Há dez dias, o hamburguense Luis Fernando Schilling da
Silva, 29 anos, foi esfaqueado no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Ele não
resistiu aos ferimentos e faleceu. Na sexta-feira passada, uma hamburguense
caminhava pela Rua Barão de Santo Ângelo, junto ao acesso principal do Parque
Henrique Luis Roessler, o Parcão, e foi assaltada. Foram mais duas vítimas para
desagradáveis estatísticas oficiais.
Ao mesmo tempo em que os moradores da capital gaúcha
lamentavam mais um ataque fatal, a morte de Silva reacendeu com força o debate
em Porto Alegre: cercar ou não cercar a Redenção? No embalo de mais uma
tragédia, a reportagem do Portal Martin Behrend retomou um debate que diz
respeito ao município de Novo Hamburgo: cercar ou não cercar o Parcão?
O Parque Henrique Luis Roessler é um tesouro natural de 56
hectares dentro de Novo Hamburgo. Além de ser uma área de vasta riqueza
natural, ainda existe um contexto histórico, já que fazia parte de uma gleba
incorporada aos primeiros lotes de Hamburgo Velho. Atualmente, o Parcão vem
recebendo investimentos superiores a R$ 4 milhões conquistados a partir de um
empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A movimentação de
pessoas vem crescendo gradativamente.
Para garantir a preservação do Parcão e, ao mesmo
tempo, assegurar a segurança de quem frequenta o local, qual seria a melhor estratégia:
deixar o parque aberto como está hoje ou realizar o cercamento? Três
especialistas e conhecedores do Parcão foram convidados pelo Portal Martin
Behrend a se manifestar. Confira as análises a seguir.
Udo Sarlet | Agente ambiental da Secretaria Municipal do
Meio Ambiente (Semam) e ex-diretor de Meio Ambiente
“Não existem impedimentos legais para fazer o cercamento do
Parcão. Sou favorável ao cercamento. É uma proteção para as pessoas que
circulam e também para fauna e flora do local. O cercamento não visa a
restringir, mas garantir que se preserve a segurança de quem usa o parque e
traga tranquilidade, por exemplo, para animais que vivem dentro da área de 56
hectares. Naturalmente, cercar todo esse espaço envolveria um grande valor.
Há alguns anos, foi feita uma projeção tendo como base uma
cerca tecnicamente adequada e, apenas fazendo uma estimativa linear, o orçamento
superou R$ 1 milhão – sem contar algumas intervenções especiais que deverão ser
necessárias em função de irregularidades no terreno. Numa pesquisa realizada
com usuários do Parcão e moradores do entorno, o resultado foi amplamente favorável
ao cercamento de toda área.
O Parque do Ibirapuera, em São Paulo, é cercado. Alguém é
privado de ir até lá? Não. E temos um parque preservado e de grande convivência
entre as pessoas e o meio ambiente. Outros casos que temos são o Parque Tanguá
e o Jardim Botânico de Curitiba, que são cercados. Isso não impede a circulação
das pessoas, mas se coloca um regramento e se tem um maior controle. Regrar não
é proibir.
É sempre bom lembrar que temos dentro do Parcão animais com
hábitos noturnos. Garantir a tranquilidade deles também é um dever e uma
responsabilidade. Posso citar uma família de graxains que vive no Parcão e
também temos a presença de lagostins com origem endêmica, que são objetos de
pesquisa. Dentro do próprio Parcão temos diferentes zoneamentos, com
aproveitamentos diferentes. Tem regiões em que não se permite construir, já
temos as áreas administrativas e de lazer, que são com entendimentos
diferentes. “
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Luciane Maria | Bióloga, ex-diretora da Secretaria Municipal
do Meio Ambiente (Semam) e diretora-proprietária da Bioma Consultoria
Ambiental
“O Parque Henrique Luis Roessler está inserido como Unidade
de Conservação no Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza
(SNUC) desde 2010. Foi criado para
proteger as áreas verdes da cidade. Atualmente, a inserção do parque está na
categoria de Uso Sustentável, que tem como objetivo compatibilizar a
conservação da natureza com o uso sustentável dos recursos, conciliando a
presença humana nas áreas protegidas. Por estar numa região totalmente
antropizada, o ideal seria o cercamento para evitar o vandalismo e a destruição
do investimento (cerca de R$ 4,6 milhões financiados pelo Banco Interamericano
de Desenvolvimento (BID) que está sendo feito no momento.
O Parcão está inserido numa área urbana totalmente
antropizada, mas mesmo assim abriga aves de várias espécies (bem-te-vi,
canários, cardeal, quero-quero, etc), bem como diversos mamíferos (preás,
gambas, graxains, etc), répteis de várias espécies e, recentemente, foi
descoberto por estudantes da UFRGS uma nova espécie de lagostim que é um pequeno
crustáceo de água doce que vive enterradas em tocas, que são construídas em
terrenos úmidos e alagados. Estando sem cercas, o Parcão está sujeito a acúmulo
de lixo, a ocorrência ocasional de fogo, vandalismo entre outros. Claro que,
por estarem inseridos em um corredor ecológico, alguns animais (mamíferos)
podem ficar em isolamento, causando problemas de consanguinidade.
Para uma convivência harmoniosa entre as pessoas e o meio
ambiente o ideal é que o Parcão seja cercado, assim a fauna e flora estariam
melhor protegidos com a exceção mencionada na resposta anterior em relação aos
mamíferos. Além disso, haveria um
controle maior das pessoas que estariam dentro do parque, com horário de
entrada e saída. Isto já existe em outros Estados do país como, por exemplo, o
Parque Ibirapuera em São Paulo.”
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Jackson Müller | Biólogo, ex-secretário municipal do Meio
Ambiente e ex-diretor técnico da Fepam
“Há algumas considerações importantes a fazer sobre a questão
do Parcão. Trata-se de uma unidade de conservação, que por diversos motivos e
incompetência administrativa perdeu sua classificação de parque. Posteriormente
foi novamente enquadrada como Área de Relevante Interesse Ecológico Henrique
Luis Roessler.
Orientei diversos trabalhos nessa área, onde tornou-se
consenso a sua característica como parque com vocação preservacionista, uma vez
a composição de fauna e flora que lá residem. As propostas que foram discutidas
visavam estabelecer corredores de fauna para manter o fluxo gênico entre as
áreas do Travessão com o banhado do Sinos.
Com o crescimento do município e o desmantelamento das ações
de planejamento ambiental da Semam, esses assuntos sequer foram debatidos e
implementados. O Parcão atualmente é uma ilha verde (última) no meio do
concreto e asfalto de Novo Hamburgo. Tem grande riqueza de fauna e flora,
inclusive com espécies ameaçadas. Há alguns problemas de natureza ecológica,
como o efeito de borda das matas e a perda da diversidade genética,
comprometendo os ecossistemas da unidade de conservação, uma vez o seu
isolamento físico.
Por outro lado, a questão da segurança sempre foi um tema
recorrente, uma vez a grande insegurança que ronda nossa cidade. Não se trata
de uma condição isolada, mas as características do parque favorecem as tocaias e
fugas de assaltos e outras barbaridades. O foco das discussões sempre esteve na
Barão de Santo Ângelo, uma vez as condições da vegetação que cerca o parque.
Mais recentemente, com novos empreendimentos junto à Rua
Almiro Lau, a situação de expandiu. Do ponto de vista técnico não sou contra o
cercamento, desde que adotadas algumas medidas de controle, como passa bicho ou
corredores de passagem, que podem ser construídos com alguns cuidados para
garantir o trânsito de pequenos animais.
Mais uma vez verifica-se falta de estudos técnicos com
universidades ou mesmo pela própria Semam que poderiam avaliar o movimento da
fauna, com uso de armadilhas fotográficas ou mesmo com a participação da
comunidade, que sempre foi parceria para projetos desse tipo.
Do ponto de vista operacional há dificuldades de
direcionamento de recursos financeiros para tal, uma vez que as extensões são
bastante representativas. A Barão de Santo Ângelo tem 1.800 metros e Almiro Lau
mais a Rua Sapiranga são outros 1.900 metros. Para consertar um barranco na
Avenida Sapiranga já se vão quantos meses? A própria “revitalização do parque”
poderia ter priorizado essa questão. Consultorias bem caras foram pagas para
tal!
Por fim, algumas medidas de controle para a questão da
violência e da geração de dados para um futuro “cercamento” físico poderiam ser
obtidos com o “cercamento eletrônico”, com equipamentos de baixo custo que
auxiliariam a geração de dados. A instalação de câmeras de vigilância com
recursos da “revitalização” seria muito bem-vinda pela comunidade. Bandido não
gosta de Big Brother…
Acredito que os resultados com o “cercamento eletrônico” na
Barão de Santo Ângelo e a Almiro Lau, com um conjunto de câmeras, podendo ser
acessados pelos moradores representaria uma boa experiência, com resultados no
curto prazo.
