A boate Vagão, em Novo Hamburgo, é um case a ser estudado. Num mundo ávido por novidades, mudanças e inovações, como explicar que um espaço de festas e eventos supere 45 anos de portas abertas, embalando várias gerações? Mais do que isso: como entender que um ambiente com poucas alterações na sua estrutura física se mantenha atraente e convidativo para receber centenas de pessoas em noites com diferentes estilos, perfis e tribos?
O Vagão foi inaugurado em 1969, na gestão do ex-presidente da Sociedade Aliança, Júlio Sauter.
É neste contexto que surge a Sociedade Aliança. Em conversas com associados do clube, os irmãos foram convidados a conferir a desativada linha de tiro. O espaço parecia ser adequado. Foram Pedro
Scherer e Maria Elena Schwan – junto com seu sócio, Oswaldo Portella – que tomaram a dianteira de transformar o empoeirado espaço numa boate para a juventude. A inauguração ocorreu numa festa de gala e muita expectativa. “Fizemos algumas coisas impensáveis para os dias de hoje, como colar cacos de vidro coloridos em uma parede para criar um efeito de luzes misturadas. Muita coisa aconteceu na base do improviso e da criatividade”, conta Maria Elena. A festa de inauguração foi um sucesso, mas gerou protestos de aliancistas da velha guarda em função da antiga linha de tiro ter se transformada
numa boate. “No começo, tivemos de ouvir alguns protestos, mas logo o Vagão passou a atrair muita gente e não teve mais como segurar”, conta Oswaldo. Quem também aderiu à proposta "revolucionária"
foi o então ecônomo aliancista, Vilás Oliveira.
Atualmente, o Vagão vem sendo locado
para festas particulares: formaturas, aniversários, 15 anos e eventos corporativos. Em alguns meses, a agenda está tomada por reservas às sextas e sábados. O espaço recebe desde eventos LGBT até festas anos 80 e 90, comandadas pelo DJ Kalunga – sempre com casa cheia!
Nestes mais de 45 anos, foram milhares de festas realizadas e é impossível calcular quantas pessoas passaram por lá. Uma das mais memoráveis foi o Vagão no Reino de Avilan, numa inspiração na novela da Globo
“Que Rei Sou Eu?”.
A seguir indico três trunfos que podem ajudar a explicar a longevidade do Vagão:
1 – Espaço para dançar. É um dos poucos locais do Vale do Sinos voltados e vocacionados para dançar. A pista colorida segue convidativa. Por seu espaço limitado, dançar é quase obrigação.
2 – Ambiente neutro e universal. O Vagão consegue ser brega e chique, democrático e exclusivo, simples e luxuoso. Sem grandes investimentos em decoração, o espaço se transforma rapidamente e ganha novos ares.
3 – Estacionamento e discrição. A Rua Olavo Bilac tem farto espaço para estacionamento. É fácil de chegar, sem grandes disputas por estacionar.
Por que o nome Vagão?
Segundo Maria Elena Schwan, o nome da boate teve inspiração no formato retangular, estreito e cumprido do ambiente, parecido com um vagão de trem. As dimensões do espaço têm sua razão. Antigamente, funcionava ali a linha de tiro do Departamento de Tiro da Sociedade Aliança, o que explica a distância entre suas extremidades. Lembrando que o clube de Hamburgo Velho surgiu da fusão de três agremiações: América Tênis Clube (tênis), Sociedade de Cantores Frohsinn (canto coral) e Sociedade de Atiradores de Hamburgo Velho (tiro).
