A cena chamou a atenção de alguns leitores na semana
passada. Dezenas de caminhões cegonha carregados de veículos novos –
zero-quilômetro – deixaram a BR-116 e ingressaram no bairro Rincão. O comboio se
posicionou junto a um pavilhão industrial na Avenida Nações Unidas e nas ruas
próximas. Os carros foram desembarcados das cegonheiras – rodando! – e
ingressaram num pavilhão industrial. Dali, aqueles veículos avaliados em cerca
de R$ 100 mil saíram nos dias seguintes completamente desfigurados: eles foram
prensados e amassados. Viraram resíduo industrial.
Diante dessa situação, leitores questionaram: seria uma
fraude em seguro de veículos? Seriam veículos que caíram no mar e foram
resgatados? A reportagem do Portal Martin Behrend foi em busca de respostas. Na
Avenida Nações Unidas, está instalada a empresa Ecosystem Reciclagem
Automotiva. É neste endereço que os carros entraram rodando e saíram empilhados
feito um amontoado de latas.
A resposta para esse “mistério” foi trazida por um colaborador da Ecosystem. “Temos vários clientes, entre eles, a
General Motors (GM). Estes veículos que chegam aqui são considerados inservíveis
pela montadora. Por algum motivo, eles não servem mais. Então, eles procuram
nosso serviço e aqui fazemos um desmanche do veículo, retirando peças,
materiais químicos e amassando a lataria. Transformamos as peças em
matéria-prima como resíduo industrial que poderá ser reciclado”, conta o entrevistado. Além de prensas e outros maquinários, a empresa conta com uma Estação
Coletora de Fluídos Veiculares para poder separar estes produtos que estão nos
veículos.
O colaborador explica que a empresa não é uma sucateira ou algo
parecido. “Temos mão-de-obra especializada. Também temos a Gerdau como cliente.
Investimos nessa questão da reciclagem, do reaproveitamento. Na Alemanha, por
exemplo, é um dos setores que mais cresce”, detalha. Na Ecosystem, rodas de
liga leve dos veículos são cortadas e também podem ser reaproveitadas como matéria-prima.
“Recebemos o pedido de cliente e executamos. Não tenho como informar o motivo
dos veículos serem enviados para cá. Fazemos o nosso trabalho conforme
solicitação enviada”, completa. A Ecosystem também mantém uma operação no Complexo Industrial de Gravataí ao lado da GM.
Nos últimos dias, foram cerca de 300 veículos do modelo Tracker
que chegaram novos e saíram como resíduo industrial. Enquanto o Portal Martin
Behrend produzia a reportagem, duas mulheres tiravam fotos dos veículos
amassados. “Eram novinhos. Podiam dar pra mim. Vamos esperar tua reportagem pra
saber o que aconteceu”, falaram. Um dos leitores que procurou o Portal também
lamentou que os veículos não tenham sido doados para a polícia ou em entidades
beneficentes.
A reportagem do Portal Martin Behrend entrou em contato com
a assessoria de imprensa da GM. Após contato por e-mail, houve um contato
telefônico. A empresa agradeceu o espaço concedido, mas informou que não vai se
manifestar sobre os motivos destes veículos Tracker terem sendo considerados
inservíveis. Segundo a assessoria da GM, é um assunto interno.
Embora ninguém tenha se manifestado, a reportagem apurou com um especialista em mercado automotivo que
em alguns casos os veículos saem com falhas graves no chassi ou itens de
segurança e reposicionar os modelos na linha de produção para corrigir o erro seria
inviável. O caminho mais ajustado em termos de economicidade é destruir o
veículo.
CONFIRA MAIS FOTOS DA REPORTAGEM A SEGUIR
