vietnã impactados pela pandemia, os grandes compradores de calçados internacionais foram em busca de outro grande desenvolvedor e produtor de calçados – principalmente, modelos de couro. Nesse cenário, a tradição do Brasil foi lembrada.
– A qualidade do produto brasileiro, a capacitação de seus profissionais e a qualificação de toda cadeia é reconhecida mundialmente, mas a questão preço nem sempre foi atrativa – em razão da oscilação do câmbio e do chamado Custo Brasil. Neste momento em que a Ásia está fechada, os americanos estão direcionando pedidos de milhões de pares de calçados para serem fabricados no país.
– Segundo relatório de setembro da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), o principal destino do calçado brasileiro no exterior, neste ano, segue sendo os Estados Unidos, para onde foram embarcados, entre janeiro e setembro, 10 milhões de pares, que geraram US$ 153 milhões, incrementos tanto em volume (+52,7%) quanto em receita (+41,7%) na relação com igual período do ano passado. As exportações para os Estados Unidos, em 2021, já superaram o nível pré-pandemia. Frente ao mesmo período de 2019, as exportações, em pares, cresceram 11%.
– Segundo João Fernando Hartz, os próximos quatro a cinco meses serão de salto constante nos embarques internacionais. Posteriormente, quando China e Vietnã se restabelecerem, poderá haver um novo recuo nos pedidos enviados, mas num patamar mais elevado do que antes da pandemia. Isso porque, os estrangeiros tendem a diversificar a cartela de fornecedores para não ficar dependente somente de asiáticos.
– Uma curiosidade desse momento: o Brasil está fechando negócios sem receber os compradores no país – pelas limitações de viajar na pandemia. Estão sendo abertos, inclusive, novos clientes, fruto da confiança e da tradição do setor calçadista brasileiro. Tudo pelo mundo virtual, sem feiras ou visitas pessoais.
– Hartz lembra que a situação cambial é relevante nas negociações. Com o dólar acima de R$ 5,00, o calçados brasileiro fica competitivo para negociar. Com isso, é preciso seguir observando como se comportará a questão cambial para saber o quão atrativo ficará o preço no país.
– Outra questão que também liga o sinal de alerta dos exportadores é a capacidade de embarque e do número de navios passando pela costa brasileira. Esse é um problema mundial – falta de contêineres – e isso também interfere nesse momento de fechamento de pedidos.
– Além dessa movimentação de pedidos do exterior, o mercado interno está aquecido. Por exemplo: por quase dois anos, as pessoas ficaram sem ir em festas, formaturas, casamentos, etc. Agora, com a liberação de celebrações, as pessoas voltaram a comprar. Além disso, os calçados de lazer e esportivos foram bastante utilizados em parte da pandemia e também há renovação por parte dos clientes. Isso também gera um aquecimento na produção para abastecer as lojas e os comércios do Brasil.
– Segundo João Fernando Hartz, a dificuldade de atrair jovens para o setor é um desafio que pode limitar a expansão do setor calçadista no país. Ele destaca que o setor precisa entender como resolver essa situação e como atrair trabalhadores para os pavilhões dos calçadistas.
A SEMANA DO CALÇADO
A Semana do Calçado é uma iniciativa do IBTeC e Sebrae que visa a promover a competitividade e sustentabilidade setorial, trazendo temáticas como produtividade, inovação, sustentabilidade e novas tecnologias, como forma de repensar a matriz produtiva, quebrando paradigmas e buscando soluções para superar as lacunas tecnológicas ainda existentes.
O site do evento é https://www.semanadocalcado.com.br/ .
