“Fiquei sabendo que ela (prefeita Fátima Daudt) gosta muito de
aparecer em Instagram, Facebook, aniversário. Por que não pedem para ela passar lá (nas
obras)? Daqui dois anos tem eleição, pessoal. Vamos se lembrar. Vocês (lojistas)
devem se lembrar que, na próxima, devemos mudar”.
Essa manifestação acima tem como autor José Ernesto Mentz,
diretor da CR Diementz e filho do fundador da tradicional rede varejista. Nesta segunda-feira (18),
ele esteve na sessão da Câmara de Vereadores de Novo Hamburgo, ao lado de
outros lojistas do Centro. Na pauta, os transtornos com as obras de
revitalização na região central do município. Com demissões ou queda no faturamento – em alguns
casos de 70% –, a demora nas obras está tirando do sério os comerciantes – além de causar preocupação com o futuro de alguns negócios.
É quase surreal: os hamburguenses que serão diretamente os maiores
beneficiados pelas obras de revitalização do Centro de Novo Hamburgo estão em
pé de guerra com as melhorias. A ideia é que o Centro se transforme num
shopping a céu aberto, com mais movimento, mais negócios e mais faturamento
para o comércio, com melhor paisagismo, segurança e iluminação.
O grande objetivo da revitalização é potencializar os negócios, gerar empregos e aumentar a circulação de dinheiro. Só que o lento avançar das obras e erros de planejamento dos executores causam a impressão de que alguns
empresários preferiam que a região ficasse como antigamente.
As obras terão um custo de R$ 19 milhões. O recurso foi
conquistado via Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) na gestão do ex-prefeito Jair Foscarini. Mais duas gestões
se passaram, dos ex-prefeitos Tarcísio Zimmermann e Luis Lauermann, faltou competência, e o dinheiro não foi
aplicado na revitalização, com os projetos mofando nas gavetas.
A prefeita Fátima Daudt (PSDB) assumiu, e nos primeiros dias de 2017, precisou fazer uma operação de guerra para recuperar o
recurso, que estava perdido, para garantir as obras que vão modernizar a região
central. Com os principais beneficiados tão prejudicados e incomodados, será
que a tucana está arrependida? Será que o melhor para Novo Hamburgo seria deixar o
Centro apodrecer, como já vinha acontecendo?
O fato é que os lojistas estão empenhados em chamar a atenção da comunidade e salvar seus negócios, garantindo empregos e faturamento para a cidade. Novo Hamburgo é um dos polos comerciais mais importantes do Estado. E essa vocação está em alta.
Nesta
segunda-feira, a expectativa dos comerciantes era receber esclarecimentos dos representantes do
consórcio responsável pela realização das intervenções, iniciadas em maio de
2018. Alegando o curto prazo para a reunião das informações
necessárias – o requerimento verbal foi realizado durante a sessão da quarta-feira da semana passada, dia 13 –, as duas empresas contratadas pela Prefeitura responderam que
não compareceriam na sessão da Câmara.
A confirmação da ausência de dirigentes do consórcio foi o estopim para um festival de críticas dos vereadores e
também dos lojistas presentes na sessão. O comerciante Rudimar Machado
reclamou da falta de respostas por parte do consórcio, especialmente quanto ao
prazo de entrega das obras. Apesar dos benefícios do projeto de revitalização,
o atraso no cronograma das intervenções tem gerado uma série de problemas aos
comerciantes locais. “Fico com vergonha de dizer que votei na Fátima Daudt”,
revelou durante sua manifestação.
Entre tantos exemplos, um dos mais eloquentes envolve as novas floreiras do Calçadão. Elas foram construídas há alguns meses, mas em medidas indevidas em razão do acesso do Corpo de Bombeiros para emergências no local. Foi preciso mexer no que já estava, supostamente, finalizado.
José Ernesto Mentz destacou que, entre suas obrigações na
região central, tem um aluguel de R$ 22 mil para pagar. E revelou que já precisou
demitir colaboradores em razão da queda do movimento na avenida Pedro Adams
Filho. “Hoje, é mais fácil um morador do bairro Primavera ou Hamburgo Velho ir
a Estância Velha e Campo Bom do que comprar no nosso Centro”, lamentou.
COMISSÃO
Um dos principais problemas citados pelos vereadores é que o
consórcio responsável pelas obras abriu muitas frentes de trabalho e algumas
execuções estão sendo refeitas em razão de problemas de planejamento. “Fizemos
uma reunião e havia sido acordado de que não seriam abertas novas frentes de
trabalho enquanto as existentes não fossem encerradas. E isso não foi cumprido.
Há um pedido de aditivo de prazos para a conclusão dessa obra para outubro.
Isso inviabilizará o comércio na área central. O Executivo precisa dar um
ultimato a essa empresa. Se não houver uma decisão de acelerar as obras com
qualidade e fiscalização permanente, chamaremos o Ministério Público para nos
ajudar a fiscalizar”, destacou o vereador Enio Brizola (PT), presidente da Comissão
Especial de Acompanhamento das Obras de Revitalização do Centro de Novo
Hamburgo. A comissão é composta ainda pelos vereadores Cristiano Coller (Rede),
Felipe Kuhn Braun (PDT), Gabriel Chassot (Rede), Gerson Peteffi (MDB), Inspetor
Luz (MDB) e Patricia Beck.
ATO DE PROTESTO
A mobilização dos comerciantes de Novo Hamburgo teve
desdobramento na manhã desta terça-feira (19). Uma reunião contou com a
presença de diversos comerciantes e dos vereadores integrantes da Comissão
Especial que acompanha o caso.
Ficou definido que um ato de protesto será realizado
na próxima terça-feira (26), às 11 horas, na avenida Pedro Adams Filho, esquina
com a rua Gomes Portinho, para cobrar agilidade e maior fiscalização da
Prefeitura.
De acordo com o presidente da Comissão, Enio Brizola (PT), e
a relatora, Patricia Beck (PPS), informações sobre o andamento das obras poderão ser enviadas ao
Ministério Público, ao BID e ao
Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS).
Um dos pontos a serem discutidos é se o consórcio
responsável tem condições de concluir a obra. O prazo inicial é abril de 2019 –
não será respeitado. No processo de licitação, o TCE chegou a questionar a Prefeitura de Novo Hamburgo sobre o
motivo de realizar o processo indicando apenas uma empresa a executar todas as
obras. Na defesa da sua escolha, o Executivo argumentou que, dessa forma, haveria menor impacto no cronograma, garantindo maior celeridade na conclusão das obras. Como se vê, esse argumento da Prefeitura, na prática, não se confirmou. O documento foi localizado pela
vereadora Patrícia Beck.
Os vereadores vão novamente solicitar a presença do
consórcio responsável, na Câmara de Vereadores, para cobrar maior rapidez e
eficiência na execução das obras.
