Diretor da Comusa denunciado pelo MP por supostas irregularidades provoca mais desgastes ao governo Finck

A atual gestão da Comusa – Serviços de Água e Esgoto de Novo Hamburgo vem convivendo com polêmicas e episódios desgastantes.

No comando desde 1º de janeiro de 2025, o diretor-geral, Paulo Kopschina, está tendo de lidar com uma pauta carregada e desgastante.

Foram os protestos com o tarifaço da água em 25%, a indignação com o início da cobrança da Taxa de Esgoto no bairro Roselândia, a possibilidade de concessão/privatização sendo subsidiada pela população e a sucessão de episódios de desabastecimento e falta de água nos primeiros meses do ano. Já nesta sexta-feira (25), servidores se reuniram no campo de futebol para avaliar uma paralisação das atividades em razão do risco de não ter reajuste.

A imagem da companhia está prejudicada, ajudando a desgastar ainda mais a avaliação do prefeito Gustavo Finck (PP). Na sucessão deste repertório negativo em tão pouco tempo, tem uma situação que, internamente, está provocando rachas e desgastes internos no governo municipal.

O causador desta discórdia é o diretor técnico da Comusa, Neri Chilanti. Ele foi denunciado pelo Ministério Público (MP) em razão de atuação suspeita em atividades relacionadas à autarquia “Água de Ivoti”, criada pela Prefeitura de Ivoti, em 2013, quando era prefeito Arnaldo Kney.

Ele é denunciado pelo MP em duas ações civis públicas por improbidade administrativa. Numa delas, em seu posicionamento, o promotor de Justiça Charles Emil Machado Martins destacou que “sucederam-se, entretanto, inúmeras irregularidades vinculadas a contratações e procedimentos licitatórios levados a efeito pela Autarquia, invariavelmente ‘orientadas’ por Neri Chilanti”.

Mais adiante, o promotor acrescenta: “E mais, deficiências na direção da Autarquia e ‘consultoria’ (Neri Chilanti) permitiram que fosse levado a efeito um contrato inidôneo, que levou a um aditivo muito superior ao permitido legalmente.” Chilanti é apontado como o mentor do esquema de favorecimento para a contratação de empresas indicadas por ele.

As ações civis públicas somam centenas de páginas, com documentos e reportagens do jornal O Diário, de Ivoti, que foram o estopim para a mobilização do Ministério Público.

Chilanti se diz inocente, está se defendendo e ainda não foi condenado ou inocentado. Num dos processos, a decisão pode sair ainda neste ano – tem audiência de instrução e julgamento no dia 21 de julho. No outro caso, réus citados pelo MP entraram com pedido de efeito suspensivo no Tribunal de Justiça, que foi concedido de forma temporária.

DESGASTE INTERNO

A presença de Chilanti dentro da Comusa tem provocado dois tipos de desgastes: político e técnico.

Desgaste técnico

Dentro da Comusa, o comando de Chilanti vem deixando alguns servidores desconfortáveis. A reportagem foi procurada por pessoas que trabalham na companhia preocupadas com alguns procedimentos que estão sendo adotados.

Neste verão, por exemplo, foram muitos incidentes de desabastecimento na cidade. Contudo, segundo relatório interno ao qual o Portal Martin Behrend teve acesso, a captação de água pela Comusa ficou acima da média. “É uma realidade que não fecha. Foram muitos incidentes de falta de água em pouco tempo”, destacou um integrante da companhia. “Foi comentado que tem muita coisa errada, sucateada na Comusa. Colocou em dúvida o trabalho de muita gente ou tem outros motivos esse suposto sucateamento?”, desabafou o servidor.

A condução e a pressa para materializar alguns investimentos e a revisão de contratos sem motivo emergencial estariam entre as iniciativas de Chilanti que não seriam prioridades para a Comusa, inclusive com impactos financeiros da empresa.

Tem outra questão complexa e que está provocando contrariedades dentro da Comusa: a lentidão nas obras da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Luiz Rau, com indicativos de paralisação. Esta é uma das maiores obras de saneamento em execução na América Latina. Quando finalizada, será responsável por tratar mais 50% de todo o esgoto de Novo Hamburgo.

Segundo apurado pela reportagem, Chilanti não estaria tendo uma liderança capaz de compreender a importância da ETE para o município. “Paralisar uma obra desse porte é preocupante. Já tivemos atrasos por causa das enchentes, o que é compreensível. Agora, precisamos acelerar para que a estação de tratamento seja concluída o quanto antes”, alertou um servidor da Comusa.

O ex-diretor-geral da Comusa e ex-vice-prefeito, Márcio Lüders, destaca que, no final do ano passado, o projeto a estava andando. Segundo ele, as questões relativas à obra estavam sendo resolvidas entre a equipe técnica da companhia, a empresa responsável e a projetista. “É natural uma obra deste tamanho ter alguns entraves de projeto e de execução. Mas o interesse público é maior e existem alternativas legais para solução”, explica Lüders.

Em relação a um suposto sucateamento da empresa, sugerido no começo desta gestão, Lüders lembra que a gestão da Comusa no governo anterior recebeu uma dívida de mais de R$ 200 milhões – indenização da Corsan em razão da municipalização da água. Segundo ele, foi necessário trabalhar para não perder financiamentos importantes. “Repatriamos muitos valores, sempre com responsabilidade e procurando não castigar a população com altas tarifas. Por conta das medidas de austeridade, não conseguimos fazer tudo que pretendíamos, em razão dos custos e também da ausência de recursos federais destinados para saneamento durante todo o governo de Jair Bolsonaro”, relata.

Mesmo assim, reforça Lüders, Novo Hamburgo teve projetos importantes contemplados no Novo PAC. “Tivemos avanços de tecnologia e também de revitalizações, como da loja do centro, dos prédios administrativos e do almoxarifado. Os equipamentos da captação são de ponta. Realmente precisa haver uma adaptação para o novo prédio, que a equipe já estava desenhando quando saímos. Quanto a investimentos em obras e modernizações , eles são de responsabilidade da gestão que se encontra, não posso e não devo opinar sobre o assunto, pois não vivo mais essa realidade há mais de quatro meses. Só não dá pra dizer que tudo está sucateado, poia isso também não é verdade”, destaca.

Desgaste político

A presença de Neri Chilanti foi uma surpresa no começo do governo. Com larga atuação na companhia, Silvio Klein seria mantido como diretor técnico – ao menos no primeiro ano. O objetivo era fazer uma transição sem solavancos e seguindo com os projetos da companhia. Contudo, na primeira semana do ano, ele foi informado que não seguiria.

Mas qual a razão para Chilanti estar nesse cargo? Ele está sendo denunciado pelo MP exatamente por atuação suspeita numa autarguia de água, em Ivoti. Por que não deixar ele fora do governo se defendendo até ter uma decisão da Justiça, evitando todo esse desgaste interno?

A explicação está na campanha política de Gustavo Finck, em 2024. Chilanti teria como padrinho um aliado de peso do prefeito. Um nome influente nos bastidores que teria ajudado bastante na campanha do prefeito. E, agora, a indicação dele seria a contrapartida pelo generoso apoio.

O fato é que o clima é tenso na Comusa, a começar pela direção. Paulo Kopschina, Neri Chilanti e o diretor administrativo-financeiro Emílio Kerber Filho – que foi assessor do deputado federal Luciano Zucco (PL) – estão em rota de colisão em razão das fissuras provocadas por essa indicação. “Caso as acusações se confirmem, a gestão de Finck poderá enfrentar uma crise de credibilidade, colocando em xeque a continuidade de sua administração”, alerta um integrante do próprio governo municipal consultado pelo Portal Martin Behrend. “Recentemente, um ministro do governo Lula (Juscelino Filho) foi denunciado pelo MP. Ele não foi condenado, mas tem fortes suspeitas. Ele deixou de ser ministro para não prejudicar o andamento do governo. Isso é uma prática comum em vários governos. Tem algo muito forte que mantém o diretor técnico da Comusa no cargo”, completa o servidor.

Vale lembrar que, no governo passado, Kopschina foi presidente do Conselho Deliberativo da Comusa em dois anos e tinha conhecimento de como estava sendo administrada a companhia. Durante um bom tempo ele foi aliado da ex-prefeita Fátima Daudt, sendo que foram colegas de partido, o MDB.

A atual composição do Conselho Deliberativo da Comusa tem: Andreia Schneider Pascoal (secretária municipal), Márcio Jung (diretor-presidente da Fenac), Nelsok Koch (pai do deputado estadual Issur Koch/PP), Carlos Eduardo Kranz (candidato a vereador pelo PP) e Maicon Schaab (arquiteto).

ESCLARECIMENTOS

A reportagem do Portal Martin Behrend procurou a Prefeitura e a Comusa. Foram oferecidos espaços de esclarecimentos para Gustavo Finck, Paulo Kopschina e Neri Chilanti. A reportagem, inclusive, teve sua publicação adiada em um dia a pedido de um dos citados.

Até o fechamento da reportagem, não vieram os posicionamentos.

Sair da versão mobile