A paciência da família Ferreira já ultrapassou o limite do
bom senso. Felizmente, por serem educados e acreditarem nas pessoas, ainda não
tomaram uma atitude mais drástica. Mas isso vai acontecer em breve. Moradores
da Rua Jaguari, no bairro Primavera, eles convivem há mais de dez anos com um
drama: a cada chuva forte, a água misturada com esgoto invade a residência por todos
os lados: vem da rua, do piso, sobe pelo ralo, verte no jardim. Ontem, foi mais
um dia de contabilizar prejuízos.
É um misto de sujeira, com podridão, água escura e cheiro
ruim. Mais do que isso: o temor do que pode estar escondido sob o terreno. “Vai
saber se esse terreno não vai afundar. Vivemos sempre apreensivos, com medo de
sermos engolidos”, desabafa Antonio Alberto Padilha Ferreira, que tem próteses
nas duas pernas e dificuldade de correr para escapar dos alagamentos.
Os episódios mais recentes para tentativa de solucionar o
problema envolvem o titular da Diretoria de Esgotos Pluviais (DEP), Jorge Koch.
Ele, pessoalmente, se comprometeu em visitar a residência da família. “Estivemos
na Prefeitura. Ele disse por duas vezes que iria aparecer no dia seguinte. Mobilizamos
os vizinhos. Ficamos esperando. E nada. Se tem coisa que não suporto é homem
sem palavra”, critica Leoni Klein Ferreira. “Não usamos a garagem por medo que
o carro afunde ou fique ilhado. Carro fica na rua, com risco de ser arrombado”,
completa, salientando que o atual titular da Secretaria de Obras Públicas e
Serviços Urbanos, Saulo de Souza, também já foi informado do caso, mas não toma
providências. “O Koch agenda e não aparece. É uma falta de vergonha”, protesta
Leoni. Ela menciona que servidores já vieram duas vezes olhar a casa. E foram
embora sem fazer nada.
A filha do casal, Gabriela Ferreira, reside na casa ao lado,
que sofre do mesmo problema. “Como deixar as crianças no pátio? Vai saber que
tipo de sujeira fica depositada por aqui. Quando chove forte, quem também passa
dificuldade são nossos animais, que ficam ilhados”, completa. Ela já teve sua
dose de paciência esgotada. “Vamos procurar um advogado e cobrar da Prefeitura.
São anos e anos de prejuízo”, cita. Além da sujeira, mau cheiro e de materiais
danificados que ficam submersos, a família registra rachaduras na parede como
mais um sintoma de que a terra está se movendo e algo pior pode acontecer.
Outros vizinhos da rua também registram problemas de acúmulo de água nos
pátios.
HISTÓRICO
A família Ferreira reside há mais de 40 anos na Rua Jaguari.
A informação é que, no passado, foi construída uma galeria para passagem da
água e esgoto com tijolo e concreto – e não com canos – sob o terreno
onde eles estão residindo. Mas durante muito tempo isso não causou problemas. À época, a construção foi autorizada sem qualquer restrição.
Ao longo do tempo, contudo, é provável que esta galeria
tenha sofrido avarias. Enquanto isso, em outras ruas do bairro foram enterrados
canos, com ramificações passando pelas ruas Oswaldo Cruz e Epitácio Pessoa
que ajudaram a desviar parte do fluxo de água da chuva e esgoto. Mas, em dias
de chuva forte, há um volume maior e a galeria ficaria inundada, com a água
saindo para fora da terra. “Quando o ex-vereador Juarez Kaiser ainda estava no
governo do ex-prefeito Airton dos Santos, veio ver o problema, mas o máximo que
fez foi largar areia e pedra pra gente construir um muro”, informa Ferreira,
lembrando que desde o começo dos anos 2000 que os problemas de acentuaram.
Uma das sugestões já apresentadas ao DEP é a criação de um
cotovelo ou de um bloqueio da antiga galeria, alterando o fluxo. Essa intervenção poderia ser
feita no trecho da rua. Dessa forma, evitaria a passagem da água por baixo da
residência. “Sabemos que a galeria passa por baixo da casa e dobra em direção a
outras residências. O que eles precisam fazer é simples: abrir a rua, bloquear
essa galeria e fazer ligação com a atual tubulação, de canos, que passa pela
Epitácio Pessoa”, indica Ferreirra.
A família Ferreira não aguenta mais ver esgoto passando por
dentro de casa. A família Ferreira vive sob o medo da casa afundar. A família
Ferreira não aceita mais servidores públicos tratantes. A família Ferreira
exige mais respeito da Prefeitura. A família Ferreira pede socorro.
