Dois homens expulsos de baile de Carnaval vítimas de homofobia conseguem indenização na Justiça

O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) divulgou
hoje uma segunda decisão envolvendo um mesmo caso ocorrido em 2012 no Carnaval
de Novo Hamburgo.
A Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo foi condenada ao
pagamento de indenização a Fernando Henrique Pohl que foi expulso de baile de
carnaval naquele ano. Ele e seu ex-namorado – o jornalista hamburguense Bernardo Guedes, que
já havia recebido indenização no ano passado, pois ingressaram com ações
individuais – foram agredidos por seguranças terceirizados e contratados pelo clube, e humilhados com
xingamentos homofóbicos.

Procurada pela reportagem do Portal Martin Behrend para
saber sobre a decisão de recorrer da condenação, a diretoria da Sociedade Ginástica enviou o
seguinte posicionamento:
“A Gestão, juntamente com o Departamento Jurídico da
Sociedade Ginástica, está com serenidade avaliando a decisão e nos próximos
dias tomará as decisões avaliadas e ponderadas em conjunto.”

O CASO


O autor da ação narra que participou do Baile Vermelho e
Branco. Na ocasião, durante a madrugada,
percebeu que seu companheiro estava sendo agredido com socos e pontapés pelos
seguranças do clube. Disse ter gritado por socorro, quando passou a ser
agredido também. Além da violência física, que ocasionou o deslocamento de seu
pulso, ele afirmou que ambos foram agredidos verbalmente, em meio a pessoas
conhecidas, com ofensas homofóbicas, tendo sido arrastados para fora do salão.

O clube alegou que não houve agir ilícito, sendo que eventual
abordagem dos seguranças somente se deu por provocação do autor e de seus
amigos. Também afirmaram que a análise das câmeras de vigilância demonstrou que
o autor jamais foi agredido pelos seguranças da festa, tendo, apenas, sido
conduzido ao exterior do clube, sem contato físico. Em 1º grau, o clube foi
condenado ao pagamento de indenização por danos morais no valor de R$ 8 mil.
Houve recurso da sentença.


DECISÃO


A apelação foi julgada junto à 10ª Câmara Cível do TJRS.
Conforme o relator do apelo no Tribunal de
Justiça, desembargador Túlio Martins, é inconteste nos autos que os
seguranças do clube excederam-se no exercício da sua atividade, pois empurraram
o companheiro do autor e seguraram os dois pelos braços, arrastando-os para
fora do salão sob xingamentos homofóbicos, tais como “bichinha, gay, veado”, e
ameaças do tipo “vou te ensinar a ser homem”.

O magistrado também afirma que, conforme o depoimento de
testemunhas, o autor não provocou tumulto na festa. Ainda, segundo o
Desembargador, o autor e seu namorado realmente queriam ingressar em área
reservada, localizada mais próxima ao palco e tinham credencial, pois
portavam crachá de livre acesso identificando-os como sendo da imprensa. “No caso está evidenciado que os seguranças do clube se
exaltaram e agiram com violência no cumprimento de seus deveres, pois machucaram
o autor e o fizeram passar por situação constrangedora sem que este tenha dado
motivos para tanto”, destacou o desembargador Túlio.

Assim, foi mantida a sentença do 1º grau, condenando o clube
ao pagamento de indenização:
“É inegável que o demandante, além da lesão
corporal de natureza leve, passou por situação constrangedora e humilhante ao
ser arrastado para fora do clube, com violação à sua honra e dignidade humana”,
afirmou o relator. Também participaram do julgamento os desembargadores Jorge
Alberto Schreiner Pestana e Marcelo Cezar Müller, que acompanharam o voto do
relator.

CONVERSA


A reportagem do Portal Martin Behrend conseguiu contato
somente com Bernardo Guedes
, que havia sido indenizado já no ano passado, pois
seu processo avançou mais rapidamente. Ele se diz aliviado e com sentimento de
justiça. “Negros, mulheres e gays são vítimas constantes de violência. Tanto no
passado como no presente. Esse é um caso que serve para mostrar que a Justiça
não aceita esse tipo de situação”, comentou. Guedes diz que ele e seu
ex-namorado foram humilhados no baile de Carnaval e durante todo esse tempo não
houve um pedido de desculpas por tudo o que aconteceu. “As pessoas não podem
ficar quietas achando que é normal ser agredido ou sofres violência. Esse caso
cria uma jurisprudência importante”, completa. “Fiz tratamento psicológico,
precisei auxílio, deixei de frequentar certos lugares. Sofremos com esse tipo
de realidade”, finaliza.

Sair da versão mobile